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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

57º CONUNE: Engessamento da entidade e vitórias da oposição

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
ISIS MUSTAFAQueria pedir silêncio e respeito enquanto tem uma mulher defendendo tese.


BRASÍLIA Entre os dias 10 e 14 de julho, ocorreu em Brasília, o 57° Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). O  jornal A Verdade enviou ao congresso estudantes delegados, com a tarefa de observar, registrar e cobrir tudo o que aconteceu no congresso da maior entidade estudantil da América Latina. Durante cinco dias, os correspondentes do A Verdade  acompanharam o que os estudantes, cheios de entusiasmo e energia, viveram para votar em uma nova diretoria da entidade que, de agora em diante, tem a responsabilidade de lutar pelos seus interesses econômicos e políticos.

A Experiência do Congresso

Algumas questões gerais do Congresso da UNE (CONUNE) precisam ser observadas com atenção, pois refletem diretamente como essa entidade singular, expressiva e histórica vem sendo gerenciada por sua força majoritária, que utiliza de meios burocráticos, antidemocráticos, para que o congresso mantenha seu poder político e sua hegemonia.

Não podemos utilizar argumentos baseados em discursos declamatórios acalorados, que podem ser facilmente rebatidos por qualquer discurso da própria majoritária, senão fazer uma análise justa e completa do que vimos e provamos concretamente de acordo com uma cobertura dos acontecimentos do próprio congresso.

Dessa forma, evidenciamos a tentativa de aparelhamento e despolitização da entidade promovida pelo campo majoritário de sua diretoria.

Para entender a burocracia por trás do argumento, devemos analisar o método de controle da própria majoritária no processo de seleção daqueles que vão participar ou não do evento. Ao invés de escolher as eleições diretas, como defendido pela própria UNE durante a ditadura militar, a majoritária limitou a iniciativa da base estudantil nas eleições de delegados, organizando processos eleitorais com várias etapas burocráticas, em que os estudantes, depois de eleitos nas  suas universidades, precisam ser credenciados estadualmente e nacionalmente, num processo que praticamente não conta com a participação da base, dadas as diversas fases que precisam ser vencidas pelas representações estudantis.

Após eleitos em suas universidades e credenciados, os delegados ainda precisam contribuir com uma taxa financeira entre R$150,00 e R$300,00 para que a vontade dos estudantes que o elegeram em sua universidade seja de fato concretizada. Porém, além das eleições de delegados e a taxa financeira pouco acessíveis, cada delegado deve passar pelo processo lento e cansativo de credenciamento no congresso, onde se verificam se todas as normas exigidas foram cumpridas. Nossos correspondentes tiveram de esperar por mais de duas horas e meia em filas intermináveis para conseguirem se credenciar enquanto delegados de suas universidades e retirarem seus crachás de representação. Alguns estudantes  relataram ter esperado por até cinco horas na fila do credenciamento. Para os estudantes, esse período do congresso não passa de um momento enfastiante e cansativo, tanto física quanto mentalmente. 

Como se já não bastasse esse processo eleitoral que leva meses, ainda fica a cargo da completa falta de organização da majoritária o controle do credenciamento. Não existe um método de trabalho definido, um completo improviso burocrático permeia o processo. A palavra de ordem parece ser “atrasar ao máximo” até o momento que se torne impossível atrasar e então, improvise para resolver.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
DEBATES Vivian Mendes da Comissão da Verdade do estado de São Paulo e presidente estadual da Unidade Popular Pelo Socialismo participa de mesa para debater o direito à verdade e o combate a fake news nas redes.


Outro elemento que marcou a política da majoritária foi sua tendência de esconder ou mesmo negar o debate com os estudantes. Dos cinco dias de congresso, foi dedicado um único dia para que houvesse debates, falas e intervenções do conjunto dos delegados sobre temas importantes da atualidade política do país. Um exemplo que marcou nossa equipe foi a ausência de uma mesa de debate sobre as mulheres, o que obrigou as forças de oposição a organizarem seu próprio debate sobre o tema, evidenciando uma despolitização grande do congresso.

Os debates que ocorreram contaram com as presenças marcantes de Leonardo Péricles pela Unidade Popular Pelo Socialismo, Vivian Mendes pela Comissão da Verdade e, também, Glenn Greenwald, jornalista do The Intercept Brasil. Momentos importantes como esse foram negligenciados, pois poderiam ter sido convocados ainda mais personalidades dos movimentos populares ou da área da educação para trazerem ainda mais possibilidades de os delegados, suplentes e observadores debaterem e construírem perspectivas entre si.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
DEBATES Três reitores eleitos democraticamente, entre eles Leonardo Vilela, filiado à Unidade Popular Pelo Socialismo, não foram empossados pelo Governo Federal debatem sobre “Educação,  Democracia e Autonomia Universitária.


