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segunda-feira, 4 de julho de 2022

Marxista ou robô burguês?

Em discurso para dezenas de empresários, na abertura da 29ª Reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), no dia 5 de março, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou: “Será que os países ricos vão continuar apenas colocando dinheiro com o intuito de salvar os bancos ou será que alguns países terão coragem, sem medo da palavra, de estatizar os bancos, recuperá-los, fazer voltar o crédito e, depois, então, se quiserem, entregar os bancos a quem eles entenderem que devam entregar?”(Jornal do Brasil, 6/3/2009).

No mesmo discurso, Lula disse ainda: “Eu me lembro de que quando caiu o Muro de Berlim, eu fui muito criticado aqui no Brasil, porque eu dizia que a queda do Muro de Berlim era a oportunidade de a gente repensar as coisas no mundo, porque até então estava tudo escrito, o Manifesto Comunista dizia tudo o que a gente tinha que fazer, o Marx já tinha dito tudo o que nós tínhamos que fazer. Era como se nós tivéssemos que ser um pequeno robô, sem ter o direito de pensar. O meu Partido nasceu exatamente do desaforo de pensar diferente. Os sindicatos, no Brasil, cresceram exatamente pensando diferente. (Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante abertura da 29ª Reunião do Pleno do CDES)

Ou o presidente Lula esqueceu o que leu no Manifesto do Partido Comunista ou, então, quando o leu, o fez apressadamente, pois, como se sabe, o Manifesto, um dos livros mais traduzidos e mais vendidos no mundo nos últimos 150 anos, nunca se propôs dizer tudo o que cada um ou que cada partido deveria fazer, mas, sim, expor o programa teórico e prático dos comunistas. Essa foi a decisão do Congresso da Liga dos Comunistas (mais tarde chamada de Associação Internacional dos Trabalhadores, a Internacional), realizado em novembro de 1847, e cumprida magistralmente por Karl Marx e  Friedrich Engels.

No entanto, embora nele não esteja escrito tudo o que cada um deva fazer, com certeza – se o que nele está escrito fosse cumprido pelos atuais governantes – não existiriam no mundo miséria, fome, guerras, desemprego e, tampouco, crises econômicas.

De fato, o Manifesto, queira ou não o presidente, permanece uma obra atual e profundamente necessária para quem quiser compreender por que ocorrem as crises econômicas e a verdadeira causa da existência de pobres e ricos na sociedade capitalista. Vejamos apenas algumas frases dessa importante obra de Marx e Engels:

“De há decênios para cá, a história da indústria e do comércio é apenas a história da revolta das modernas forças produtivas contra as velhas relações de  produção, contra as relações de propriedade que são as condições de vida da burguesia e de seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, na sua recorrência periódica, põem em causa, cada vez mais ameaçadoras, a existência de toda a sociedade burguesa. (….) Nas crises declara-se uma epidemia social que teria parecido um contrassenso a todas as épocas anteriores – a epidemia da sobreprodução. A sociedade vê-se de repente retransportada a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma guerra de destruição generalizada lhe cortaram todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem-lhe aniquilados. E por quê? Porque a sociedade possui civilização em excesso, comércio em excesso. As forças produtivas de que dispõe deixam de servir para promoção das relações de propriedade burguesas; pelo contrário, tornaram-se demasiado poderosas para estas relações, e são por elas tolhidas; e assim que superam este obstáculo lançam na desordem toda a sociedade burguesa, põem  em perigo a existência da propriedade burguesa.” (Manifesto do Partido Comunista. Edições Progresso)

Que há  de ultrapassado ou de superado nessas afirmações? Nada, absolutamente nada! Pelo contrário, aí está sintetizada a explicação para as crises econômicas que acometem o sistema capitalista desde seu nascimento.

Lutas de classes

O presidente Lula disse ainda que, com o Manifesto, Marx e Engels queriam dizer “tudo que a gente tinha que fazer”.  Os autores do Manifesto, entretanto, têm outra opinião sobre que o que pretenderam com o texto que escreveram: “O Comunismo é já reconhecido por todos os poderes europeus como um poder. Já é tempo de os comunistas exporem abertamente ao mundo inteiro o seu modo de ver, os seus fins, as suas tendências, e de contraporem à lenda do espectro do comunismo um Manifesto próprio do partido.” (Manifesto do Partido Comunista. Edições Progresso.)

Mais:

“A história de toda a sociedade até hoje é a história de lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, burguês da corporação e oficial, em suma opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travaram uma luta ininterrupta, umas vezes oculta, abertas outras, uma luta que acabou sempre com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com o declínio comum das classes em luta.

(….)

