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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Investigação na vala de Perus é retomada

Cemiterio perusNo dia 04 de setembro a Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva” realizou uma audiência pública, para marcar a retomada dos trabalhos de investigação e identificação dos restos mortais resgatados de uma vala clandestina no cemitério Dom Bosco, no Bairro de Perus, São Paulo/SP.

O Cemitério Municipal Dom Bosco foi parte integrante do sistema de repressão, durante a ditadura militar. Foi construído em 1971, na gestão do então prefeito de São Paulo, o Sr. Paulo Maluf, e utilizado para indigentes e vítimas do regime ditatorial. Fazia parte do projeto original a construção de um crematório, o que causou estranheza e suspeitas, pois havia inclusive impedimento legal para cremar cadáveres de indigentes.

O projeto do crematório foi abandonado em 1976 e no mesmo ano as ossadas que haviam sido exumadas em 1975 e amontoadas no velório do cemitério, foram enterradas na vala comum clandestina.

Em 04 de setembro de 1990 essa vala foi aberta e descobertas 1.564 ossadas de indigentes, presos políticos e vítimas dos esquadrões da morte. Posteriormente esse número foi reduzido a 1.049, por serem de crianças, portanto mais frágeis, e que deterioraram muito a ponto de ser impossível a identificação.

Argumenta-se que essas ossadas de crianças foram colocadas na vala clandestina por se tratarem de crianças vitimadas pela meningite em uma epidemia da doença que as autoridades tentavam esconder. Há também possibilidade de, dentre essas ossadas, estarem a de adolescentes vítimas do esquadrão da morte.

Estima-se que dentre as 1.049 ossadas restantes possam estar os restos mortais de pelo menos quatro desaparecidos políticos, cujos nomes estão no livro do cemitério, sendo eles Francisco José de Oliveira, Grenaldo de Jesus da Silva, Dimas Casemiro e Hiroaki Torigoi.

Na audiência ficou claro a desídia com que as autoridades trataram o tema até hoje. Isso porque as ossadas foram diversas vezes transportadas e acomodadas de forma totalmente indevida, o que as deixou em péssimas condições. Passaram pela UNICAMP e pela USP, sem que as investigações fossem concluídas, e em tais locais foram armazenadas de forma totalmente indevida, em sacos plásticos ou de tecido, sem temperatura adequada, sofrendo inclusive enchentes, cuja umidade era mantida devido ao armazenamento em sacos, enfim, não houve nenhum cuidado para que se as ossadas não se deteriorassem ainda mais, e assim a identificação pudesse de fato ocorrer.

Até esse momento o processo de busca da identificação das ossadas estava paralisado. Porém a constante luta dos familiares de mortos e desaparecidos políticos e dos movimentos sociais impulsionou a retomada dos trabalhos e a união de esforços da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”.

As denúncias com relação à ausência de iniciativas de resolução da questão da vala de Perus já vinham sendo feitas pelos familiares há anos e, depois de muita luta, juntamente com a Comissão da Verdade, foi possível uma parceria com a UNIFESP, e a criação de um Centro de Antropologia e Arqueologia Forense, o primeiro do Brasil com características de multidisciplinaridade, e com a colaboração de sete peritos de institutos de antropologia forense da Argentina e do Peru.

No ato também foi relembrado o valor histórico da retomada dos trabalhos da vala de Perus buscando a identificação dos restos mortais lá encontrados, pois ainda hoje existem valas comuns, pessoas desaparecendo, grupos de extermínio, principalmente nas periferias, ou seja, ainda há muitos resquícios da ditadura.

Além disso, é uma dívida que o Estado Brasileiro tem com os familiares que tiveram seus entes violentamente torturados e assassinados e jogados numa vala comum, sem sequer a possibilidade de fazer um sepultamento digno a eles. Além disso, órgãos como o Instituto Médico Legal não fornecem documentos que tem a posse e que poderiam auxiliar os familiares na procura pelos restos mortais.

A vala clandestina de Perus é mais um capítulo tenebroso da Ditadura Militar ainda não esclarecido, e que reafirma como ainda há muito a se conquistar na luta por memória, verdade e justiça, como a punição aos torturadores e a imediata abertura de todos os arquivos!

Assista o documentário Mártires Anônimos e conheça mais da história da vala de Perus:  Documentário

Raquel Brito, assessora da Comissão da Verdade Rubens Paiva

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