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sábado, 2 de julho de 2022

Na mira da Doutrina de Segurança Nacional

Por Osnar Gomes dos Santos, Doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco

 

A 1º Guerra Mundial se encerra no ano de 1918. A Alemanha é a sua maior derrotada. Terá que pagar um ônus de guerra indecente. Nos estertores, o país engolia o Tratado de Versalhes. Para os vencedores da guerra, a Alemanha deveria ser responsabilizada por causá-la. Ademais, precisaria reparar os países vencedores. Desse modo, a Tríplice Entente dava o seu último golpe na derrotada Alemanha. Para esta, entretanto, o tratado não passava de uma diktat (imposição).

Um dos vencidos da guerra era um conhecido general. Seu nome: Erich Ludendorff. Figura ousada, não queria o fim das batalhas até o momento em que esse fim se tornou inevitável. Encerrados os conflitos, Ludendorff procurou os culpados pela derrota. Escreveu sobre isso e os encontrou. Segundo ele, os culpados eram os próprios alemães. Daí deriva a “lenda da punhalada pelas costas”. Basicamente, consistia na seguinte defesa: o povo não estava suficientemente preparado para assumir as rédeas do “chamado patriótico”.

O povo precisava estar mobilizado, mas não estava. O inimigo não era apenas a Tríplice Entente. O inimigo se escondia no interior do próprio país. E ele foi nodal para a derrota. A mentalidade de Ludendorff tinha um sentido paranoico e beligerante. Rompia, a seu modo, com as premissas do pensamento de Carl von Clausewitz. Para este último, a guerra tinha limites e deveria estar subordinada à política. A guerra tem um fim. Mas Ludendorff dissentia dessa fórmula. Para ele, a guerra comanda a política. Mais do que isso: “a guerra é a suprema expressão da vontade de viver de uma raça”.[1] Estava se pavimentando o caminho para as ideias de “guerra total, generalizada, sem fim… pela sobrevivência”.

Quem gostou do ideário de Ludendorff foi um velho conhecido: Adolf Hitler. Deveria gostar também de duas das apologias do general, a dizer: (1) a defesa de algo próximo a uma ditadura do comandante geral; e (2) a guerra total pela sobrevivência. Pode-se dizer que o nazismo absorveu significativamente o receituário do general Ludendorff.

A vitória dos Aliados sobre os nazistas na 2º Guerra Mundial fez Hitler tombar, mas não as ideias de Ludendorff. Foram elas apropriadas pela nação do chamado “Mundo Livre”. Sim, ela mesma: a nação norte-americana. Restam dúvidas sobre o fato de que a retórica belicista dos Estados Unidos guarda relação com as diretrizes do pensamento de Ludendorff? Em algumas palavras, os Estados Unidos se aventuram em guerras sem fim e instigam outros países ao mesmo. Na retórica dos seus próceres, são guerras pela sobrevivência do mundo Ocidental. Segundo a crença do Destino Manifesto, os Estados Unidos são os detetives do Ocidente.

Para o ideário do Destino Manifesto, o povo dos Estados Unidos foi escolhido por Deus para comandar o mundo! O ideário norte-americano partia de ordens metafísicas que davam ao país um sentido de superioridade sobre as outras nações. Autocompreendem-se como “xerifes do mundo”, “defensores da civilização judaico-cristã”, “guardiões da democracia e dos direitos do homem” etc. Essa era uma das muitas doutrinas norte-americanas que procurava alardear ao mundo o caráter “excepcional” dos Estados Unidos.

Logo, as doutrinas que versavam sobre o excepcionalismo norte-americano tiveram o seu encontro com as ideias do general Ludendorff. Os ideólogos da Doutrina Truman (1947) adaptaram Ludendorff à realidade do mundo pós-guerra. Para os Estados Unidos, o inimigo não era mais o nazismo. O inimigo era o comunismo. E este poderia estar em qualquer lugar, inclusive dentro do seu próprio país, contaminando o seu próprio povo! A qualquer cidadão poderia recair a suspeita de ser um teleguiado de Moscou. Germinava-se no seio dos Estados Unidos uma nova doutrina política. Era ela paranoica, beligerante, em caça obsessiva a inimigos internos e externos. Seu nome: Doutrina da Segurança Nacional.

Escolas militares estadunidenses foram fundadas para dar consistência à nova doutrina, a exemplo do National War College e do Industrial College of the Armed Forces. Foram muitos os militares latino-americanos que passaram por essas escolas, sendo doutrinados pela Ideologia da Segurança Nacional. Na 2º Guerra, os militares brasileiros lutaram ao lado dos norte-americanos sob o comando do general Mark Clark. Ao fim da guerra, os laços estabelecidos por eles foram mantidos. Militares brasileiros são convidados para se especializar nos Estados Unidos, numa daquelas escolas.

Voltam para o Brasil influenciados por posições marcadamente antivarguistas. Procuram criar por aqui uma escola militar à imagem e semelhança das escolas militares norte-americanas.[2] Surge em 1949 a Escola Superior de Guerra (ESG). Conspiradora-mor. Coordena milimetricamente o golpe de Estado de 1964, ajudando a flanquear o bloco nacional-reformista capitaneado por Jango. A ESG se mancomunava com o bloco de poder do capital multinacional e associado. Castelo Branco, o primeiro chefe do Executivo na ditadura militar, era um dos seus filhos.