A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Limitou-se a colocar novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta, no lugar das anteriores. A nossa época, a época da burguesia, distingue-se, contudo, por ter simplificado os antagonismos de classe. Toda a sociedade está a cindir-se, cada vez mais, em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes em confronto direto: a burguesia e o proletariado.” (Manifesto do Partido Comunista)

Pois bem, quando se observa a atual realidade de nosso país e do mundo, com os Estados burgueses usando o dinheiro público para salvar uma minoria de bilionários, enquanto a cada três segundos uma criança morre de fome; quando vemos um estudo da própria Organização das Nações Unidas (ONU) revelar que os 10% mais ricos do mundo detêm 85,2% da riqueza mundial e que, do outro lado, os 50% mais pobres do mundo possuem apenas 1% dessa riqueza; quando dezenas de grandes empresas que auferiram enormes lucros nos últimos anos reduzem salários e demitem, 50 milhões de trabalhadores em todo o mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT); e quando vemos continuar as guerras imperialistas para dominar o petróleo e as riquezas de dezenas países, etc. – é possível, por acaso, concluir que esse “antagonismo entre burguesia e proletariado” não está mais presente na sociedade?

Desaforos

Disse também Lula que o PT nasceu desse “desaforo de pensar diferente do Manifesto Comunista”. Como passaram, então,  a pensar o presidente e seu partido?

Vejamos: “Será que alguns países terão coragem, sem medo da palavra, de estatizar os bancos, recuperá-los, fazer voltar o crédito e, depois, então, se quiserem, entregar os bancos a quem eles entenderem que devam entregar?”

Em resumo, usar o dinheiro público para estatizar bancos e depois entregá-los sem dívidas aos banqueiros: esse o pensamento desaforado do presidente Lula e de seu partido em relação ao marxismo.

Ora, tal pensamento é um desaforo não só ao marxismo, mas a qualquer cidadão que paga impostos e  vê seu dinheiro, em vez de ir para a educação ou para a saúde, ser utilizado para salvar banqueiros falidos.

No Manifesto, Marx e Engels defendem exatamente o contrário. Entendem que, após a revolução, a classe operária arranque o capital das mãos da burguesia e coloque todos os instrumentos de produção nas mãos do novo Estado:  “Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco central com capital do Estado e monopólio exclusivo.”

Nada, portanto, de bancos privados, menos ainda de estatizar para, depois, privatizar.

Outros desaforos do presidente: entregar R$ 4 bilhões às montadoras de automóveis, outros bilhões ao banco Votorantim (da família de Antônio Ermírio de Moraes) e financiar a Embraer com dinheiro público do BNDES – para essa empresa demitir 4.300 trabalhadores.

E:

“Hoje, mais do que fazer uma pauta de reivindicação pedindo aumento, temos que contribuir para que as empresas vendam mais. (…) Se tivermos medo de comprar, o comércio não vai vender. Se o comércio não vende, a indústria não produz”, disse Lula no último dia 28 de março na Feira da Construção Civil, em São Paulo.

Porém, presidente, se os trabalhadores não tiverem aumento salarial quem vai comprar? Além de que, no capitalismo, os trabalhadores já ajudam demais os empresários. Basta observar de onde vem os seus lucros.

Entretanto, não é à toa esse apego do presidente aos pensamentos diferentes ou opostos ao marxismo. Os bancos foram os principais financiadores da campanha de reeleição do presidente Lula, com doações que somam R$ 10,5 milhões, segundo a prestação de contas oficial do PT, seu partido, à Justiça Eleitoral. Entre os bancos, o maior doador foi o Itaú, com R$ 3,5 milhões.

Aliás, o chamado sistema financeiro dobrou de tamanho no governo Lula e seus lucros triplicaram: em 2007, o lucro líquido do setor financeiro alcançou R$ 57,4 bilhões, um crescimento de 200% sobre os R$ 19,1 milhões de 2003.

Na verdade, com esse “desaforo” ao Manifesto, mais uma vez Lula procura se apresentar perante as classes dominantes e seus meios de comunicação como um operário que traiu sua classe e sua ideologia e aderiu à ideologia burguesa. Aliás, a mesma burguesia que é responsável pelo dedo que ele perdeu, por ter sido preso e pela existência de milhões de brasileiros vivendo com fome e desempregados.

Não há de ser nada, pois, como bem escreveram Marx e Engels no Manifesto Comunista, “a burguesia produz o seu próprio coveiro. A sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.”

Isso mostraram a Grande Revolução Socialista Russa de 1917, a revolução chinesa de 1949, a do Vietnã, em 1950, a de Cuba, em 1959, entre muitas outras – e o comprovarão ainda mais as revoluções que se realizarão nesse século XXI, inspiradas e animadas por esse pequeno mas profundo e verdadeiro  livro: Manifesto do Partido Comunista.

Lula Falcão é membro do comitê central do Partido Comunista Revolucionário-PCR

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