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A resistência e solidariedade mauaense nos tempos de ditadura: Entrevista com a historiadora Sandra Portuense

A obra Ação Popular em Mauá: Resistência e Solidariedade em Tempos de Ditadura retrata o cenário municipal em um contexto de repressão.

Gabriela Torres
Unidade Popular pelo Socialismo


Foto: Univas

MAUÁ – Qual é a História que se confunde com nossas histórias pessoais e nos acompanha em linhas invisíveis? Para Sandra Portuense de Carvalho, professora da rede estadual e historiadora nascida em Santo André, a resposta à essa pergunta é imprescindível: Autora do livro Ação Popular em Mauá – Resistência e Solidariedade em Tempos de Ditadura, fruto de sua tese de mestrado, a pesquisadora defende a compreensão da importância das periferias na resistência e a participação popular na construção das narrativas históricas. E é exatamente esse o pano de fundo de seu trabalho.

Foto: Alpharrabio

Sandra Portuense, doutoranda e pesquisadora sobre a participação da cidade de Mauá na luta contra a ditadura de 1964.

Concluída em ­­2017 e resultado do contato com militantes socialistas e apoiadores da região do ABC, a pesquisa de Portuense irá tratar da trajetória da Ação Popular (AP), organização política de esquerda com influência das bases da Igreja Católica que atuou contra a ditadura militar fascista. Uma das maiores lideranças do grupo; Herbert José de Sousa, mais conhecido como Betinho; liderança do movimento estudantil mineiro, foi transferido para a cidade de Mauá (SP) para vivenciar a realidade dos operários e trabalhou na fábrica de louças, produção de mais força da cidade.

Foto: Blog Revide

Herbert José de Sousa, sociólogo mineiro e um dos grandes inimigos da Ditadura Militar, trabalhou como operário em Mauá e foi protegido pela população local.

Seu trabalho irá detalhar sobre a participação da Célula Base 22 da Ação Popular no Jardim Zaíra, um dos bairros da periferia de Mauá, e sobre a importância da comunidade local na luta contra o regime militar. A construção popular dos bairros, as organizações espontâneas dos moradores em associações para reivindicar melhorias, os debates políticos que permeavam aquela realidade e as redes de solidariedade – o acobertar de militantes comunistas foragidos, o aviso, a ajuda nos momentos de fugir e as ações para despistar a repressão – são provas de que a população mauaense teve uma participação importante no fortalecimento da luta contra os carrascos da ditadura e pela alternativa comunista que os militantes salvos pelos moradores tanto defendiam. O Jornal A Verdade teve a oportunidade de conversar com a escritora da obra.

A Verdade – Por que você escolheu esse tema como objeto de pesquisa?

Então, na verdade, esse tema veio até mim muito da minha inquietação enquanto professora. Quando a gente trabalha com ensino médio, quando a gente trabalha História do Brasil, principalmente ali, na década de sessenta, setenta, a gente percebe que se fala bastante sobre a ditadura militar, sobre alguns movimentos sociais. Mas o ABC paulista só vai ser protagonista de alguma coisa já com as movimentações de greve dos anos oitenta, e dá a impressão que isso tudo surgiu do nada, que não houve um passado, não houve uma construção.

Daí nasceu essa necessidade de conversar com pessoas que tivessem vivido o período da década de sessenta, setenta e que tivessem vivido a experiência da ditadura militar pra tentar entender como eram as lutas contra, a resistência contra. Foi quando eu conheci o senhor Getúlio Miguel de Sousa. Ele vai me contar um pouco da história desses movimentos sociais aqui em Mauá, principalmente da Ação Popular, a AP, e ele vai me apresentando outras pessoas, outros militantes daquela organização. E através disso surge, em 2010 ou 2011, a ideia de fazer meu mestrado. Então, o meu livro é fruto da minha dissertação de mestrado, que foi onde eu pesquisei essa célula, essa organização. A CB [Célula Base] 22 da Ação Popular aqui no Jardim Zaíra.

A Verdade – A História Oral é um método democrático de fazer pesquisa. Explique-nos porque esse foi adotado.

A História Oral é uma perspectiva que, não é dar voz para as pessoas. E sim da gente dar ouvidos para as pessoas que têm o que contar. Então, são esses diferentes pontos de vistas, essas diferentes perspectivas, mas que têm em comum essa vivência no social, essa experiência do coletivo, essa experiência do movimento social, a História Oral é democrática porque ela contempla todas as camadas sociais. Você pode entrevistar diversas pessoas de diversa comunidades e saber sobre a cultura, sobre a história.

