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segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Gamal Abdel Nasser e a rebelião do povo egípcio

O Egito se localiza no Nordeste da África. Sua história remonta a quatro mil anos antes de Cristo, quando, destruídas as Comunidades Primitivas, instaurou-se um Estado despótico, dominado por uma monarquia absolutista, na qual o rei, o Faraó, era um deus.

A economia se baseava na servidão coletiva dos camponeses e no trabalho escravo. Foi o esforço gigantesco desses trabalhadores que possibilitou a construção das famosas pirâmides, que nada mais eram do que túmulos dos faraós. Milhares de vidas foram sacrificadas em sua construção.

No período denominado Novo Império (1580-1080 a.C.), o regime adotou uma política expansionista, conquistando a Síria, a Fenícia, a Palestina e a Núbia (atual Sudão). Formou-se o Império Asiático do Egito, que chegava até o rio Eufrates.

As lutas de libertação das nações ocupadas e as revoltas internas dos camponeses e escravos ante a superexploração provocaram o declínio do Império. O Egito perdeu sua independência em 525 a.C. Já no ano 30 a.C, após a derrota de Cleópatra, tornou-se simples província de Roma.

A conquista do Egito pelos árabes acontece em 395 d.C., com a crise do Império Romano. Ao longo dos séculos seguintes, dá-se a completa “arabização” do país, que é disputado por Inglaterra e França. O general Napoleão Bonaparte invadiu o país em 1798. A Inglaterra expulsa o exército francês em 1801. Depois, ocorre uma parceria entre as duas potências europeias. O Canal de Suez foi construído com apoio da França entre 1860 e 1870. A parte egípcia foi comprada pela Inglaterra em 1875.

Concedida pela Inglaterra em 1822, a independência foi mera formalidade, pois o Reino Unido se reservou o direito de interferir nos assuntos internos sempre que seus interesses fossem contrariados.

Um sentimento anticolonialista foi tomando corpo e contrariando a potência dominante. Em 1945, o Egito integra a Liga Árabe e, em 1948, engaja-se num movimento contra a criação do Estado de Israel. A ONU aprovou a criação de Israel, e o Egito declarou guerra ao novo Estado, mas foi derrotado em 1949. O povo egípcio creditou a derrota à Monarquia, obtendo o apoio do Exército, no seio do qual nasce o Movimento dos Oficiais Livres, liderado pelo general Muhammad Naguib e pelo coronel Gamal Abdel Nasser.

“Os povos não desafiam a repressão e a morte nem permanecem noites inteiras protestando com energia por questões simplesmente formais. Eles fazem isso quando seus direitos legais e materiais são sacrificados sem piedade de acordo com as exigências insaciáveis de políticos corruptos e dos círculos nacionais e internacionais que saqueiam o país.”

(Fidel Castro, sobre a revolta popular no Egito, 2011)

Soberania e Socialismo

Gamal Abdel Nasser nasceu em Alexandria, em 1918, filho de um funcionário dos Correios. Concluiu os estudos na capital, Cairo, onde foi preso aos 17 anos por participar de manifestações contra a Grã-Bretanha e a Monarquia.

Tinha 34 anos quando comandou a derrubada do rei Faruk, na noite do dia 22 de julho de 1952, num golpe bem sucedido, sem derramamento de sangue. Nasser assumiu a liderança do Conselho Revolucionário, e Naguib, a Presidência da República. Eles lideram correntes divergentes do Movimento Nacionalista. Naguib é pró-ocidental e se alia com setores liberais da Monarquia. Nasser defende um Movimento Pan-árabe e quer a independência real do país ante as superpotências, bem como a eliminação das desigualdades econômicas e sociais.

Nessa disputa, Nasser sai vitorioso e assume a Presidência da República em fevereiro de 1954. Um referendo popular em junho de 1956 aprova o projeto de Constituição que torna o Egito uma república socialista, com a quase totalidade dos votos.

Em 1955, juntamente com Josip Broz Tito e Jawaharlal Neru, respectivamente presidente da Iugoslávia e Primeiro-Ministro da Índia, lança um movimento pela neutralidade diante das superpotências, precursor do Movimento dos Países Não-Alinhados. Os três Chefes-de-Estado foram reconhecidos internacionalmente como líderes do Terceiro Mundo.

