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É preciso derrubar o capitalismo para a construção de uma educação popular

Placa no teto de uma escola numa favela do RJ pedindo a PM que não atire dos helicópteros. Foto: reprodução.

Por Amanda Alves, São Paulo e Larissa Franco, Rio de Janeiro.

O modelo educacional nem sempre foi assim como conhecemos hoje. Nas sociedades arcaicas e sem divisão de classe, a educação se baseava na propriedade coletiva. O ensino era para a vida e por meio da vida, ou seja, através da experiência cotidiana e atividades de sobrevivência e subsistências do grupo, nada se colocava acima das necessidades coletivas da comunidade que você estava inserido. Esse modelo, se colocava adequado em uma sociedade sem classes, na medida que foi surgindo a propriedade privada, as relações mudam, inclusive quando se falamos da educação.

Com o sistema capitalista, o operário de fábrica se torna uma mercadoria, realiza atividades que exigem muito de si, esforço físico, e que devido a exploração, impede-o de ocupar sua vida com outros pensamentos e atividades. Toda essa lógica de produção se reflete na educação também das crianças que futuramente trabalharão na sociedade. É de interesse a classe dominante estabelecer um modelo educacional voltado à formação técnica capaz de gerar produção para atuar no mercado de trabalho, mas temendo-se também que a instrução educacional leve a um pensamento mais crítico sobre o próprio sistema econômico e modo de produção, a burguesia mede forças nos conteúdos repassados nas escolas.

Ao analisar a relação entre educadores e educandos no Brasil, Paulo Freire, estabelece a crítica ao que ele chama de “educação bancária”. Os pressupostos da educação bancária são a narração/exposição de conteúdos de forma que pressupõe que se tenha um narrador (professor) e sujeitos passivos ouvintes (alunos), se fala da realidade como algo estático, e ensina-se coisas desconectadas com a realidade existencial dos educandos. Ocorre a repetição do conteúdo de forma acrítica para que os alunos apenas memorizem, como se educar é o ato de depositar, de transferir, de transmitir valores e conhecimentos, porém sem reflexão.

Alguns outros exemplos na história também são de educadores como Comênio e a “didática magna” em 1657 e Pestalozzi um século depois. Eles propunham um modelo educacional voltando a rapidez de exibição do conteúdo, causando fadiga e a tortura que colocava a inteligência como algo robótico na criança, tirando toda sua espontaneidade e caminhos diferentes de produção de conteúdo.

Hoje, no nosso país, podemos ver muito dessas características principalmente nas escolas de ensino técnico da juventude, a sobrecarga de conhecimentos sem lhe dar previamente uma carga de informações que ajude a assimilar e absorver o conteúdo. Devido a enorme desigualdade em nosso país, a criança que abandona a escola no fundamental é a mesma que a burguesia obriga a vender sua força de trabalho logo cedo, para ajudar na manutenção do seu lar. E essa é a realidade de milhões de jovens da periferia de todo o país.

Voltemos a afirmar, a classe que domina a nossa sociedade é também a que domina o sistema educacional no país. Impõe a ideologia liberal nos conteúdos. Impõe a história de “heróis” que são na verdade, assassinos do nosso povo, e não nos contam a verdadeira história de quem construiu nosso país, os pobres, camponeses, indígenas, negros e negras. Ressalta a figura policial como protetora da sociedade e da família, quando na verdade, é responsável pela morte de diversos jovens negros da periferia.

Logo, a escola de hoje mesmo sendo pública, ainda é moldada nas ideias da classe dominante e tudo que se é pronunciado servirá de interesse para essa classe. Já a escola e a universidade privatizada também se moldaram nesses interesses em termos de conteúdo, mas além disso, também servirá de interesse ao capital nacional e internacional com mercantilização do ensino e intervenções de grandes empresas como a Kroton.

Não por acaso, projetos como o “Escola Sem Partido” e “Future-se”, ganharam apoio de partidos políticos de direita e setores reacionários da sociedade, incluindo inclusive o próprio fascista Jair Bolsonaro. O atual Ministro da Educação, Abraham Weintraub, reafirma o alinhamento do governo aos interesses daqueles que querem cada vez mais privatizar a educação tendo desde o início de seu mandato se posicionado como verdadeiro inimigo da educação pública. Uma de suas primeiras ações foi o ataque às Universidades Federais chamando-as de “balbúrdia” e anunciando cortes volumosos nas verbas dessas instituições. Para o atual governo, uma educação pública, qualidade, gratuita, laica e crítica é sua inimiga, e não medem esforços para atacá-la.

Estudantes em luta contra os ataques do governo Bolsonaro à educação pública em 2019. Foto: Reprodução.

A educação popular é construída pelo povo

Francisca Pini, diretora do Instituto Paulo Freire, pontua que a educação popular surge como contraponto ao projeto de educação dominante. Sua origem está diretamente ligada aos movimentos populares no início do século XX que buscavam democratizar o ensino, criando escolas populares para educação de operários e camponeses. Portanto, aliada à ideia de uma educação libertadora e a defesa a soberania popular, pressupõe que os oprimidos tomem consciência de suas amarradas e se engajem na luta por sua libertação.

Nessa visão o educar também se faz através da luta política, sendo o método adotado por movimentos sociais comprometidos com a emancipação humana e transformação radical da sociedade. Aqui o conhecimento é construído de forma coletiva, entende-se o humano como produtor da realidade social e capaz de transformá-la, ela é do povo para o povo.

Mas a construção de uma educação verdadeiramente libertadora só será possível com a modificação da sociedade em sua base econômica, ou seja, com queda do capitalismo e a construção do socialismo e de um governo proletário. Pois, o Estado burguês jamais abrirá mão dos seus mecanismos de opressão: o exército, a polícia e o judiciário, logo jamais abrirá de mão da educação. O Estado nas mãos minoria exploradora jamais construirá de fato uma educação pautada nos interesses da maioria explorada.

Assim como a escola no capitalismo, a escola do proletariado, também deve defender os seus interesses, o interesse da massa dos trabalhadores, o interesse da maioria da população pobre.

Tomemos exemplo da União Soviética em período de revolução, onde os operários da fábrica faziam parte do conselho da escola, participam da construção dos materiais e não haviam barreiras entre a escola e a fábrica. Os alunos tinham um compromisso de combater o analfabetismo e organizar palestras entre os trabalhadores. Um modelo educacional onde os filhos e filhas dos proletários vão para escola se unir ao restante do povo e edificar a construção do socialismo e o progresso do país.

Logo, defender o socialismo como a saída para construção de uma educação libertadora é defender também o futuro de nossas crianças, defender uma educação que seja de fato transformadora e coloque abaixo todos os vestígios das ideias liberais, que ajude a resgatar e avançar na construção do homem novo.

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