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O aumento da opressão das mulheres na pandemia de Covid-19

Por Paula Virgínia Colares, Unidade Popular – Ceará.

As crises sanitária e econômica causadas pela pandemia do novo coronavírus não causaram as desigualdades sociais, sejam elas de classe, gênero ou de raça, nas quais nos deparamos hoje. Na verdade, elas sempre existiram, mas estão nesse momento muito mais latentes, como podemos evidenciar em alguns dos aspectos que indicam a desigualdade de gênero no isolamento social no cotidiano feminino, como por exemplo: uma maior exposição à violência doméstica, vulnerabilidade econômica e social e a sobrecarga do trabalho doméstico e dos cuidados com os enfermos da família.

A realidade das mulheres no nosso país demostra que mesmo trabalhando fora, elas ainda são responsáveis por grande parte das tarefas domésticas, dos cuidados com os filhos e, muitas vezes, dos idosos. De acordo com os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, as mulheres realizam serviços domésticos durante 18,5 horas por semana, em comparação com 10,3 horas semanais gastas pelos homens. Um cenário de desigualdade muito mais agravado pelo quadro de isolamento social, no qual, as crianças dessas mulheres estão sem aula, sem creche e seus lares muito mais movimentados, ou seja, a dupla jornada de trabalho enfrentada pelas mulheres, na quarentena, torna-se ainda mais exaustiva fisicamente, psicologicamente e emocionalmente.

O regime de home office tem sido outro grande problema enfrentado pelas mulheres trabalhadoras. Conciliar os horários de trabalho com as demandas dos filhos e da casa,  torna-se um grande desafio, principalmente, em um contexto cultural que poucos homens dividem essas tarefas com suas companheiras, e, além disso, mais de 40% dos lares são chefiados por mães solos, o que atualmente representa mais de 11 milhões de famílias no Brasil. O Conselho Nacional de Justiça divulgou que existem no Brasil 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento.

As mulheres desempenham os trabalhos domésticos, extremamente invisibilizados pela atual sociedade patriarcal – capitalista, e ainda permanecem à frente de todo o planejamento e o gerenciamento do lar, cuidando da saúde da família e dando suporte emocional, o que lhes causa um grande desgaste mental, que é ainda mais invisibilizado do que suas tarefas domésticas, visíveis aos olhos de todos quando chegam em casa e necessárias para o processo de reprodução social do sistema capitalista.

Muitas mulheres neste período de pandemia têm apresentado sintomas de ansiedade ou depressão. Segundo estudo da Universidade do Estado do Rio (Uerj), os problemas de saúde mental estão aumentando durante o isolamento social, causado pela pandemia de Covid-19. A pesquisa revela que as mulheres são mais propensas a sofrer com ansiedade e depressão durante a epidemia, em especial, as que continuam trabalhando, porque se sentem ainda mais sobrecarregadas, acumulando tarefas domésticas e cuidados com os filhos e os idosos em casa.

Outra dimensão da desigualdade de gênero exposta por essa conjuntura é a precarização do trabalho feminino. Os dados de 2018 da Organização Internacional do Trabalho – OIT mostram que a participação feminina no trabalho informal supera a masculina em muitos dos países em desenvolvimento. Isso quer dizer que, a força de trabalho feminina está nos postos de emprego com mais vulnerabilidade aos efeitos da pandemia, a exemplo das faxineiras e diaristas. O Brasil é o país com a maior população de empregados domésticos do mundo, são sete milhões de pessoas, em sua maioria de mulheres, negras e de baixa escolaridade, 35% sendo diaristas, sem contrato de trabalho, muitas vezes privadas dos seus direitos trabalhistas, como férias, 13º salário e pagamento de hora extra, situação essa que só se agravou neste período, é o que afirma os dados do IBGE.

As mulheres também estão na linha de frente no combate ao vírus. No Brasil, cerca de 85% das enfermeiras são mulheres. Além das jornadas exaustivas, elas ainda são obrigadas a trabalhar com a escassez de equipamentos de proteção, sem os quais acabam por colocar em risco à própria saúde e a de seus familiares. Em abril, só no Ceará, foram 151 profissionais da saúde afastados em razão de doenças respiratórias, conforme a Secretaria da Saúde do estado.

A violência contra as mulheres no período de quarentena também tem sido um outro fator preocupante. De acordo com a Organização Mundial da Saúde – OMS, estima-se que uma a cada três mulheres no mundo sofrem violência física ou sexual, na maioria das vezes perpetrada por um parceiro íntimo. Só no Ceará, de 20 de março até 12 de abril, foram 703 casos de violência registrados pela Polícia Civil. Dessa forma, compreende-se que o isolamento social é um fator agravante para as mulheres vítimas de violência, pois as coloca em uma situação ainda maior de vulnerabilidade, por significar estar em casa, trancadas com o seus agressores. A Organização das Nações Unidas – ONU divulgou em março, um documento com recomendações para que a resposta à Covid-19 na América Latina e Caribe leve em conta a dimensão de gênero, orientando a garantia da continuidade dos serviços essenciais para responder o aumento da violência contra mulheres e meninas. Mas por outro lado, essa não é a realidade, já que a precária rede de atendimento às vítimas de violência, devido os efeitos da quarentena, ainda se encontra mais débil, muitas vezes sem funcionar, e assim piora a situação delas.

Portanto, podemos constatar que a pandemia da Covid-19 só agravou ainda mais a opressão e a exploração das mulheres no nosso país e no mundo. O que nos demostra que a sociedade capitalista nada tem a nos oferecer além da opressão de classe, de raça e de gênero. Nesse sentido, precisamos organizar mais mulheres na luta pelos seus direitos, contra o machismo e por outra sociedade que acabe com as desigualdades de gênero, a sociedade socialista.

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