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Opinião | “A naturalização do holocausto ambiental capitalista”

A destruição das riquezas naturais promovida pela sanha capitalista à luz do fenômeno recente que escureceu a cidade de São Paulo com fuligem vinda da queima na Amazônia.

Guilherme Piva


Foto: Divulgação/ReutersCRESCENTE – Queimadas aumentam 82% em relação ao mesmo período do ano passado.


CARTA – Essa semana, o Brasil ficou horrorizado com a motivação do “crepúsculo” precoce em São Paulo: uma frente fria carregou para o centro-sul do país fumaça cheia de gases tóxicos provenientes de queimadas na região amazônica, que aumentaram absurdamente no ano de 2019, chanceladas pelo discurso do fascista Jair Bolsonaro, que, sem respeito algum ao povo brasileiro e às nossas riquezas naturais, definiu-se diante do ocorrido como “capitão motosserra e novo Nero”, em referência ao imperador romano a qual é atribuído o grande incêndio de Roma.

Foto: Twitter/@looiranaNOITE – Em São Paulo, o céu escureceu às 15h fruto da fuligem vinda das queimadas na Amazônia.


A grande mídia, como era de se esperar, abordou o tema como uma fatalidade: de maneira superficial, a Rede Globo noticiou o fato no Jornal Nacional. Além de omitir deliberadamente os responsáveis pelas queimadas – os latifundiários que crescem os olhos sobre a floresta tropical, visando utilizá-la como área de pasto para o gado – afinal, a emissora fatura com os comerciais que exibe várias vezes ao longo do dia exaltando o agronegócio, afirmando que “agro é tech, agro é pop, agro é tudo” -, o telejornal reportou o crime ambiental como se fosse uma catástrofe, um desastre natural. Quando William Bonner chamou a repórter Maju Coutinho para a previsão do tempo, ela ainda “brincou” com o fato de a chuva estar carregada de fuligem.

Foto: Divulgação/Windy.comMANCHA PRETA – Mapa mostra caminho da fuligem das queimadas, trazida para o sudeste com frente fria.


Não demorou para que o assunto repercutisse na internet e causasse revolta e tristeza. Pouco tempo depois, já havia surgido nas redes a hashtag #PrayForAmazonia”, a tradicional carta na manga dos pequeno-burgueses para mostrar tristeza e consternação perante algum ocorrido. Textos lamentando o crime causado pela “ganância humana” também não faltaram.

Mas o que há no discurso superficial da “ganância humana”? A quem esse discurso interessa? Tal discurso, além de não trazer uma crítica profunda, serve à burguesia, e é difundido por ela. Mas com que objetivo? O de naturalizar o holocausto ambiental capitalista, tratando os crimes ambientais da burguesia de maneira conformista, e assim, desviando o foco dos verdadeiros culpados: os capitalistas e latifundiários.

Esse jargão está embebido em ideologia burguesa e, ainda que não seja a intenção de quem o reproduz, aponta a degradação ambiental como sendo algo inerente à humanidade (aquele discurso da “natureza humana”), algo impossível de ser mudado e sem qualquer conexão com o modo de produção capitalista. Porém, o que a história mostra é que a destruição da natureza possui uma relação direta com o desenvolvimento do capitalismo. A revolução industrial constituiu o marco de uma alteração drástica das relações entre o ser humano e o meio natural.

“Porquanto os capitalistas isolados produzem ou trocam com o único fim de obter lucros imediatos, só podem ser levados em conta, primeiramente, os resultados mais próximos e mais imediatos. Quando um industrial ou um comerciante vende a mercadoria produzida ou comprada por ele e obtém o lucro habitual, dá-se por satisfeito e não lhe interessa de maneira alguma o que possa ocorrer depois com essa mercadoria e seu comprador. O mesmo se verifica com as consequências naturais dessas mesmas ações. Quando, em Cuba, os plantadores espanhóis queimavam os bosques nas encostas das montanhas para obter com a cinza um adubo que só lhes permitia fertilizar uma geração de cafeeiros de alto rendimento pouco lhes importava que as chuvas torrenciais dos trópicos varressem a camada vegetal do solo, privada da proteção das arvores, e não deixassem depois de si senão rochas desnudas! Com o atual modo de produção, e no que se refere tanto às consequências naturais como às consequências sociais dos atos realizados pelos homens, o que interessa prioritariamente são apenas os primeiros resultados, os mais palpáveis.”
Friedrich Engels: O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem.

É inerente à humanidade, algo instintivo da espécie humana, calcular quantas pessoas morreriam caso a barragem de Brumadinho se rompesse, como a Vale fez?

O falso argumento da “ganância humana” cai por terra quando analisamos as sociedades da América pré-colombiana, ou mesmo o Brasil pré-colonização. Ora, se a exploração predatória da natureza fosse algo inerente ao ser humano, incas, maias, astecas e os muitos povos indígenas do Brasil e dos demais países da América, pela lógica, degradariam o ambiente de maneira predatória, com a mesma voracidade com que a burguesia hoje faz. No entanto, essas sociedades, pelo contrário, nutriam um respeito enorme pela natureza, vendo-a como algo sagrado.

A essência do capitalismo é predatória, e incompatível com a preservação. O “desenvolvimento sustentável” pregado pelo capitalismo verde, assim como a “ganância humana”, não passa de um artifício da burguesia que, de forma ardilosa, não só oculta do povo a motivação por trás do holocausto ambiental que promove, sua sanha por aumentar cada vez mais os lucros, como também mascara suas ações passando uma imagem de “sustentável” e engajada na preservação ambiental. Somente com o fim da exploração do homem pelo homem poder-se-á superar também a exploração predatória da natureza pelo homem. Portanto, se queremos garantir verdadeiramente o desenvolvimento sustentável, devemos construir uma sociedade nova, que não seja baseada na subordinação ao lucro dos grandes capitalistas: a sociedade socialista, sem a qual discursos de preservação da natureza e da vida na Terra são meros slogans.

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