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“Do estudo à prática”, dois meses de intenso debate racial em Florianópolis.

De cursos sobre a questão racial, partiu-se para as mobilizações de rua e de cultura pela cidade de Florianópolis.

Matheus Menezes e Mathaus Caricate


Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade

SANTA CATARINA – No dia 26 de outubro, em Florianópolis, a militância da União da Juventude Rebelião, apoiadores e convidados participaram de um curso de formação ministrado pelo companheiro Queops Damasceno intitulado “O Papel do Povo Negro na Formação da Nação Brasileira”. Durante o período da manhã, discutiu-se sobre os primeiros processos de formação do Estado brasileiro e de como os negros africanos, trazidos à força, foram inseridos no modelo escravista de trabalho, depois, na parte da tarde, sobre as táticas e estratégias da população negra para resistir à escravidão, que além de uma forma de trabalho, era também um processo de extermínio.

No curso foram usados como bibliografia alguns trabalhos do pensador negro Clóvis Moura, que além de sociólogo, historiador, jornalista e escritor, foi também militante marxista, que muito pensou e contribuiu para o movimento negro a luz de uma perspectiva revolucionária.

Prova disso é sua visão sobre o negro na construção do país, presente de norte a sul, desde as plantações, casa-grande até a mineração, e que apesar de ter construído mais de 90% da riqueza do país, nem a 1% teve acesso. Tem início aí, o imenso fosso de desigualdade brasileiro. Os negros, porém, nunca aceitaram pacificamente a opressão: desde os primeiros anos da escravidão, organizavam fugas e levantavam quilombos, auge de sua organização e resistência. Por conta disso, segundo Clóvis Moura, os negros se tornaram “semeadores de cidades”, pois os quilombos, na medida que cresciam, e aglutinavam índios, ‘pardos’ e até mesmo brancos pobres fugidos, se tornavam o que seria o embrião de povoados e cidades.

O autor dá bastante ênfase nas formas de resistência que os negros desenvolveram, o que é importante para desmentir as teorias de Gilberto Freyre sobre como foi a escravidão no Brasil. Mostra que não houve de forma alguma uma relação harmônica entre senhores e escravos, que longe da ideia romântica de Freyre, todo o período da escravidão foi marcado por muita violência por parte dos senhores, e muita organização de resistência, solidariedade e luta por parte dos negros escravizados. Ele questiona a falsa democracia racial da qual o Estado Brasileiro se valeu pra negar o racismo, e aponta o sentido dissimulado do racismo brasileiro que, como arma de opressão ideológica juntava-se a repressão, tornando a exploração a que os negros estavam submetidos muito mais violenta.

A segunda e última parte do curso, distinguiu o abolicionismo institucional da quilombagem, o abolicionismo essencialmente negro, que ia muito além da dimensão legal. Foi possível ver que, mesmo com as divergências entre os dois movimentos, juntos produziram duas históricas experiências de luta, a sublevação dos caifazes e a Bastilha, que demonstraram um nível extremamente complexo de organização estratégica e tática não deixando margem para outra conclusão que não seja de que, a escravidão foi marcada por muito sangue, muita revolta e uma força negra poderosa.

FORMAÇÃO – O curso “Papel do Povo Negro na Formação da Nação Brasileira” foi realizado em vários estados do país.

Mobilizações Antirracistas em Florianópolis: A “Marcha da Consciência Negra.”

O dia 20 de novembro no Brasil é marcado pela morte de Zumbi dos Palmares, grande liderança do Quilombo dos Palmares, localizado em Recife. No dia 23 de novembro, em Florianópolis, a juventude negra construiu a “Marcha da Consciência Negra: Contra o Genocídio do Povo Negro em Defesa dos Direitos”, marcando a presença da população negra na cidade. A idealização da marcha foi da Frente da Juventude Negra Anticapitalista (FREJUNA).

Foto: Reprodução/Frejuna

O processo de construção da marcha envolveu desde as escolas públicas às escolas de samba, levando em consideração os locais costumeiros da população negra. No dia, para além da marcha em si, do momento de grito, denúncia e afirmação política, houve roda de capoeira, apresentações dos grupos de rap local, maracatu, discotecagem e por fim, batalha de conhecimento.

A marcha deixou sua marca pelas ruas do centro de Florianópolis, ecoando mais de 400 vozes negras presentes, crianças, jovens e velhos, pelos esquadrinhados do centro da cidade. Dando mais um capítulo a luta histórica do povo negro trabalhador, valorizando o sangue derramado daqueles que já se foram e dando o seu suor, por aqueles que ainda estão por vir.

“A necessidade de tal ato se dá pelo cenário de exploração, de precarização da vida, de retirada de direitos, e também de índices de violência que aumentam devido a uma crise da taxa de lucro das grandes empresas multinacionais ou não, que aplicam uma agenda de maior exploração sobre os trabalhadores e trabalhadoras, mas que atinge principalmente a população negra, por ser aquela que é desumanizada por conta da sua cultura, da sua estética e em especial pela sua cor de pele. Em um estado como o de Santa Catarina, onde somos quase 1 milhão de negros e negras vivendo e contribuindo para o crescimento da qualidade de vida do estado e do Brasil, não podemos mais aceitar os diversos atos explícitos e estruturais de racismo que ocorrem, temos a capacidade de tomar a rédeas da situação e mudar o cenário violento que nos é colocado.” – Pontua Lucas Anhaia, estudante de história na UFSC e organizador da marcha.

Nos fica de saldo a certeza de que só a organização da população negra, numa perspectiva revolucionária, pode dar cabo à opressão racista do Estado Brasileiro e à exploração imperialista, que devemos derrubar por terra as ilusões com os sistemas políticos burgueses, colônias, república, a própria democracia, todos foram e são incapazes de eliminar a desigualdade entre brancos e negros, pois dela o capitalismo se alimenta todos os dias.

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