Com a instauração da ditadura em 1964, a Doutrina da Segurança Nacional passava a ritmar a política no país. Tudo aquilo que os ideólogos da política externa norte-americana copiaram de Ludendorff era inserido no Brasil. A segurança interna seria garantida pela criação de um sinistro aparato repressivo e de uma labiríntica rede de informações capacitada para detectar o inimigo.[3]

Engana-se quem pensa que o inimigo interno era apenas o comunista. Este servia como pretexto. O inimigo era qualquer sujeito que fosse considerado uma ameaça à sobrevivência do “Mundo Livre”, do Ocidente, da civilização judaico-cristã. O perigo não estava em Moscou, mas dentro das nossas fronteiras. O inimigo poderia ser, portanto, o próprio povo não preparado para responder ao “chamado patriótico”. E foi assim durante toda a ditadura. Infeliz de quem ousasse questionar a política adotada pelo regime. Ludendorff fazia escola, trazidas suas ideias para o Brasil por militares brasileiros formados em renomadas escolas norte-americanas atadas à Doutrina da Segurança Nacional.

Como estamos hoje? Em 2001 o governo Bush criou a “Guerra ao Terror” e contra o “Eixo do Mal”.[4] Os Estados Unidos entraram numa guerra generalizada contra o Iraque e instigou outras nações a apoiá-los na empreitada.[5] Mais uma guerra sem fim, modelada por uma intensa propaganda de paranoia psicossocial. Com a presidência de Trump, o excepcionalismo norte-americano se revela sem máscaras. A procura de inimigos internos mobiliza parcela da população e a prepara psicologicamente para o abate do inimigo.[6]

E o Brasil de hoje? Nas relações exteriores temos um ministro que parece desconhecer o significado de diplomacia. Vive de criar cizânias com os chineses, importantes parceiros comerciais do nosso país. Desconhece a diplomacia ou simplesmente a submete à lógica da Doutrina da Segurança Nacional? Eduardo Bolsonaro, o “03”, e o ministro da Educação seguem a mesma cartilha ao mobilizarem multidões contra um suposto “complô” sino-russo-árabe. É preciso entender: a Doutrina da Segurança Nacional não reconhece as fronteiras entre guerra e diplomacia. Os fatores econômicos, puros e simplesmente, não explicam como setores do governo fazem massiva propaganda contra faustosos parceiros comerciais.

Na mentalidade paranoica do governo vigente estamos em guerra! Não numa guerra convencional, mas – ainda assim – em guerra![7] É preciso mobilizar o povo contra o perigo que está dentro do país, submetido a influências externas. Emerge um clima de vigilância permanente que joga povo contra povo, trabalhador contra trabalhador, ao toque de uma paranoia sem fim. Eis o mantra da Doutrina da Segurança Nacional. E, uma vez em guerra, optamos por batalhar ao lado dos nossos tutores, os Estados Unidos, o “excepcional”. Como dito: o “xerife” do mundo Ocidental e o “protetor” dos valores judaico-cristãos.

Lutamos ao seu lado pela sobrevivência do Ocidente. Chineses, russos, árabes, petistas, tucanos, ambientalistas, Rede Globo, Folha de SP, CNBB, gays, universitários, cientistas, militantes de esquerda etc. são colocados no mesmo balaio. Não há separação entre externos e internos. Os últimos estão umbilicalmente ligados aos primeiros numa estratégia subterrânea e silenciosa contra a moral Ocidental resguardada pelos Estados Unidos.

Não à toa, inspirados pela Doutrina da Segurança Nacional falam em AI-5, Lei da Segurança Nacional (LSN) e fechamento das instituições. Não à toa “tangem o gado” para uma mobilização permanente e preparam o terreno para o bote, sob o lema de “fechar o regime democrático para salvar o regime democrático”.

Os laivos nazifascistas e a vocação ditatorial do governo Bolsonaro têm raízes históricas e parecem ter uma lógica. Esta já deu resultados sombrios para a humanidade. Pagaremos para vê-los novamente?

 

[1] Cf. COMBLIN, José. A Ideologia de Segurança Nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 31.

[2] Cf. DREIFUSS, René. 1964 – A conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, p. 78-79.

[3] Cf. NETTO, José Paulo. Pequena história da ditadura brasileira (1964-1985). São Paulo: Cortez, 2014, p. 87.

[4] Cf. FUSER, Igor. Geopolítica: o mundo em conflito. São Paulo: Salesiana, 2006, p. 12.

[5] Cf. “Bush pede apoio de Lula para luta contra o Iraque”. In: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1112200208.htm, acessado em 25 de abril de 2020.

[6] Cf. “EUA: Carro avança contra protesto antirracismo e deixa um morto”. In: https://oglobo.globo.com/mundo/eua-carro-avanca-contra-protesto-antirracismo-deixa-um-morto-1-21699532, visto em 25 de abril de 2020.  Ver também: “Manifestantes armados contra o isolamento social nos EUA”. In: https://sol.sapo.pt/artigo/693304/manifestantes-armados-contra-o-isolamento-social-nos-eua, visto em 25 de abril de 2020.

[7] O Comitê de Santa Fé exerceu enorme influência na geopolítica norte-americana dos tempos de Reagan a Bush filho. O Comitê escreveu em 1980 o seu primeiro documento, conhecido como Documento de Santa Fé I. No texto, afirmam categoricamente que o mundo já vivenciava uma das fases da 3º Guerra Mundial. Cf. PEIXOTO, Fernando. Documento Secreto da Política Reagan para a América Latina. São Paulo: Hucitec, p. 22.

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