
Por João Miguel
União da Juventude Rebelião
A família Lundgren, que é taxada pela mídia burguesa de ter levado “desenvolvimento” às cidades de Paulista, no Estado de Pernambuco, e de Rio Tinto, na Paraíba, esconde um passado sombrio – passado este que se encontra enraizado nas construções das fábricas têxteis da família nas regiões. O patriarca da família, Herman Lundgren, um imigrante sueco, se estabeleceu em Paulista na época que o local ainda era município de Olinda, no início do século XX. Lá, Herman comprou a firma Rodrigues & Lima, que se encontrava quase falida, para transformá-la numa indústria têxtil e encabeçou a construção de duas vilas operárias na região para abrigar os trabalhadores. É o início da história da Companhia de Tecidos, que se tornou uma das maiores indústrias têxteis do Brasil e também foi palco de uma intensa luta operária que reflete nos dias atuais, mesmo após seu desligamento.
Com a compra da firma Rodrigues & Lima, é fundada a Companhia de Tecidos Paulista – também chamada pelo nome abreviado de CTP -, que se torna a matriz da Companhia de Tecidos de Herman Lundgren e sua família, que logo mais iria expandir seus negócios no estado da Paraíba. Após a morte de Herman, em 1907, seu filho, o coronel Frederico Lundgren, assume o controle da Companhia de Tecidos Paulista. Após 10 anos da morte de seu pai, em 1917, Frederico decide instalar uma filial da Companhia de Tecidos em Rio Tinto, na Paraíba.
A família Lundgren fez com que funcionassem nas indústrias de Paulista e Rio Tinto um sistema de “fábrica com vila operária” para que pudessem exercer o poder da dominação mais facilmente, assim o acesso à moradia e a utilização dos rios, da coleta de lenha e terras para cultivo estariam ligados a empregação nas fábricas. As casas, clubes e escolas ficavam a poucos metros das fábricas para que os Lundgren pudessem controlar também o tempo livre do operariado local. A dominação territorial dos Lundgren, em Paulista, era desde o centro da cidade, onde se localizava a Companhia, e se estendia até as faixas litorâneas. Já em Rio Tinto, a região juntamente com a vila se encontrava bem distante da capital do estado – isso somado aos acordos entreguistas do presidente da Paraíba, só reforçava o poder dos empresários. Todo esse poderio administrativo e espacial funcionava como uma espécie de feudo, onde tinha a família Lundgren como centrais nisso tudo. A vida e a morte dos operários aconteciam dentro dessas vilas operárias, dentro de um sistema imposto pela família de empresários.
Os Lundgren regravam tudo com mão de ferro, e a detenção deste poder era facilmente mascarada com os meios de comunicação da burguesia que sempre enalteciam a família como exemplo de progresso e desenvolvimento, e pelo fato da família vir da Suécia, acabava se tornando mais uma forma de exaltá-los, como se ser europeu fosse sinônimo de cordialidade. A “benevolência patronal” dos Lundgren eram, e ainda são, constantemente propagados pelos meios de comunicação burguês, o que acaba escondendo toda uma luta efervescente que se desenrolou dentro dessas cidades. Marx e Engels atestam no Manifesto do Partido Comunista que o desenvolvimento das indústrias fazem com que a classe trabalhadora – o proletariado – se multiplique na mesma medida que as condições de trabalho pioram. Isso leva o proletariado a enfrentar o patronato por meio de greves, embates e sindicatos. E é o que acontece nas indústrias da Companhia de Tecidos, tanto em Paulista como em Rio Tinto. No período entre 1930 a 1950, os trabalhadores das indústrias têxteis dos Lundgren começam a formar consciência de classe em razão das más condições de trabalho, que resultou na formação de sindicatos e também a inúmeros episódios de greves e embates entre patrões e trabalhadores. Após a morte de Frederico, seu irmão Arthur Lundgren assume a direção das indústrias em 1946, no período em que as questões da luta sindical começavam a se desenrolar dentro e fora das fábricas, onde o mesmo tentava suprimir toda essa luta.
O surgimento da CLT e da Justiça do Trabalho só reforçou mais as reivindicações dos operários já que muitos deles não estavam atrelados a alguma militância, então acabavam recorrendo a esses órgãos. Muitas das reivindicações feitas na Justiça do Trabalho pelos trabalhadores das fábricas estão atreladas a jornada de 8 horas – que já era prevista na CLT mas não eram cumpridas nas fábricas – e ao pagamento pelas horas noturnas e complementares. Karl Marx, em sua obra O Capital, aborda como mulheres e crianças foram usadas nas indústrias do século XIX como mão de obra mais barata que a dos homens adultos. Não foi diferente com as operárias da Companhia de Tecidos, onde muitas relataram receber menos que os homens, que já recebiam pouco, para trabalhar várias horas e desmaiavam de fome durante o serviço. Isso sem falar nos casos de agressões físicas e sexuais dentro dessas indústrias. Anna Maria Litwak Neves, em sua pesquisa intitulada “O direito que temos é o de morrer de fome – Os operários da Companhia de Tecidos Paulista e a busca por direitos na Justiça do Trabalho (1950-1952)” mostra que as mulheres operárias protagonizaram a luta nas fábricas da Companhia de Tecidos: em 13 de janeiro de 1952, 800 trabalhadores da Fábrica Aurora – que fazia parte do complexo industrial da Companhia de Tecidos Paulista -, de maioria sendo do sexo feminino, entraram de greve por não receberem o seu salário.
