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Geórgi Dimitrov: herói da luta contra o nazifascismo

georgi_dimitrov_01No momento em que organizações e propostas fascistas retomam a ofensiva na Europa e na América, fomentando a violência e a xenofobia, é importante resgatar a história dos que lutaram e venceram a besta do fascismo na primeira metade do século passado. Entre esses heróis encontra-se, em lugar de destaque, o comunista búlgaro Geórgi Mikhaïlov Dimitrov.

Quando Dimitrov nasceu, em 18 de junho de 1882, a Bulgária já havia conquistado a posição de principado autônomo no interior de um império otomano em franca decadência. Os bashi-bazouk turcos – nome dado a destacamentos de soldados sem liderança – promoveram em 1876 um massacre que afogou em sangue um levantamento nacional búlgaro, matando mais de 100 mil pessoas. A Rússia se viu em condições de intervir, vencendo a guerra contra a Turquia e permitindo a independência total da Sérvia, Montenegro e Romênia. A Áustria-Hungria também se envolveu no conflito, ocupando a Bósnia-Herzegovina. Desde aquela época, a região dos Bálcãs se configurava como sede de grandes conflitos nacionais e religiosos.

Pernik, a província no oeste da Bulgária onde nasceu Dimitrov, fica na fronteira com a Sérvia. Com uma população de maioria búlgara, Pernik conta com uma minoria de ciganos que compõe sua população. Quase todos são cristãos ortodoxos, mas a mãe de Dimitrov, Parashkeva Doseva, era cristã protestante. Em busca de melhores condições de vida e fugindo da repressão do império otomano, a família de Dimitrov mudou-se para Sofia, capital da Bulgária. Muito cedo, Dimitrov aprendeu a arte da composição gráfica. Montando os tipos e operando a prensa, Dimitrov tornou-se operário gráfico de ofício.

Militante de partido

Em 1902, aos 20 anos de idade, participando das organizações sindicais e dos debates no interior das fábricas, Dimitrov ingressa no Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores da Bulgária. No interior do partido, no entanto, se acirrava o debate sobre a autodeterminação das nações e a via revolucionária para a classe operária europeia, debates que tinham origem na própria formação do partido. Em 1903, Dimitrov decide seguir o histórico líder nacional da classe operária búlgara, Dimitar Blagoev, e fundar o Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores da Bulgária (Socialista Radical), partido que deu origem ao Partido Comunista da Bulgária, em 1919.

A partir de então, Dimitrov passa a dedicar sua vida à construção do partido, fortalecendo a atuação da Federação de Sindicatos Búlgaros, da qual era secretário. De 1904 até 1923, sua ação é voltada à organização de greves e o fortalecimento da educação política dos operários no interior das fábricas e empresas.

Por conta de seu prestígio junto aos operários, Dimitrov foi eleito como deputado, no parlamento, em 1915. No decurso da 1º Guerra Imperialista Mundial, Dimitrov se associa às ideias de Lênin de romper com a posição de conciliação com as burguesias nacionais e vota contra o orçamento de guerra no interior do parlamento. Por conta dessa posição, o tsar da Bulgária o acusa de alta traição e o condena à prisão, onde ele permanece até 1917, ano da Revolução Russa.

Primeiras ações antifascistas

A Revolução Socialista na Rússia muda a conjuntura política em todo o Leste Europeu e na Bulgária em especial. Nas eleições para o parlamento búlgaro em 1919, os comunistas formam uma Frente Popular com outras organizações anti-imperialistas que combateram a participação da Bulgária na guerra. Essa frente elege como primeiro-ministro Aleksander Stamboliyski, membro do movimento camponês União Agrária e um dos principais defensores da unidade federativa dos povos balcânicos de diferentes nacionalidades. Assim como Dimitrov, Stamboliyski havia sido condenado à prisão, durante a guerra, pelo tsar Boris III.

