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Coletes Negros ocupam o Panteão e a questão migratória volta ao debate na França

Foto: Le Figaro


FRANÇA Um grupo chamado Les Gilets Noirs (Os Coletes Negros), ocupou o Panteão de Paris na última sexta-feira (12), exigindo sua documentação como cidadãos franceses e o direito à moradia em Paris, uma cidade com mais de 200 mil casas vazias. A agência de notícias Reuters estimou entre 200 e 300 manifestantes no local, mas os organizadores e testemunhas anunciaram mais de 700 presentes.

A Europa passa por intensos processos políticos, assim como o resto do mundo. O Brexit, as demonstrações ultranacionalistas em Chemnitz, a ascensão de líderes de extrema-direita como Viktor Orbán e a onda de refugiados, desenham a atmosfera política da Europa. 

Na França, as manifestações dos Gilets Jaunes (Coletes Amarelos), levaram o país a uma crise política desde o ano passado. Em paralelo, a crise migratória também é central e os refugiados são os mais marginalizados no país, tratados de forma desumana. 

O governo francês ainda continua com uma política de exclusão e nesse ano mais de mil imigrantes foram deportados em uma única operação, que acabou com o campo de Millenaire, assentamento com diversos imigrantes somalis, sudaneses e eritreus sem moradia. A documentação desses imigrantes é um direito negado.

De diversas nacionalidades, os Coletes Negros se autodeclaram “sem-papéis, sem voz, sem rostos para a República Francesa” e foram ao Panteão, onde grandes filósofos e escritores nacionais como Voltaire, Rousseau e Victor Hugo estão enterrados. Na frente de uma placa escrita com “viver livre ou morrer”, os imigrantes denunciaram sua condição e falta de reconhecimento, mesmo trabalhando e ajudando a sociedade francesa. 

Um ativista declarou ao Jornal Trabalhador Socialista que: “A França fala que celebra o fim da escravidão e as revoltas contra o domínio de uma elite. Porém, nossas vidas como imigrantes não documentados têm muito em comum com a escravidão. Sem direitos. Sem liberdade de ir e vir, sem segurança ou futuro”. Um dos panfleto dos Coletes Negros dizia “Não queremos voltar a negociar com o ministério do Interior e as suas prefeituras. Agora queremos falar com o Primeiro-Ministro Edouard Philippe”.

Em desrespeito às reivindicações do movimento, a polícia interveio com cassetetes e gás lacrimogêneo para evacuar o Panteão. Mesmo em manifestação pacífica, a intervenção deixou 40 imigrantes hospitalizados e 37 detentos por violar as leis dos estrangeiros. Apesar disso, o movimento não pretende acabar com as manifestações até conquistar sua audiência com o primeiro-ministro. 

Alguns imigrantes carregavam placas com inscrições como “policiais racistas” e “libertem os Coletes Negros” no comissariado de polícia onde os manifestantes foram detidos, de acordo com a agência francesa de notícias AFP. 

Anteriormente, os Coletes Negros já ocuparam o aeroporto Charles de Gaulle na capital, denunciando a colaboração da empresa aérea Air France na deportação de imigrantes e a sede do grupo Elior nas proximidades de Paris, denunciando a utilização de mão de obra imigrante clandestina sem declarar ou ajudar na documentação.

Depois do ocorrido, o público e figuras políticas da França se dividiram. A líder de extrema-direita Marine Le Pen, ignorando as detenções e a repressão policial, tweetou: “É INADMISSÍVEL ver manifestantes clandestinos ocuparem, com total impunidade, este lugar alto da República que é o #Panteão. Na França, o único futuro de um clandestino deveria ser a expulsão, porque é a LEI”. Alguns membros da Assembléia Nacional expressaram apoio ao grupo como Eric Coquerel, do Partido França Insubmissa, que diz que o governo não os apresentou nada além de uma “porta fechada”. Já o primeiro-ministro tweetou a necessidade de obedecer “o Estado de Direito que significa respeito pelas regras que se aplicam ao direito de continuar [na França], respeito aos monumentos públicos e a memória que eles representam”. 

O negligencia do primeiro-ministro, que não recebeu os refugiados, revela a contradição entre os ideais republicanos da França que derramou sangue em duas revoluções para garantir os direitos civis e a prática exclusiva de integrar os imigrantes em sua sociedade.

Os coletes negros podem transformar novamente o cenário francês já instável. Os coletes amarelos geraram protestos massivos antissistema que não tinham linha política definida, mas uma necessidade de renovar a política francesa. Seu último protesto aconteceu dois dias depois da manifestação dos Coletes Negros, em 14 de Julho, revelando o prolongamento da crise política. Alguns dos Coletes Amarelos influentes já declararam apoio aos Coletes Negros, mas isso não representa a totalidade do movimento, nem a opinião geral. A direitista Marine Le Pen foi quem mais subiu com o movimento dos Coletes Amarelos, tendo 40% de apoio entre os manifestantes no início do ano, e seu principal ataque é contra os imigrantes, enquanto outra tendência do movimento é encabeçada por Black Blocs ou figuras de esquerda, como Jean-Luc Mélenchon, que carregam fortes críticas ao capitalismo. 

Nesse cenário, demonstrações de imigrantes como a dos Coletes Negros representam um novo estágio de lutas e discussões na França, onde o grupo mais oprimido da sociedade põe-se a manifestar e o resto da sociedade francesa discute a origem dos problemas. Quem devemos culpar? Um sistema de exploração que privilegia bilionários e multinacionais enquanto gera guerras no Oriente Médio e deixa a África numa situação miserável ou os próprios afetados pela miséria e pelas guerras, que suas casas destruídas, foram forçados a fugir para a Europa e obrigados viver excluídos, marginalizados e sem direitos sociais?

Hafael Thor
União da Juventude Rebelião


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