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França: uma lição da classe operária de como desorganizar o inimigo

A classe operária francesa está resolutamente contra a reforma da previdência e partiu para a ofensiva. Sua tática: caos organizado; seu objetivo: blackout.

Thales Caramante


Foto: Bertrand Guay/AFP

PARIS – Com uma sociedade inteira ansiosa por greves e manifestações alimentadas pela radicalidade dos coletes amarelos e negros, a greve geral que estava marcada para o dia 5 de dezembro segue até hoje e toma nova forma. A classe operária sobressai com uma ofensiva fumegante contra o governo ao cortar o fornecimento de energia. O blackout organizado já atingiu centros comerciais, indústrias e pelo menos 150 mil casas.

O proletariado não se limitou a greves e paralisações no setor energético. Os trabalhadores organizaram verdadeiros “apagões” nos transportes, shoppings, hospitais, canteiros de obras, nas escolas e fábricas.

O medo circunda a burguesia francesa. A ex-Ministra dos Transportes e hoje Ministra da Transição Ecológica e Integração, Élisabeth Borne (LREM), acovardou-se durante uma entrevista no programa France Inter, “houve cortes [de energia] a grandes empresas, prefeituras, centros comerciais, clínicas, quartéis dos bombeiros. Isso está muito longe do modo normal de fazer greve”.

Após essa declaração, voltou a recuar e condenou metroviários grevistas nas redes sociais: “o livre exercício do direito de greve não dá direito de invadir, bloquear ou intimidar os viajantes”.

Declarações como essa não estão sendo incomuns. No período mais ativo das manifestações, Macron e seus publicitários encaminharam autoridades, ministros e líderes locais às televisões francesas para propagandear a nova reforma previdenciária, condenar as ações ousadas e exitosas da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e implorar que os grevistas fossem às mesas de negociação.

Essa crise política que atinge a burguesia francesa se reafirma continuamente a cada nova movimentação da classe operária. O autor da reforma, Jean-Paul Delevoye (LREM), renunciou seu cargo de delegado do Alto Comissário da Previdência (Haut-commissaire) no dia 16 de dezembro, seção subordinada do Ministério da Saúde, encabeçada por Agnès Buzyn (LREM).

O governo acreditava que as paralisações cessariam e que, pelo menos momentaneamente, a rede elétrica voltaria à normalidade pelas comemorações de fim de ano. Porém, cerca de 50% dos passageiros de metrôs e trens não puderam ou poderão viajar por conta das paralisações, piquetes e agitações dentro das estações.

Foto: Christian Hartmann/Reuters

Ao que tudo indica, pelo dossiê montado pelo Partido Comunista dos Trabalhadores da França (PCOF) e pelo jornal La Forge, a maioria dos franceses não deu atenção às autoridades políticas desmoralizadas. Cerca de 1 milhão e 800 mil trabalhadores paralisaram no dia 17 de dezembro. Membros da CGT cortaram a eletricidade de instituições de poder – ministérios, senado e grandes monopólios – por algumas horas.

Essa rede de acontecimentos mostra que o proletariado francês, junto à classe operária equatoriana e chilena, está indicando um caminho para todos os trabalhadores do mundo. Não bastam manifestações com alto grau de violência, a França já viveu essa ascensão com os coletes amarelos – é preciso que a classe operária paralise também sua produção diária, que faça greve, que fustigue a extração de mais-valia.

Com toda a estrutura de poder moral e político da burguesia desmoralizada, o governo apela para os sindicatos amarelos cuja atuação é patronal, porque procuram meios de “moralizar” a reforma, prometendo que os pontos mais reacionários serão liquidados na mesa de negociação com o governo.

A Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT) atua como esse instrumento do governo para aparelhar e atrasar o desenvolvimento da luta de classes e possui um contingente de 810 mil trabalhadores. Porém, com um governo desacreditado e uma burguesia amedrontada, novos ventos sobem a França por meio da destreza do proletariado – proletariado esse que tem a capacidade elementar de apagar a rede elétrica e acender a chama revolucionária em todo país. O desenrolar dos acontecimentos deixará ainda mais claro quem são os inimigos que a classe operária francesa combaterá.

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