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domingo, 3 de julho de 2022

Governantes são os responsáveis por mortes em Minas Gerais

Nem culpa do povo, nem tampouco da natureza. Os verdadeiros responsáveis por todo esse desastre é o Estado capitalista e sua ganância que faz com que vidas valham menos que o lucro deles.

Indira Xavier, Fernando Alves, Leonardo Pericles e Poliana Souza


Foto: Jornal A Verdade

BELO HORIZONTE – Mais de 190 cidades já decretaram estado de emergência em Minas Gerais. Estima-se que cerca de 60 mil pessoas estão desabrigadas/desalojadas, até o momento, e 55 pessoas morreram em todo o estado, entre os dias 23 e 31/01, conforme dados oficiais da Defesa Civil. Somados aos outros 11 casos das primeiras semanas de janeiro, são 66 vítimas fatais.

Toda essa situação evidencia a falta de políticas públicas e investimentos destinados a resolver os problemas vividos pelos trabalhadores nas periferias das grandes cidades. As enchentes ocorrem todos os anos nesses locais e nada é feito, nem sequer para minimizar os impactos. 

Mas os verdadeiros responsáveis pela tragédia se atrevem a colocar a culpa no próprio povo, a exemplo do governador Romeu Zema, que disse, em entrevista: “Há áreas que qualquer chuva maior pode causar um deslizamento. Inclusive, muitas das vítimas que tivemos nessa semana foram porque não obedeceram aquilo que foi orientação dos bombeiros e da Defesa Civil.” 

O que o governador não disse é que nem Estado e nem Prefeitura ofereceram a esse povo uma alternativa digna de moradia, ou mesmo qualquer estrutura de abrigo ou transporte antes das chuvas. O resultado foi o aumento no número de vítimas fatais.

Ademais, nenhuma política de habitação existe por parte do governo, que não só não constrói casas para o povo pobre como quer fechar a Companhia de Habitação de Minas Gerais. Igual fenômeno ocorre na da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), que, em 20 anos, construiu apenas 25 mil unidades habitacionais, quando temos um déficit de mais de 65 mil unidades, segundo a própria Prefeitura.

Após dias de inundações e mortes, o Governo Federal anunciou uma verba emergencial de R$ 892 milhões para os Estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Valor insuficiente para recuperar as cidades atingidas. O prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, por sua vez, garantiu maquinário e um grande contingente de servidores municipais para limpar e reformar as regiões nobres da cidade, entretanto, não hesitou em mandar a Polícia Militar para reprimir um ato de moradores do Bairro Betânia (região Oeste de BH), que haviam perdido tudo durante uma das inundações que atingiu a região.

“Moro aqui há 18 anos. Nós sabíamos que uma tragédia estava por vir. Fui até o Corpo de Bombeiros e pedi ajuda para que não acontecesse o pior. Eles me responderam que não podiam vir, que não podiam fazer nada, que lá não era a prioridade, que a única forma de irem era se houvesse vítimas. Quando a casa com a família foi soterrada, os moradores é que foram ao socorro das pessoas, ligamos e eles não foram, só apareceram depois que chamamos a imprensa e, às 23h, foram embora e deixaram uma pessoa ainda soterrada, só voltaram no dia seguinte e a moça já estava morta”. Este é o relato de Fábio, 30 anos, morador da Vila Ideal, situada em Ibirité, na Região Metropolitana de BH, onde cinco pessoas perderam suas vidas soterradas.

Ele está há uma semana com outras seis pessoas da sua família morando de favor em casa de amigos, enquanto vê todos os dias o pouco que sobrou da sua casa ser destruído e saqueado, pois o que a Prefeitura de Ibirité ofereceu aos moradores foi um papel atestando que vale R$ 400,00. “O que eles deram foi um papel escrito que vale R$ 400,00. Onde alugo uma casa por esse valor? Sabe onde? Em áreas de risco também. Além do mais, ninguém quer aceitar esse papel que a Prefeitura deu por medo de não receberem. É triste ver tudo que construímos com muita luta se perder assim”.

A Culpa é das Chuvas?

Logo, não podemos responsabilizar a natureza por tentar seguir seu curso e não refletir sobre a necessidade de um planejamento urbano que respeite a natureza enquanto aloca o conjunto dos moradores em locais seguros e urbanizados. Também responsabilizar as famílias que vão morar em áreas consideradas de risco é “tapar o sol com a peneira” e não ver que o nosso país tem uma minoria de bilionários que, por ganância, praticam a chamada especulação imobiliária, deixando seus prédios, mansões e terrenos abandonados e sem cumprir função social nenhuma (apesar que isto contraria a própria Constituição do país), o que representa mais de seis milhões de moradias. Enquanto isso, falta moradia para 7,7 milhões de famílias.

Com tamanho descaso, a realidade é que uma parte considerável das famílias pobres e periféricas atingidas pelas chuvas nem sequer foram contabilizadas pela Defesa Civil e estão contando apenas com a solidariedade dos seus vizinhos. É o caso do senhor José Rodrigues, morador da Vila Ideal, que, desde o ocorrido, abriu as portas da sua casa para receber famílias e tem servido diariamente refeições para o conjunto dos moradores desabrigados e dos voluntários que tem ajudado na reconstrução da vila. “Estou abatido, sei a dor de ter perdido filhos, e ouvir meus vizinhos gritando soterrados, um deles uma criança, me doeu muito, eles eram meus amigos. Agora, o Prefeito diz que não vem aqui por que é área ‘invadida’. Eu comprei minha casa aqui, queria ver ele vir aqui e dizer isso quando vem pedir voto”, afirma, revoltado, José Rodrigues.

Para resolver o problema dos trabalhadores com as enchentes é necessária uma profunda Reforma Urbana, que destine o conjunto dos terrenos e imóveis fechados para moradia de interesse social – só em Belo Horizonte, segundo dados do Plano de Habitação de Interesse Social de 2009, da própria Prefeitura, existem terrenos para assentar mais de 330 mil famílias e prédios para outras 66 mil famílias. 

Nem culpa do povo, nem tampouco da natureza. Os verdadeiros responsáveis por todo esse desastre é o Estado capitalista e sua ganância que faz com que vidas valham menos que o lucro deles. Esse Estado assassino tem que acabar e, para nós, o povo organizado, resta a luta por este objetivo.

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