Em 9 de junho de 1923, em resposta à negativa de Stamboliyski em se aliar a Mussolini em suas pretensões de anexar a Iugoslávia à Itália, o fascismo italiano financia um golpe de Estado promovido pela extrema-direita monarquista e a milícia macedônica, assassinando Stamboliyski. Os comunistas búlgaros assumem, em um primeiro momento, uma posição de não-intervenção no golpe, afirmando que não se devia defender um governo burguês como o de Stamboliyski. O golpe de Estado de 1923 serviu de grande ensinamento para a formação da União Operária contra o fascismo anos depois.

A Internacional Comunista (Comintern) avalia muito criticamente a atuação dos comunistas frente ao golpe. Em agosto de 1923, o Comitê Central do Partido Comunista Búlgaro (PCB) realiza seu pleno. Dimitrov e Vasil Kolarov, juntamente com as organizações de juventude e células operárias da capital, contando com o apoio da Internacional, pressionam pela realização de um levantamento contra o novo governo de Aleksander Tsankov, fruto do golpe. As informações sobre a insurreição chegam até o governo, que prende mais de 2 mil militantes do PCB no dia 12 de setembro. As prisões, no entanto, não impedem a realização da insurreição, que atinge quase todo o país em 27 de setembro. O governo logra afogar a insurreição em sangue, matando mais de 30 mil pessoas. A insurreição de setembro de 1923 ficou conhecida como o primeiro levantamento antifascista da história.

Exílio e trabalho internacionalista

Condenado à pena de morte pela sua participação na insurreição, Dimitrov é exilado na União Soviética, onde fica até 1929. Trabalhando nos quadros da Internacional Comunista, Dimitrov se traslada para a Alemanha como assessor para os assuntos da Europa Central.

Em Berlim, Dimitrov se destaca na frente de luta contra o nazismo e o fascismo, denunciando os perigos de uma segunda guerra imperialista mundial. Em 1933, Dimitrov substitui o alemão Wili Muzemberg na presidência do Comitê Mundial contra a Guerra e o Fascismo, organização animada pelos comunistas para a propaganda e a ação antifascista.

Naquele período, os nazistas já se encontravam em uma posição avançada para seus planos de confrontação mundial. Hitler havia sido escolhido como chanceler pelo presidente alemão Hindenburg, e a única força capaz de barrar os nazistas no parlamento era a bancada comunista. Banir o Partido Comunista era, portanto, o próximo passo dos nazistas.

A melhor oportunidade surgiu no dia 27 de fevereiro de 1933, quando um jovem holandês de origem germânica, Marinus von der Lubbe, militante de uma pequena organização chamada Conselhos Comunistas (de ideologia anarco-comunista), incendiou o Reichstag, sede do parlamento alemão. Os nazistas se apressaram em acusar o Partido Comunista Alemão (KPD) pelo incêndio. Vários militantes do KPD foram presos e Dimitrov acusado de arquitetar o plano.

Preso e levado a um tribunal nazista, Dimitrov foi acusado pessoalmente por Herman Göring, um dos principais dirigentes do partido nazista. Apesar de não ser advogado, Dimitrov assumiu sua própria defesa, transformando o julgamento de Leipzig em uma tribuna de denúncia dos crimes do fascismo e de defesa do comunismo na Bulgária e no mundo. Segundo o advogado estadunidense Arthur Garfield Hays – figura proeminente na defesa dos direitos humanos nos EUA –, “a defesa de Dimitrov foi a mais magnífica demonstração de coragem moral já vista em qualquer lugar”.

Incapaz de encontrar provas contra Dimitrov, o regime nazista foi obrigado a libertá-lo, mas as consequências políticas do incêndio do Reichstag já tinham sido produzidas. Quase todas as liberdades democráticas foram cassadas por um decreto assinado por Hitler e Hindenburg. Novas eleições foram convocadas com milhares de membros do KPD presos e os nazistas conquistaram a maioria no parlamento.

A frente popular antifascista

De volta ao seu exílio na União Soviética, Dimitrov foi eleito para a Secretaria Geral do Comitê Executivo da Internacional Comunista, substituindo o russo Vyacheslav Molotov, cargo que ocupa até a dissolução da Internacional, em 1943.