Na filial de Rio Tinto, é visto que muitos dos trabalhadores vinculados a política sindical em oposição aos Lundgren acabavam sendo demitidos e despejados da vila operária, como mostra o professor Eltern Campina Vale em um artigo intitulado “Os Usos da Justiça na Busca por Direitos: Estratégias de Reivindicação Operária na Cidade-Fábrica Rio Tinto (Paraíba, 1959-1964)”. Os despejados tentavam negociar com Pedro Monteiro, gerente imobiliário, porém o mesmo sempre respondia os operários de forma desumana, como aconteceu com o trabalhador Nilson F. de Lira que fala para o gerente imobiliário que “não tem onde morar”, e como resposta recebe um ríspido: “então vá morar debaixo de uma ponte!”
As ações trabalhistas, greves, e mudanças tecnológicas, enfraqueceram mais e mais o funcionamento da Companhia de Tecidos Paulista e Rio Tinto, que culminou no fechamento das mesmas no final do século passado. Porém, o conflito da classe trabalhadora com a família Lundgren não acaba por aí.
Em 2017, herdeiros da família Lundgren acionam a Justiça para o despejo de 1.200 famílias da cidade de Rio Tinto. Segundo os Lundgren, o terreno onde antes funcionava a CTRT juntamente com seu sistema de vila operária, ainda os pertencem e querem vender o terreno para um grupo de Portugal. Oficiais da Justiça, como sempre a favor da burguesia, até compareceram no local em agosto do mesmo ano para realizar o despejo, mas a retirada não foi cumprida pois os moradores do local se mobilizaram para evitar o despejo das famílias. O Movimento Liberta Rio Tinto representou as famílias numa audiência alegando que o terreno não pertencem mais aos Lundgren e sim a União. É alegado que o terreno, antes da construção da Companhia de Tecidos, recebia forte influência da maré, então os Lundgren realizaram um processo de dragagem para desviar o curso do rio para poder cessar os alagamentos. Se isso for comprovado, o terreno passa a ser da União e deverão ser repassadas às famílias que ocupam o local atualmente.
Os moradores de Rio Tinto, sendo a maioria ex-operários ou descendentes de ex-operários, pagam aluguéis aos Lundgren há CINCO GERAÇÕES e esses moradores reivindicam o repasse das moradias para a população ou que elas sejam vendidas a preço simbólicos. Para evitar o despejo, alguns moradores optaram por comprar seus imóveis mas denunciaram que os preços negociados foram extremamente abusivos e que não simbolizava o tempo de pagamento de aluguel aos Lundgren. José Augusto Meirelles, o consultor da CTRT, declarou ao Correio da Paraíba que com a compra dos imóveis, a Companhia suspende as ações judiciais de despejo para tornar a negociação “amigável”. Amigável para quem? Ou seja, para não serem expulsos das casas, que deveriam ser da classe trabalhadora por direito, os moradores de Rio Tinto devem pagar o preço dos imóveis que é proposto pelos Lundgren sem levar em consideração o tempo que esses ex-operários passaram sendo explorados dentro dessas indústrias têxteis.
O calor incessante nas salas, ou melhor, nas jaulas trancafiadas da CTP e da CTRT, das engrenagens quentes que passavam dias e noites ligadas, das mãos que conduziam as máquinas de tecelagem, do sangue jorrado no chão após uma fatalidade típica da condição local, e aos milhares de famintos com suor vivo descendo no rosto: foram estes que fizeram a Companhia de Tecidos Paulista, Rio Tinto e tantas outras indústrias funcionarem; estes que foram, e ainda são, forçados a manter a riqueza dos Lundgren intacta; são estes, a classe proletária internacional, que alimentam o motor da história, pois são forçados a vender a sua mão de obra para a burguesia.
As ruínas da Companhia de Tecidos Paulista e Rio Tinto ainda existem atualmente. As chaminés das indústrias, que ainda estão de pé, antigamente expeliam vapor a todo instante. Hoje em dia não funcionam mais e simbolizam, como diz o hino da cidade de Paulista, a “graça” e o labor desses locais. Mas, a “graça” de quem?
Quando vejo as chaminés é como se eu estivesse enxergando um fantasma, mas sei que é muito pior. As chaminés da antiga Companhia de Tecidos são o reflexo da burguesia: são resistentes como os grossos tijolos que as compõem, são gigantes quando olhadas de baixo, mas que depende de uma base para continuar em pé e uma massiva mão de obra para continuar sua operação – sem a classe trabalhadora, a burguesia perde todo o seu sentido.