Mas sempre lembrando que é uma questão do resgate da memória, não daquilo que realmente foi vivido, porque aquilo já está no passado. É a memória sobre aquela experiência: fatos que se sobressaltam com maior ênfase, fatos que ele [o entrevistado] omite, a gente tem que entender também o porquê, lembrando sempre que a História Oral vêm sempre junta com a expressão corporal, sempre levamos o caderninho para anotar essa expressão corporal, o sentimento que vêm à tona… Tudo isso a gente procura utilizar, coisa que se fosse só um documento, que ao meu ver às vezes é frio, não poderiam alcançar. A gente tem que compreender essa memória do entrevistado.

A História Oral tem muito disso também: o respeito, a devolutiva, é o que você está fazendo com aquilo. Se você está lidando com um movimento social, como é que você devolve isso para eles? Por isso, durante a pesquisa, fiz questão de levar o material pronto para todos eles, de levá-los até as palestras que eu dava, para eles se verem ali. Para eles se enxergarem ali, como parte da História.

A Verdade – Qual foi o papel dos habitantes da cidade nessa relação de perseguição?

Antes mesmo da ditadura, antes mesmo do golpe de 64, já haviam vários movimentos sociais aqui. Ao redor da comunidade, das associações amigos do bairro, junto às igrejas, já havia uma participação política e uma atuação dos moradores para conseguir coisas básicas pro dia a dia ali: o asfalto, a água encanada, a luz, um posto de saúde, uma escola… Antes mesmo de 64, esses moradores já se reuniam em grupos de mães, em grupos de jovens da Igreja, esse período que eu pesquisei é um período muito peculiar porque é a mistura da Igreja tradicional da década de cinquenta, que vinha do interior e congregava os marianos, que era uma Igreja mais de oração. E eles [os moradores] pegam a transição para uma Igreja mais progressista, e tem a sorte do padre que vem pra cá, que tem esse olhar mais progressista, um olhar de auxílio aos operários e moradores. Então quando a Ação Popular e outras organizações, como o Partido Comunista Brasileiro, vem para cá, a organização desse povo já existia. A diferença é a atuação: você sai da Igreja, com discussões mais fechadas em si e no bairro, e você amplia para questionamentos do país. Para o que estava acontecendo no país, e até mesmo no mundo. Em um dos caderninhos de dona Gilda, tá registrado, as mulheres mauaenses discutiam Guerra do Vietnã e a interferência norteamericana lá. É um engajamento contra a ditadura, mas é também um engajamento na sua perspectiva de cotidiano, de luta no cotidiano, com essa luta contra a ditadura iria melhorar o dia a dia deles ali.

A Verdade – Como se sente sendo autora de uma obra que retrata a resistência contra a ditadura militar em um contexto de retrocessos históricos na política como atualmente?

Durante um tempo, eu senti um certo receio, principalmente quando eu lancei o livro, porque lá em 2017, a gente começava a sentir que o por vir seria mais tenso. Hoje percebo que a gente tem que ir divulgando e fazendo como trabalho de formiguinha, e ampliar esse conhecimento, estar por exemplo hoje, eu conversando com você, a gente estar fazendo uma palestra em outro grupo, você estar conversando com as pessoas e tentando conscientizar ali. Uma hora, isso vai dar frutos. Tenho consciência que, na atual situação em que estamos, se formos agora pro embate direto, talvez a gente não tenha tanta vitória ao invés de ir ali, pela base, o trabalho de formiguinha, o trabalho de conscientização, o mostrar as semelhanças com o passado; já que tem muito desse período ditatorial que a gente percebe hoje: o cerceamento da liberdade do falar, do agir, essa censura que hoje tá um pouquinho velada mas existe… Hoje posso dizer que estou mais corajosa do que quando lancei meu livro. Foi um ano muito impactante, e pensava “não é possível que vá acontecer isso”, e quando você percebe que as coisas vão caminhando, você vai tendo que criar coragem de falar “não, pera aí. Alguma coisa a gente precisa fazer”.

A Verdade – Qual é a mensagem que fica para a população de Mauá?

Que é preciso lutar. Que o individualismo não nos leva a nada. Precisamos saber a dor do nosso semelhante, e auxiliar essa pessoa, auxiliar de forma coletiva, não dá pra viver como se você vivesse sozinho. O meu bem é o bem do meu semelhante também. Eu falo muito baseado naquilo que aprendi, daquilo que eu vivenciei, todas as vezes que as pessoas se uniram, a união realmente fez a força, é diferente. A gente tem que lutar, tem que estar engajado, tem que estar participando, tem que estar ativo, não isolado. Continue ajudando, continue no trabalho de formiguinha ali, que uma hora, a gente consegue.

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