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Pressão estética e transtornos alimentares, uma receita de morte

Carta anexada na edição 223 do jornal impresso, página 10.

Samantha Paz


BRASIL – Todos os dias o capitalismo coloca à prova se somos bons o suficiente, se produzimos o suficiente, se temos uma boa imagem, se seguimos um determinado padrão de comportamento, entre outras coisas. Tudo isso não passa de uma pressão estética e cultural para determinar, socialmente, qual imagem as pessoas precisam ter para serem aceitas, conseguirem empregos, ocuparem lugar nos bancos de transporte público, conseguirem comprar roupas em lojas populares, e até mesmo para acessar efetivamente seu direito ao atendimento de saúde. 

Essa pressão é justificada pelo que é “bonito” e, por vezes, usa o argumento de que o mais bonito (magro) é o mais saudável, embasando-se no IMC (índice obtido pela relação entre peso e altura criado no século 18 e que segue como padrão de definição do corpo ideal), apesar do avanço na medicina e das dezenas de formas mais eficazes para avaliação de saúde corporal.

O padrão de beleza não é aleatório. Esse estereótipo se modificou ao longo dos séculos e hoje é definido a partir de corpos brancos, magros e “esteticamente agradáveis”. Essa opinião é formada social e culturalmente, ligada diretamente ao capitalismo, ao machismo e ao racismo estrutural. Desta forma, ela animaliza e hipersexualiza corpos negros, além de tratar todos os corpos gordos como doentes e com desdém. 

São milhares as maneiras de atingir esse padrão estético perfeito e irreal espalhadas pela mídia, redes sociais, revistas, etc. Essa pressão para atingir a imagem perfeita alimenta indústrias milionárias, como a das cirurgias plásticas, dietas, shakes, moda, e até a farmacêutica. O padrão de beleza move o mercado, alimenta o consumismo e esmaga a saúde mental e física de muitas mulheres e homens pelo mundo.

Os dados são absurdos e o assunto pouco divulgado, já que os padrões de comportamento e estética são pilares de indústrias milionárias que alimentam diariamente o capitalismo e suas estruturas de opressão. Além disso, a busca incansável pela aparência perfeita é uma arma de controle da vida e dos corpos das mulheres, que, apesar de terem conquistado avanços sociais, continuam presas à preocupação com sua imagem, investem tempo, dinheiro e inteligência na construção da aparência e acabam tendo menos inserção em assuntos como política e economia, por exemplo.

Estética e Transtornos Alimentares

A pressão estética está presente na vida de todos nós, especialmente dos jovens e das mulheres, principalmente das mulheres gordas e negras. Essa pressão para ter um padrão estético determinado que é veiculado na mídia burguesa todos os dias é responsável por uma série de problemas de saúde mental e física, como Disforia de Imagem e Transtornos Alimentares, que hoje afetam cerca de 70 milhões de pessoas no mundo (dados: NIHM). Além disso, o índice de mortes causadas por esse tipo de transtorno é alto, entre 18% e 20%. A maior incidência mundial de mortes relacionadas a Anorexia, por exemplo, é em mulheres com idade entre 15 e 24 anos.

No Brasil, pelo menos 1% das mulheres sofre de Anorexia, e a compulsão alimentar atinge cerca de 3% da nossa população. Já a Bulimia, também um dos transtornos mais comuns do mundo, afeta cerca de dois milhões de pessoas por ano só no nosso país. Na última década, o número de pessoas com transtornos alimentares dobrou, além de superar em taxa de mortalidade todas as chamadas “doenças mentais”, ultrapassando, inclusive, a depressão. 

Os números são tão assustadores que a cada hora morre uma pessoa como resultado direto de um transtorno alimentar. Nos EUA, maior potência capitalista do mundo, pelo menos 30% de toda a população sofre de um tipo de distúrbio alimentar.

Basta de Negligência 

Destoar dos padrões de beleza impostos, além de culminar em doenças mentais e físicas, também alimenta preconceitos, barra pessoas dos espaços, dificulta o acesso ao trabalho e à saúde. Às pessoas gordas, por exemplo, também é negado o direito de ocupar certos espaços, como o transporte público, e o direito ao atendimento de saúde adequado.

Além disso, não há hoje no SUS e nos postos de saúde nutricionistas à disposição da população para incentivar um estilo de vida saudável baseado numa alimentação completa e não no incentivo a atingir determinada forma corporal custe o que custar. 

Todos esses dados e o conjunto de situações e violências que o capitalismo proporciona diariamente de diferentes maneiras nos mostram a necessidade urgente de nos posicionarmos enfrentando esses padrões que cooperam para adoecer e matar a nossa juventude, que, por vezes, reproduzimos também nos nossos espaços e relações pessoais por serem tão aprofundados cultural e socialmente.

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