Referências:
NEVES, Anna Maria Litwak. O direito que temos é o de morrer de fome – Os operários da Companhia de Tecidos Paulista e a busca por direitos na Justiça do Trabalho (1950-1952). https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/34417
VALE, Eltern Campina. Os Usos da Justiça na Busca por Direitos: Estratégias de Reivindicação Operária na Cidade-Fábrica Rio Tinto (Paraíba, 1959-1964). Revista Mundos do Trabalho, vol. 2, n. 3, janeiro-julho de 2010, p. 261-280. https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/download/1984-9222.2010v2n3p261/13426
SANTOS, Letícia de Carvalho. Pesquisa etnográfica e historiográfica: o caso das mulheres operárias da Companhia de Tecidos Rio Tinto. http://www.ufpb.br/evento/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/738/749
MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Editorial Avante, Lisboa, Portugal, 1997. https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/index.htm
NUNES, Angélica. Despejo de 1.200 famílias de terreno da família Lundgren é debatido na ALPB, Jornal da Paraíba. 24/08/2017. Disponível em: <http://www.jornaldaparaiba.com.br/politica/despejo-de-1-200-familias-de-terreno-da-familia-lundgren-e -debatido-na-alpb.html>
REYNALDO, Renata. Ações trabalhistas refletem drama dos operários da Companhia de Tecidos Paulista. ASCOM UFPE. 02/10/2019. Disponível em: <https://www.ufpe.br/agencia/pesquisas-bkp/-/asset_publisher/rIL2cIuRIxA4/content/acoes-trabalhistas-r efletem-drama-dos-operarios-da-companhia-de-tecidos-paulista/40623>
GOMES, Ellyka. RIO TINTO VIVE CONFLITO ENTRE MORADORES E EX-FUNCIONÁRIOS DE COMPANHIA DE TECIDOS. Correio da Paraíba. 16/09/2018. Disponível em: <https://correiodaparaiba.com.br/economia/rio-tinto-vive-conflito-entre-moradores-e-ex-funcionarios-decompanhia-de-tecidos/>
Amei esse trecho meu deus
“Quando vejo as chaminés é como se eu estivesse enxergando um fantasma, mas sei que é muito pior. As chaminés da antiga Companhia de Tecidos são o reflexo da burguesia: são resistentes como os grossos tijolos que as compõem, são gigantes quando olhadas de baixo, mas que depende de uma base para continuar em pé e uma massiva mão de obra para continuar sua operação – sem a classe trabalhadora, a burguesia perde todo o seu sentido.”
E esse artigo ta perfeito, parabéns
Eu sou um estudioso de história gostaria receber mais artigos sobre a família dos lundgrenn.
Muito boa sua reportagem, parabens .
Continuamos hoje no seculo XXI com esses ou piores absurdos trabalhistas.
E nao apenas abusos trabalhistas , abusos de poder, politica ,comercial e muitos outros abusos que a populaçao sofre.
Além de tudo isso os Lundgrens tiveram tentativas de trazer Nazistas para Rio tinto e também contrabandearam armar por balsas. Tudo de podre há na família Lundgren
Vi um documentário no YouTube sobre isso, e não acreditei em tamanha atrocidades imposta por forasteiro, e acobertado por figurões da polícia e da apolitica.
Minha indignação foi tanta que não acreditando resolvi pesquisar no Google ara saber a veracidade dos fatos;infelizmente tudo é verdade, e essa reportagem reforça isso.
Pena que tudo foi acobertado ,enterrado e aceito como normal.
O pior é saber que essa máquina esmagadora de mãos de obras acontece até hoje;infelizmente ainda existem muitas fabrica tipo Paulistas por aí massacrando e enriquecendo os abutres. O pior é pensar que ainda hoje compramos em lojas sem saber que o capital veio de suor e sangue. Tristeza!
Nasci na cidade de Paulista, cresci no bairro Aurora onde é a sede da CTP. Meus pais foram funcionários da fábrica de tecidos Paulista, minha mãe sempre falou que começou a trabalhar aos 14 anos com máquinas de tecidos muito pesadas, meu pai era encanador da fábrica ambos semi analfabetos. Eles inocentemente idolatravam os Lundgrens pois segundo eles, ofereciam moradias baratas aos funcionários. Hoje a fábrica de tecidos Paulista não existem mais tornaram um shopping e uma área de condomínio, mas existem chaminés e o casarão dos Lundgren que se chama patrimônio histórico da cidade. Sem contar na igreja principal, onde a família Lundgren intitulou por conta própria, a matriarca da família como santa, até bem pouco tempo a igreja se chamava Santa Elizabeth Regina, onde alguns padres escreveram uma carta ao vaticano e constatou que não se tratava de uma santa da igreja católica e sim de uma pessoa comum onde os filhos a intitulou como tal. Historiadores venham a Paulista, pós existem muitas histórias dos Lundgren a serem desvendadas.
Meu avô tem 94 anos e trabalhava na companhia de tecidos paulista. Ele relata as atrocidades e perseguições que passou naquela empresa.