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quinta-feira, 7 de julho de 2022

Solidariedade: uma lição de Cuba ao mundo

SOLIDARIEDADE – Médicos cubanos chegam à Itália para combater Covid-19. (Foto: Reprodução/Jornal Granma)
A pandemia do Covid-19, doença infecciosa causada pelo coronavírus que surpreendeu Wuhan, na China, em dezembro de 2019, e que agora está presente em praticamente todos os países do mundo, colocou em xeque as políticas de saúde (entre outras) de inúmeros governos capitalistas.
Júlia Andrade Ew

Na contramão dessa lógica, observamos o exemplo de um país pequeno em território e grande em solidariedade: Cuba. Esse país, que atualmente tem cerca de 30.000 profissionais da saúde em 61 países da África, América Central e Ásia, atuando especialmente entre as populações mais pobres, e que já mandou mais de 400 mil agentes de saúde para os diversos países do mundo, inclusive ao Brasil.

Neste ano, Cuba enviou, no fim de março, uma equipe com 52 médicos e enfermeiros à Itália, país até então mais afetado pelo coronavírus: e essa foi a sexta equipe de médicos cubanos a sair em missão de combate à doença. A Verdade entrevistou, no dia 18 de março, Pedro Monzón, cônsul-geral de Cuba no Brasil, sobre a política de solidariedade de Cuba com os povos.

Circularam no Brasil muitas notícias de que Cuba estaria desenvolvendo tecnologia para combater o Covid-19. Como a medicina e a ciência cubanas luta contra esta pandemia?

Cuba tem um desenvolvimento notável em biotecnologia e medicina, setores que estão intimamente ligados. A biotecnologia em nosso país começou a se desenvolver no início dos anos 80, quando apenas alguns poucos países desenvolvidos se interessavam por essa ciência. Inúmeros produtos foram desenvolvidos: eritropoietina; a primeira vacina contra o câncer de pulmão no mundo, um produto também único de Cuba; tratamentos para vários cânceres; um medicamento que evita a amputação dos membros inferiores, comum em pessoas com diabetes e o interferón¹, que foi o primeiro produto criado, o medicamento principal de nossa nascente biotecnologia. O interferón desenvolveu-se gradualmente, de diferentes formas, até atingir a versão atual do interferón alfa recombinante 2b. Este último produto é um dos usados ​​na China para combater com sucesso o Covid-19, graças à existência naquele país de uma empresa mista com Cuba que o produz, e foi usado anteriormente contra outras doenças como a hepatite B e C, certos tipos de câncer, etc., e que agora estão sendo demandados por outros países do mundo. Sua função é aumentar significativamente a capacidade imunológica das pessoas. No momento, Cuba está trabalhando em uma vacina contra o Covid- 19.

CÔNSUL – Pedro Monzón defende o internacionalismo proletário. (Foto: Reprodução/CSL)

Cuba produz vacinas contra 13 doenças. Praticamente não há doenças tropicais em nosso país, assim como outras a exemplo da tuberculose. Produzimos imunógenos contra leptospirose, gripe e febre amarela para colaboradores cubanos no mundo (porque em Cuba essas doenças foram exterminadas). Cuba eliminou seis doenças: poliomielite, difteria, sarampo, caxumba, rubéola e tosse convulsa (coqueluche). Outras doenças foram controladas com taxas abaixo de 0,1 por milhão de habitantes, como tétano, H. influenza de tipo B, e a febre tifoide. A morbimortalidade também foi reduzida em mais de 95% das doenças meningocócicas, hepatite B e caxumba. Cuba foi o primeiro país latino-americano a erradicar a poliomielite. A vacinação faz parte do trabalho de nossos colaboradores no exterior. Sua contribuição para a prevenção e controle de doenças e condições epidemiológicas tem sido essencial, pois a vacinação foi incluída em ações comunitárias realizadas em mais de 60 países. Esse trabalho internacional realizado pela cooperação médica cubana contribuiu para aproximar a imunização aos mais pobres e despossuídos, em áreas de difícil acesso, além de ajudar a eliminar doenças preveníveis ​​na região.

No Brasil, vê-se que a população mais pobre não tem acesso a leitos hospitalares e prevenção efetiva. Como o povo e o governo cubanos enfrentam esse problema internamente?

