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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

A quem serve a Copa do Mundo de 2014?

Blater e Aldo RebeloNo ano de 2007, quando o Brasil foi anunciado como sede da Copa do Mundo de 2014, grande mídia, empresários e governos comemoraram, afirmando que seria uma excelente oportunidade para o País crescer, pois haveria mais investimentos, melhoria da infraestrutura urbana, geração de empregos, etc. Após seis anos, o que se vê é bem diferente.

Primeiramente, repete-se o que ocorreu no Pan Americano de 2007, quando eram previstos investimentos públicos na ordem de R$ 390 milhões e foram gastos R$ 3,5 bilhões. Uma farra com dinheiro público nunca investigada, envolvendo várias esferas governamentais e o setor privado. Para a Copa de 2014, a previsão dos gastos públicos somente com estádios aumentou em 200% sem contar a inflação. Era de R$ 2,1 bilhões e, de acordo, com o Tribunal de Contas da União, deverá chegar a R$ 7,1 bilhões. Só na atual reforma do Maracanã já foram aplicados R$ 1,2 bilhão, valor equivale a 57% do que havia sido previsto em investimento para os 12 estádios, em 2007. Cerca de 97% desses recursos são públicos.

Em sua página no Facebook, o ex-jogador e deputado federal Romário, um dos principais críticos à organização da Copa do Mundo de 2014, declarou temer que o campeonato se torne o “maior roubo da história do País”.

Assim, num País com a saúde e a educação públicas falidas, com milhões de famílias sem moradia digna ou um pedaço de terra para plantar, com níveis de violência alarmantes e tantas outras mazelas, prevê-se, hoje, que os gastos dos Governos Federal, Estadual e de vários municípios com a Copa atingirão cerca de R$ 40 bilhões. Para se ter uma ideia da magnitude dessa quantia, em 2011, o Governo Federal investiu em educação, incluindo pessoal, investimentos e custeio, R$ 55 bilhões. Ou ainda, esse valor daria para duplicar os gastos com o Bolsa Família.

Com o pretexto de viabilizar obras para o evento, comunidades inteiras estão sendo removidas de áreas que se valorizaram nos últimos anos e se tornaram objeto de cobiça dos que fazem da especulação imobiliária a fonte de grandiosos lucros. Segundo um mapeamento divulgado no fim de maio na Suíça pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) e pela ONG Conectas, calcula-se que 250 mil pessoas correm o risco de serem despejadas de suas casas em todo o Brasil.

Um documentário assinado pelas cineastas Florence Rodrigues e Carolina Caffé, de 26 minutos, chamado “A Caminho da Copa”, expõe o autoritarismo do poder público no processo de remoção dessas famílias para viabilizar grandes obras, presentes no contexto de eventos esportivos. No trabalho estão contidos relatos de histórias de pessoas cujas vidas foram deslocadas até 70 km após a desapropriação de suas casas – pela lei, esta distância precisa ser de até 7 km, para se preservar ao máximo a rede de relações da família atingida. “As remoções oferecem mais um elemento de padrão autoritário, porque o Governo não faz nem valer a lei, nem oferece garantias ao cidadão, com remoções de forma muito bruta, truculenta. Sem dúvida caracteriza um Estado autoritário”, afirma Florence. A obra ainda ressalta o caráter autoritário deste processo, ilustrado no documentário por cenas turbulentas de remoções, com direito a tiros de borracha da Polícia e denúncias de violência.

Para Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, as práticas governamentais têm sugerido “limpeza social e étnica”. O acadêmico cita que o número de pessoas removidas no Rio pode alcançar até 80 mil.  No filme são ouvidas famílias de comunidades como Metrô Mangueira, no Rio, e Vila Progresso, em São Paulo, entre outras. Estes personagens envolvidos no contexto das remoções falam, inclusive, em coação para assinatura do laudo que permite o Governo ocupar o espaço.

Além dos prejuízos econômicos e sociais, a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil representa também um verdadeiro golpe à soberania e à democracia. A Lei Geral da Copa (PL 2.330/2011), aprovada em março do ano passado, criou um verdadeiro Estado de exceção, já que o comércio não oficial de produtos nos arredores dos estádios e nas vias de acesso a eles será proibido, bares ou restaurantes estarão cometendo um crime se mostrarem em telões para seus clientes jogos da Copa do Mundo, a Fifa não pagará nenhum centavo ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) para registrar suas marcas, e a meia-entrada para estudantes está ameaçada, entre outras coisas. A Fifa também terá a prerrogativa de decidir quem entra no Brasil, uma vez que bastará ter ingresso ou credencial para adentrar livremente no País. Na prática, a lei pretende alugar o Brasil à Fifa durante as semanas da Copa (ver A Verdade nº 138).

Além disso, o Projeto de Lei 728/2011, também chamado de “AI-5 da Copa”, pretende reeditar medidas típicas da Ditadura Militar, como proibir greves durante o período dos jogos e incluir o “terrorismo” na relação de crimes com punições duras e penas altas para quem “provocar terror ou pânico generalizado”.

Resta ao povo permanecer nas ruas para barrar a realização da Copa no Brasil e dar um basta nessa situação e exigir dinheiro para educação, saúde e moradia, e não para a construção de estádios.

Roberto Luciano, Campina Grande

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