O governo Nasser promoveu a reforma agrária e planejou um modelo desenvolvimentista, cujo símbolo foi o projeto de construção da barragem de Assuã, na primeira catarata do rio Nilo, para produzir eletricidade e possibilitar a irrigação do deserto. Buscou financiamento do Banco Mundial, negado porque ele rejeitou a condição de não colocar técnicos soviéticos na empresa. Com o apoio da URSS, a barragem de Assuã entrou em operação no ano de 1968.

Rompem-se as relações com Inglaterra e França, que articulam junto a Israel a invasão do Egito. A ofensiva israelense começou no dia 29 de outubro de 1956, penetrando pelo Monte Sinai até chegar perto do Canal. O Egito reagiu e, no dia seguinte, começam os bombardeios britânicos e franceses.

Mas o Egito ganhou no terreno da política. A ONU determinou a retirada dos invasores e reconheceu a soberania egípcia sobre o Canal. As tropas britânicas saíram de imediato, e Israel devolveu o Sinai no ano seguinte.

Vitorioso, Nasser radicaliza o processo revolucionário. Aprofunda a cooperação com a União Soviética e promove a estatização de empresas estrangeiras. Cria a República Árabe Unida em 1º de fevereiro 1958, reunindo Egito, Síria e Iêmen, com duração efêmera, em vista de um golpe de Estado na Síria em 02 de março do mesmo ano. Em 1964, Nasser recebe em Moscou a mais alta honraria do país, nunca antes concedida a um estrangeiro: o título de HERÓI DA UNIÃO SOVIÉTICA. Apoiou incondicionalmente a luta palestina, inaugurando o primeiro escritório da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Nova ofensiva de Israel, com apoio das potências imperialistas, ocorre em junho de 1967, desta vez destruindo os exércitos do Egito, Jordânia, Líbano e Síria e ocupando a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golan, no episídio que ficou conhecido como Guerra dos Seis Dias.

A última ação destacada de Nasser foi a mediação do conflito entre o exército da Jordânia e a OLP. As partes firmaram acordo de paz no dia 27 de setembro de 1970. No dia seguinte, Gamal Abdel Nasser morre de um ataque cardíaco fulminante. Dia 1º de outubro, cinco milhões de egípcios dão o último adeus ao seu líder maior.

Abertura para o imperialismo

O sucessor, Anwar El Sadat, inicialmente parecia disposto a continuar aprofundando a Revolução.  Organizou uma expedição para libertar as áreas ocupadas por Israel, em 1973, mas não teve êxito. Então começou um recuo, que chamou de “retificação”.  Rompeu com a União Soviética e reaproximou-se das potências capitalistas. Reprivatizou as terras desapropriadas pela Reforma Agrária, bem como as estatais, e abriu as portas ao capital estrangeiro. Contraiu crescente endividamento externo, submetendo-se ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Como consequência, os trabalhadores sofreram aumento do custo de vida e do desemprego, e os camponeses retornaram à servidão diante da retomada de suas terras.

Sadat ainda se reaproximou de Israel. Em troca da retirada do apoio à OLP, recebeu de volta o Sinai, consoante os Acordos de Camp David (1979). Em 1981, foi assassinado por militares contrários à sua aliança com Israel e à repressão desencadeada sobre os muçulmanos fundamentalistas.

As lutas de hoje

Assumindo a Presidência, Hosni Mubarak completa a abertura ao capital estrangeiro, a dependência do país e a intervenção do FMI. O agravamento dos problemas abre espaço para o fundamentalismo islâmico, por um lado, e, por outro, à insatisfação com as condições de vida e a repressão, independentemente de credo religioso. Esse caldeirão entornou em janeiro de 2011, quando multidões de egípcios foram às ruas exigir a mudança do regime. Mubarak renunciou, e o governo foi assumido, provisoriamente, promete-se, por uma Junta Militar.

Sem uma direção revolucionária, unitária, a revolta das massas tem futuro incerto. Está claro que não conseguiu impor o ritmo das mudanças que reivindicava e nem se configura o ponto até onde tais mudanças irão. Mas, pelo menos, algo positivo já aconteceu: a abertura da fronteira com a faixa de Gaza, fechada há quatro anos, desde que o Hamas foi eleito pelo povo para governar a Província. Foi uma exigência de Israel aceita por Mubarak. Com isso, os palestinos poderão respirar um pouco mais aliviados.

Embora o nasserismo não tenha se transformado em movimento organizado, com certeza a inspiração das idéias de Nasser, de soberania, união árabe e socialismo iluminam, ao menos, parte dessa multidão que clama por mudanças no país do rio Nilo.

José Levi, historiador

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