UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 2 de julho de 2022

Clara Zetkin e a luta pelo socialismo

“Zetkin considerava essa tarefa a mais primordial das feministas socialistas e teve grande participação na campanha de sindicalização das operárias, parcela que representava mais da metade da mão de obra industrial da Alemanha, sem a qual não se poderia pensar uma nova sociedade.”

Andressa da Paz, Gabriela Torres e Jady Oliveira


Foto: Reprodução/Arquivo

SÃO PAULO – Na História da luta pela emancipação dos povos e da mobilização internacional pela libertação dos oprimidos, destacaram-se diversos líderes. Apesar do descaso da Historiografia burguesa, em todas as reivindicações populares registradas, o papel de linha de frente sempre foi ocupado por mulheres. Dentre os diversos exemplos, destaca-se Clara Zetkin. 

Clara Josephine Eissner nasceu em 1857, no reino da Saxônia, território que passaria por um processo de unificação e seria denominado posteriormente de Alemanha. Clara assumiu o célebre sobrenome “Zetkin” de seu companheiro Ossip, também marxista, e com ele foi exilada de sua terra natal sob o jugo de Bismarck. O cotidiano agitado dessa professora e mãe de dois filhos não impediu seu ímpeto revolucionário: Zetkin compôs a segunda geração de feministas socialistas do século XIX, participou ativamente como liderança do movimento operário alemão, ocupou o cargo de redatora-chefe do jornal operário “A Igualdade”, entre 1892 e 1917, e foi a criadora do Dia Internacional da Mulher. 

A Questão da Mulher no Marxismo 

Dialogando com a crítica das feministas classistas acerca da constituição burguesa dos núcleos familiares, Zetkin foi uma contestadora dos papéis sociais impostos e vivenciou a dureza na vida das operárias francesas em um de seus exílios. Considerando-se que, como defendeu Engels, “o homem é o burguês e a mulher representa o proletário”, e que as condições de vida das trabalhadoras tornam-se ainda mais miseráveis no seio do operariado, fica clara, então, a necessidade da participação das mulheres: formando-as e conquistando-as para a luta revolucionária.

Zetkin considerava essa tarefa a mais primordial das feministas socialistas e teve grande participação na campanha de sindicalização das operárias, parcela que representava mais da metade da mão de obra industrial da Alemanha, sem a qual não se poderia pensar uma nova sociedade. A ênfase dada a essa luta ia de encontro à proibição imposta às mulheres de frequentarem organizações ou participarem de reuniões políticas. Contudo, como afirmava Clara, “o obstáculo maior é a falta de tempo, porque a mulher é escrava da fábrica e do lar e sobre ela pesa o fardo de um duplo trabalho”.  

Nas fileiras do partido, promoveu uma forte luta política sobre o papel das mulheres na vanguarda revolucionária, confrontando desvios revisionistas que contestavam, inclusive, a atuação das mulheres na própria produção industrial: “o trabalho das mulheres é um mal capitalista […] A natureza da mulher é pôr no mundo e educar seus filhos. O socialismo restabelecerá a família em sua forma patriarcal”, afirmava Edmund Fischer, um dos precursores do Partido Social-Democrata. 

Fruto dessa luta política e de sua defesa intransigente às trabalhadoras, Zetkin foi a responsável pelo avanço da agitação e propaganda marxistas, antes uma tarefa exclusivamente masculina. Seu trabalho como redatora-chefe do jornal “A igualdade” garantiu uma maior participação feminina e o aumento exponencial do partido: em 1902, essa imprensa possuía quatro mil assinantes e, em 1914, esse número chegou a 125 mil. 

A Luta Antifascista

Na definição de Georg Dimitrov, o fascismo é “a ditadura terrorista escancarada dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro”. Definição que converge com a de Zetkin, feita anos antes: “o fascismo é a consequência do abalo e do declínio da economia capitalista e um sintoma da decomposição do Estado burguês”. Precisa, sua análise anteviu a dimensão do perigo nazifascista e suas defesas foram contundentes quanto à atuação de uma frente ampla e unitária com os setores mais progressistas da sociedade contra a ascensão da extrema-direita. Sua avaliação era de reprovação aos posicionamentos dos comunistas alemães, que não deram a devida atenção aos diversos trabalhadores que, enganados pela socialdemocracia e desesperançosos com a crise econômica, aderiram ao partido nazista. Porém, apesar das dificuldades do contexto, Clara acreditava que o fascismo cairia inevitavelmente a partir de um trabalho de propaganda convincente com todos os trabalhadores, incluindo os setores da pequena burguesia.  

Mesmo sendo ameaçada, Clara Zetkin carregou até o fim de sua vida a certeza de que o nazismo seria derrotado. Durante uma assembleia parlamentar, com a maioria de deputados nazistas, posicionou-se. Então com 75 anos, Zetkin enfrentava as dificuldades da idade avançada, sujeita a desmaios e beirando à cegueira, apesar disso, subiu na tribuna e denunciou o “terror exercido pelos fascistas” e a “covardia do liberalismo burguês”. 

A Criação do Dia da Mulher

Em 1910, na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, Clara Zetkin propôs um dia de manifestações anual para marcar o combate das mulheres contra a exploração capitalista e aspectos muito importantes que caracterizavam naquele tempo a luta social, política e ideológica para a emancipação das mulheres. Na presença de 100 delegadas oriundas de 17 países diferentes, a proposta foi aprovada e para o jornal “A Igualdade” Zetkin escreveu: “Em acordo com as organizações políticas e sindicais do proletariado nos seus respectivos países, as mulheres socialistas de todos os países organizarão todos os anos um dia das mulheres […] Este dia das mulheres deve ter carácter internacional e ser cuidadosamente preparado”.

A primeira comemoração do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora foi realizado no dia 19 de março de 1911 e, sob a palavra de ordem “O direito de voto para as trabalhadoras e unir forças na luta pelo socialismo”, mobilizou mais de um milhão de mulheres em cidades da Alemanha, Suíça, Áustria e Dinamarca. Nos anos seguintes, com a proibição em algumas cidades europeias, as celebrações não ocorrem. Em 1915, Clara Zetkin consegue mobilizar as mulheres dos países que não estavam em guerra para se manifestarem a favor da paz no Dia Internacional da Mulher e organiza, em Berna, uma Conferência Internacional de Mulheres pela Paz. Na Noruega, Alexandra Kollontai consegue organizar uma manifestação contra a guerra, em Christiana, perto de Oslo.

Organizado pelas mulheres do Partido Bolchevique em 1917, no Dia Internacional da Mulher Trabalhadora – em 8 de março (23 de fevereiro no calendário russo) – as operárias têxteis de Petersburgo manifestaram-se nas ruas exigindo pão para as crianças e o regresso dos maridos das trincheiras. Alexandra Kollontai descreve a dia como “[…] uma data memorável na história. Nesse dia, a mulher russa levantou a bandeira da revolução proletária […] A Revolução de Fevereiro acabara de começar”, assim, foi dado mais um passo decisivo para todo o processo revolucionário russo, que culminou com a Revolução de Outubro.

A institucionalização da data pela Organização das Nações Unidas (ONU) ocorreu 67 anos após a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas. Dentro do histórico de manifestações nesse período, foi definida a data de 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. A importância deste dia é realizar a luta das mulheres pelo fim de toda a exploração e opressão, devendo sempre reafirmar o socialismo, pois, somente em uma sociedade baseada na igualdade, as mulheres viverão na verdadeira emancipação.

Outros Artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Matérias recentes