A alimentação dos congressistas, que deveria em tese ser cuidadosa, saudável e capaz de renovar a disposição dos estudantes para debater e defender suas teses, foi marcada na realidade pelas gigantescas filas, com uma alimentação desequilibrada, que não faz jus às enormes taxas pagas pelos delegados e suplentes para estarem presentes no congresso. Essa precariedade faz com que muitos prefiram pagar com seu próprio bolso uma alimentação improvisada nos quiosques, barracas, bares, carrinhos de lanches que estavam em volta do ginásio ou os alojamentos. Na prática, a alimentação dos estudantes estava garantida somente pela capacidade de sua carteira em financiar uma alimentação. Chegou ao cúmulo de no último dia de congresso o almoço ser liberado apenas às 17h, depois de encerrada a plenária final. Prejudicando inclusive a possibilidade dos estudantes analisarem as propostas de teses e composição da diretoria que seria eleita para representá-los.

Não demorou para que as consequências dessa política tomassem conta do dia. Ao todo, foram mais de trinta pedidos de socorristas só na plenária final do congresso. Todos eles causados, segundo a própria majoritária, pela desidratação do clima seco da cidade combinado com falta de água – que não foi distribuída para todos os estudantes. A água foi negada para a oposição e oferecida apenas a majoritária. Pois, mesmo que estudantes de todas as forças tivessem o mesmo problema, fardos e fardos de água estavam sob controle somente das forças majoritárias, sem que houvesse uma distribuição justa para todos e todas aqueles que estavam precisando.

Os correspondentes do jornal A Verdade testemunharam e registraram um momento durante o processo de votação da nova diretoria onde um estudante que precisou de atendimento dos socorristas e foi carregado pelos braços, por não haver estrutura suficiente para o atendimento. Ao entrarmos em contato com os socorristas, nos foi revelado que havia apenas uma única maca para todo o congresso e ela já estava sendo utilizada. Isso demonstrou a nós não só as condições precárias de assistência médica aos estudantes, mas a falta de responsabilidade e compromisso com os estudantes por parte das forças que organizam o congresso.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
FLAGRA Estudante é socorrido pelos braços, pois durante o congresso não foi organizada uma estrutura de atendimento médico para os delegados e observadores, segundo os socorristas.


Apesar das dificuldades enfrentadas, a Oposição Unificada deu exemplo de maturidade política, determinação e combatividade no 57º Congresso da UNE

Caminhando ao lado da oposição, composta pelos movimento Correnteza, Juntos, Rua, MUP e Juventude Sem Medo, entre outros, o jornal A Verdade pode presenciar, por mais desgastantes que tenha sido o congresso, um grande conjunto de estudantes cheios de energia, otimistas e com fibras de aço, dispostos a mudar a realidade da entidade, da educação e do país. Os problemas acima citados pareciam reafirmar a convicção de cada delegado em construir a UNE sem a burocracia e o exclusivismo da majoritária. Pois compreenderam que o problema não é a entidade, mas aqueles que a sucateiam.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
DEFESA Gabryel Henrici defende a tese da Oposição Unificada na Plenária Final do 57º Congresso da União Nacional dos Estudantes.


Através de uma intensa campanha de agitação e intermináveis e enérgicas palavras de ordem, o campo de oposição teve uma participação bastante vitoriosa no congresso. Sua política de radicalização da luta e energia para o combate, engrandeceu a manifestação do dia 12 de julho, que reuniu mais de 10 mil estudantes em marcha da Esplanada dos Ministérios até o Congresso Nacional. O candidato à presidência pelo Movimento Correnteza, Gabryel Henrici, e o Presidente Nacional da Unidade Popular Pelo Socialismo, Leonardo Péricles,  caminharam em conjunto com demais movimentos sociais, liderando um bloco de milhares de estudantes contra a Reforma da Previdência.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
MANIFESTAÇÃO Gabryel Henrici e Leonardo Péricles marcham em conjunto não só em defesa da educação, mas contra a Reforma da Previdência.


Essa manifestação representou a todos os estudantes um anseio de resistência à Reforma da Previdência que naquele exato momento estava sendo votada. Essa manifestação foi importante para reafirmar a unidade entre o Movimento Correnteza e as demais forças da oposição.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
UNIDADE Em conjunto, MUP, Movimento Correnteza e Juntos estão juntos contra os retrocessos promovidos por Bolsonaro.