Sob seu comando, o Comintern realizou seu 7º Congresso em Moscou, no dia 2 de julho de 1935. Neste congresso, Dimitrov proferiu o histórico discurso Unidade Operária contra o Fascismo, em que aponta a iminência de uma guerra imperialista de nível mundial. A política da Frente Popular contra o fascismo aclara, para todo o movimento comunista internacional, a posição tática que os comunistas devem assumir para derrotar a pior ditadura capitalista, que é o fascismo. As decisões do 7º Congresso apontam para a necessidade, neste contexto, da unicidade sindical como forma de fortalecer a intervenção da classe trabalhadora na conjuntura política de cada país.

A nova orientação política aprovada no 7º Congresso do Comintern é fruto de todo um período de aprendizagem e luta política no interior dos principais partidos comunistas do mundo. É uma orientação que extrai lições das experiências históricas de vários países e realiza uma análise materialista concreta das tendências belicistas dos principais países imperialistas.

A democracia popular na Bulgária

Na União Soviética, Dimitrov se casa com Rosa Fleischmann, sua segunda esposa e militante comunista nascida na Morávia. Com Rosa, Dimitrov tem seu único filho, a quem dá o nome de seu pai: Dimitur Dimitrov. Apelidado de Mitia, seu filho morre de difteria em 1943, causando grande dor a Dimitrov. Em seu diário, ele escreve: “Um pequeno garoto tão especial, um futuro bolchevique, reduzido a nada!”. Dimitrov e Rosa ainda adotam Fania, filha de Wang Ming – representante do Partido Comunista Chinês na Internacional – como filha.

Ainda em 1943, os partidos comunistas tomam a decisão de dissolver a Internacional em virtude das condições especiais ensejadas pela negociação com as potências imperialistas no pós-guerra. Na condição de cidadão soviético, Dimitrov assume a chefia do Departamento de Relações Internacionais do Partido Comunista da URSS.

As condições para a derrubada da monarquia na Bulgária começam a amadurecer nesse período. O prestígio do Partido Comunista Búlgaro, que liderou a Frente Patriótica e se tornou a principal força na resistência aos nazistas, era enorme. Em dezembro de 1945, Dimitrov resolve renunciar à sua cidadania soviética e retornar à Bulgária para liderar a campanha eleitoral que culmina com uma grande vitória da Frente Patriótica.

Neste período, Dimitrov se destaca em duas frentes. De um lado, na campanha pela socialização dos meios de produção na Bulgária, lutando pela construção de uma indústria de base e fazendo o país sair de sua situação de economia agrária atrasada para se tornar o que ficou conhecido como “Vale do Silício do Leste Europeu”, por sua condição de exportador de eletrônicos. De outro lado, por sua participação no debate público e nas negociações pela criação de um Estado federativo da região dos Bálcãs, enfrentando as pretensões imperialistas e revisionistas de Josip Broz Tito, chanceler da Iugoslávia.

Em setembro de 1946, um plebiscito nacional revoga a monarquia com mais de 95% da população votando pela república popular e pela expulsão da família real, que apoiou os nazistas do país. Em 1947, uma nova constituição é aprovada no país, ficando conhecida como a “Constituição Dimitrov”, garantindo liberdade de expressão e reunião e abolindo a propriedade privada dos bens de interesse público. Esta constituição vigora até 1971.

Em 1949, com 67 anos de idade e a saúde abalada, Dimitrov vai à União Soviética para fazer um tratamento de saúde no sanatório de Barvikha, próximo a Moscou. Sua saúde se deteriora rapidamente fazendo-o falecer em 2 de julho. Seu corpo foi embalsamado e permaneceu presente em seu memorial na cidade de Sofia enquanto durou a República Popular da Bulgária.

Jorge Batista, São Paulo

Fontes:

BANAC, Ivo. The Diary of Georgi Dimitrov (1933-1949). Yale University Press. Londres, Inglaterra. 2003.

STANKOVA, Marietta. Georgi Dimitrov: A Biography. I.B.Tauris & Co Ltda. Londres, Inglaterra. 2010.

DIMITROV, Geórgi. União Operária contra o fascismo. Edições Manoel Lisboa. Recife, Brasil. 2014.

 

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