O sistema de saúde em Cuba é gratuito, tem um alto nível de desenvolvimento e atinge toda a população. Existe uma infraestrutura respeitável de médicos de família, policlínicas, clínicas e hospitais e possui um exaustivo sistema de pesquisa e atendimento às famílias em suas próprias casas. Todos os cidadãos se beneficiam, não elites com poder de compra. Isso não faz sentido algum em nosso país. Cuba possui um sistema muito completo de mobilização de todos os setores em caso de situações excepcionais de qualquer tipo. Nós o utilizamos em ciclones e também em doenças, métodos para garantir a vacinação em muito pouco tempo, etc. Também o utilizamos em outros países através de brigadas médicas preparadas para enfrentar situações excepcionais.

O Estado cubano também controla os meios de comunicação de massa, através dos quais organiza campanhas com velocidade impressionante. Frente ao Covid-19, Cuba tomou todas as medidas, município a município, província a província do país. Organizou e classificou hospitais e centros de saúde para lidar com a pandemia. O país conta com organizações e políticas de massa que são instrumentos ou ferramentas que garantem chegar ao último rincão do território. Um sistema de triagem foi aplicado em todos os aeroportos e a população coopera relatando sempre que alguém é suspeito de estar doente.

Como o sistema econômico capitalista se diferencia do socialista em termos do direito à saúde?

O fundamental é que, no sistema capitalista neoliberal, tudo é medido pelo dinheiro e pela ação do mercado, fortemente ligada à lei do valor. As políticas estatais estão em um nível muito mais baixo e não determinam a vida. A atenção à saúde faz parte de um processo comercial. O paciente não desfruta desse direito humano (ou de outros, como educação). São poucos os países capitalistas (que compartilham as dificuldades desse sistema socioeconômico e político), que no campo da saúde (e, às vezes, da educação), mantêm políticas mais avançadas. No socialismo e, principalmente em Cuba, como eu disse antes, os cuidados de saúde e a educação são direitos invioláveis ​​da população, com tudo o que deles derivam.

Por que Cuba recebeu o navio transatlântico MS Braemar do Reino Unido, um navio que transportava cinco pessoas afetadas pelo Covid-19, após outros países o proibirem de atracar em seus portos?

Eu acho que é bem sabido que a solidariedade cubana não tem precedentes na História da humanidade, apesar de sermos uma pequena ilha e criminalmente bloqueada por quase 60 anos pelos Estados Unidos. Mais de 400 mil médicos prestaram atendimento a cidadãos de mais de 70 países do mundo, incluindo o Brasil. Não existe país, por mais rico que seja, nem um grupo de países ou organizações internacionais que tenham feito o que Cuba fez em solidariedade mundial. É por isso que não surpreende aos cubanos, nem deveria surpreender a ninguém, que nosso país, imediatamente, decidiu ajudar os passageiros e a tripulação do MS Braemar. Nós o fizemos tomando todas as precauções, dando todas as garantias baseadas em nossa experiência no tratamento de situações extremas como essa, que incluem o tratamento do Ebola na África. Seguimos os padrões do nosso sistema de saúde pública e da OMS. Eles chegaram em um porto a cerca de 50 quilômetros de Havana, o de Mariel, de onde foram transferidos com segurança para o aeroporto Jose Martí, em Havana, com o compromisso de manter em Cuba alguns dos contaminados que não estavam em condições de viajar para Londres em aviões ingleses disponíveis para a operação.

Gostaria de deixar uma mensagem aos nossos leitores?

Minha mensagem é: “viagem para Cuba!” Nos conheçam em nosso próprio território para que possam ter uma ideia verdadeira de nosso país e não a ideia de que, em ocasiões públicas, a imprensa, que sem respeito à mínima ética, promove mentiras óbvias e flagrantes. Vocês encontrarão um dos países mais seguros e estáveis do mundo, um povo amável, culto e simpático, cidades maravilhosas e uma natureza exuberante.


[1] “Interferona”: A interferona alfa-2b é considerado um dos medicamentos mais importantes utilizados como bioterapia experimental em pacientes afetados pelo Covid-19. Seu uso é baseado e justificado pelas propriedades antivirais da molécula de interferon alfa.

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