Nos dias que se passavam, ficava mais claro entre os delegados do Movimento Correnteza, a necessidade de mudança estrutural e política, que se materializava no fortalecimento de sua candidatura ao lado dos demais movimentos que compunham a oposição à majoritária.

Foto: João Márcio Dias/Jornal A Verdade
AGITAÇÃO O que marcou a presença do Movimento Correnteza no 57º CONUNE foram suas incansáveis palavras de ordem.


Durante as defesas de tese, apresentaram-se as diferenças políticas entre os campos que disputam a entidade. De um lado aqueles que articulavam-se a partir da conciliação e de táticas eleitoreiras e do outro aqueles que defendiam a ampliação ainda maior da radicalização das lutas estudantis em todo o país.

As críticas da oposição à majoritária eram respondidas com gritos infantis, ofensas e tentativas de silenciamento, o que  não reflete apenas a despolitização a qual os estudantes foram submetidos, mas uma tentativa de censura à liberdade de expressão daqueles que se opõem à política da diretoria majoritária. A estudante, Isis Mustafa, uma das candidatas à diretoria pela oposição, sofreu por diversas vezes tentativa de desestabilização e desmoralização enquanto defendia as candidaturas de seu campo e exigiu “silêncio e respeito enquanto tem uma mulher defendendo tese”.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
INFANTILIDADE POLÍTICA Militantes da UJS (PCdoB) gesticulavam e tentam dificultar a defesa da candidatura de qualquer candidato da oposição. Os gestos, acompanhados por xingamentos e muito barulho da bateria do movimento, tentavam censurar a liberdade de oposição política.


Durante as inscrições de chapa, 6 movimentos apresentaram suas candidaturas, porém, as chapas “Que os Capitalistas Paguem Pela Crise” e “Juventude que Batalha” retiraram suas candidaturas e declararam apoio à oposição, sem contar também uma fração entre a própria majoritária, sendo a chapa “UNE Para Tempos de Guerra” uma antiga força da atual diretoria em congressos anteriores que, pelas contradições políticas imobilistas que ali permeiam a mesa diretora, desistiram da tradicional aliança. Isso confirma o argumento de que um número expressivo de estudantes e movimentos que não aguentam mais a atual direção, tanto por sua incapacidade política de continuar gerindo a entidade quanto por seu aparelhamento burocrático de acordo com seu interesse político reformista e eleitoreiro. A chapa “Socialistas” do PSB também participou das eleições.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
GABRYEL HENRICI O candidato à presidência pela oposição defendeu a necessidade de uma mudança radical da postura da entidade em relação à conjuntura: Se a conjuntura mudou a UNE tem que mudar! Precisa estar pronta para enfrentar a nova conjuntura e derrotar o governo Bolsonaro e o fascismo no Brasil


A campanha enérgica e sem cansaço de agitação política da oposição tiveram resultados expressivos nas eleições. De plenária em plenária, mais energia era necessária e mais vozes eram gastas. De forma generalizada, toda a militância estava sem voz ou rouca por conta das atividades de agitação. No total, foram 1.228 votos para a chapa que tinha Gabryel Henrici como candidato à presidência da entidade. Um crescimento expressivo em comparação ao último congresso em julho de 2017. Além da 4ª escolha de cargo para a diretoria, que dá a possibilidade de compor a mesa diretora ou até mesmo a tesouraria da entidade, a Oposição Unificada garantiu quatro cargos na Diretoria Executiva da maior entidade estudantil da América Latina, sem contar os treze diretores no Pleno.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
OPOSIÇÃO Chapa que unificou a oposição posa para foto após defesa da candidatura para todo o plenário.


Apesar do crescimento, a majoritária ainda detém a presidência e vice presidência, com Iago Montalvão (UJS) e Élida Elena (Levante), com uma composição que recebeu o total de 4.053 votos. 

A construção da maior bancada de oposição desde o congresso de 2003 da entidade, proporcionou um grande avanço político para as forças que lutam para colocar a UNE no sentido da radicalização das lutas. A eleição da 4ª chamada e de uma grande diretoria aumenta nossa capacidade de intervir nos rumos da entidade nesse momento histórico em que a luta contra o fascismo exige que a UNE esteja cada vez mais próxima de sua base, a frente de grandes levantes estudantis que coloquem abaixo o governo de Bolsonaro e dos banqueiros.

Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade
VITORIOSOS O Movimento Correnteza sai do 57º CONUNE ainda mais vitorioso após construir esse congresso histórico para os estudantes que defendem a radicalização da luta.


Thales Caramante
Universidade Mogi das Cruzes
Jorge Ferreira
Universidade Mackenzie
Carlos Machado
Universidade Federal do ABC

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