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Fernando Santa Cruz foi assassinado por lutar pela democracia no Brasil

Em meio as acusações do Presidente fascista, a família de Fernando Santa Cruz se posicionou em defesa da verdade, memória e justiça.

Thiago Santos e Redação


Foto: Reprodução

O Jornal A Verdade entrevistou o advogado e militante Marcelo Santa Cruz, irmão de Fernando Santa Cruz, militante da Ação Popular Marxista-Leninista (APML) assassinado em 1974, aos 26 anos, pela ditadura militar. Recentemente, o fascista Jair Bolsonaro declarou, na frente das câmeras de TV, que “se o presidente da OAB quiser saber como o pai desapareceu no período militar, eu conto para ele”. O presidente da OAB em questão é Felipe Santa Cruz, que tinha menos de dois anos quando o pai foi sequestrado por agentes da repressão no dia 22 de fevereiro de 1974. Fernando é um dos 210 desaparecidos políticos do regime militar.

A Verdade – Como foram os últimos momentos de Fernando Santa Cruz com a família?

Marcelo Santa Cruz – Fernando residia em São Paulo havia alguns meses, pois tinha passado no concurso público para o Departamento de Águas e Energia Elétrica e, na ocasião, aproveitou o Carnaval para ir com a família ao Rio de Janeiro, chegando dias antes do feriado para tratar de sua transferência da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense para uma faculdade em São Paulo. Estavam todos hospedados na minha casa, na Rua Corrêa Dutra, no Catete.

No sábado pela manhã, ele foi à praia e à tarde estava deitava na sala do meu apartamento, quando Felipe, que tinha um ano e dez meses, o acordou sem querer. Fernando acordou apressado, olhou o horário no relógio e disse: “Estou em cima da hora”. Falou com Ana Lúcia, sua esposa, e saiu em seguida. Eu não escutei o que eles haviam conversado, mas depois tomei conhecimento que ele a avisou que iria se encontrar com Eduardo Collier às 16h, em Copabacana, e que retornaria até às 18h. Eduardo era um companheiro também de Pernambuco, da mesma organização, a APML.
Ele não retornou neste horário e Ana Lúcia também não se atentou muito, pois pensou que Fernando teria ido dormir na casa de Márcia, nossa irmã, que morava em Santa Teresa. No dia seguinte, o pessoal que estava na casa de Márcia passou na minha casa perguntando por Fernando. Foi então que Ana Lúcia atinou para o que aconteceu: “Ele foi preso”.

Aí começamos as buscas. Uma semana depois, a gente conseguiu botar nos “Classificados” de um jornal de grande circulação o anúncio do desaparecimento de Fernando e prestamos uma queixa na delegacia comum do bairro. Isso gerou um problema porque todos os órgãos de segurança nos acusavam de ter publicado uma senha para informar que Fernando teria sido preso. Na verdade, para nós, foi o primeiro indício de que Fernando tinha sido preso devido à importância que a repressão deu para a notinha no jornal e a queixa na delegacia.

A Verdade – A família conseguiu reunir vasta documentação que comprova que Fernando esteve nas dependências dos órgãos militares. De que forma se deu o trabalho de reunir este material?

Marcelo Santa Cruz – Buscamos documentação em Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo e mamãe escreveu várias cartas há época e conseguiu mobilizar parlamentares, advogados, personalidades, escrevemos o livro “Onde está meu filho?”, marcando os dez anos do desaparecimento de Fernando. Este livro foi feito baseado no dossiê sobre a busca de Fernando. O caso de Fernando teve grande repercussão e foi um dos primeiros levados à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, ainda em junho de 1974. O governo brasileiro sonegou várias informações, prestou outras tantas informações inverídicas, etc.

A Verdade – O que você tem a dizer sobre a declaração do presidente da República em referência à morte de Fernando, dirigindo-se ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz?

Marcelo Santa Cruz – É de uma crueldade sem limites. Você pode discordar das pessoas no plano das ideias, mas não pode atingir a honra e a memória das pessoas que já morreram. Com isso, ele atingiu toda a família, especialmente Felipe, que foi privado da convivência com o pai, que tinha apenas 26 anos. Eu recebo as palavras do presidente como as palavras de um capitão dos porões da ditadura, e não como as palavras de um chefe de Estado. Nós, enquanto familiares, vamos interpelar Bolsonaro no STF e levar o caso novamente à Corte da OEA.

Eu acho que é uma obrigação da nossa geração e das pessoas que perderam seus entes queridos na luta pela democracia, pela liberdade, de resgatar esta história, inclusive, para sermos dignos do sacrifício a que estas pessoas foram submetidas. Fernando foi sequestrado e morto sob torturas e nem o governo nem as Forças Armas nunca admitiram isso. Deve ser um compromisso de todos que defendem a democracia denunciar estes fatos para que o período de chumbo não retorne nunca mais.

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