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O trabalho remoto e a organização dos trabalhadores

Luta popular em Porto Alegre contra a retirada de direitos. Foto: reprodução

Rodrigo Fuscaldo*

Durante a pandemia do Coronavírus, que atinge em cheio a população brasileira contabilizando já mais de 25 mil mortos, parte dos servidores públicos está realizando seu trabalho de forma remota, em especial os das áreas consideradas não essenciais em tempos de calamidade pública. A alteração no modo de trabalhar evidenciou diversas especificidades que vem atreladas ao trabalho em casa.

Essa modalidade de trabalho necessita de acesso à Internet e a máquinas de qualidade, o que não é uma realidade para todos os servidores públicos. Além disso, muitos colegas vivem com sua família em casa, gerando inúmeros cenários que, de certa forma, dificultam o trabalho em casa. Por exemplo, com a pandemia, muitos servidores se encarregaram de cuidar de idosos da família, tomando para si as diversas tarefas diárias que eram realizadas na rua pelos idosos, como compras, pagamento de contas, etc. Além disso, com o fechamento de escolas e creches, muitos pais e mães tem de ficar com seus filhos em casa mesmo durante o período designado para o trabalho remoto, fazendo com que a concentração no trabalho e a participação em reuniões seja prejudicada. Muitos funcionários públicos não tem uma estrutura de escritório adequada como em suas repartições, tendo que trabalhar do sofá, da mesa de comer ou mesmo da cama, o que também impacta na produtividade. Além disso, muitos colegas se encontram no grupo de risco (idosos, imunossuprimidos, doentes crônicos, etc), o que aumenta a preocupação sobre a própria saúde.

Também, é notável que nem todas as áreas do serviço público conseguem se adaptar ao trabalho remoto. Por exemplo, uma parte dos técnicos-administrativos em educação ocupa cargos como Técnico de Laboratório, que pela natureza do trabalho é impossível de ser realizado em casa, havendo uma queda maior da produtividade se comparado aos cargos mais administrativos. Isso faz com que esses trabalhadores busquem ou sejam orientados a buscar alternativas ao trabalho manual, como por exemplo sua capacitação ou desenvolvimento de capacitações para outros servidores, ou mesmo participação em tarefas mais administrativas alheias a sua função. Isso pode impactar profundamente na saúde mental dos colegas, em especial nos casos em que a chefia não tenha consciência dessas especificidades.

Diversas outras questões impactam na saúde mental do servidor nos tempos de pandemia. O próprio isolamento social, recomendado pelas instituições responsáveis do país e do mundo para prevenir o contágio, a internação e a mortalidade pelo COVID-19 (apesar da crítica assassina feita por Bolsonaro), que dificulta ou impossibilita o contato presencial entre amigos, familiares, casais e colegas de trabalho, aprofundam o sentimento de solidão e individualidade. Esse período de quarentena, ainda, é usado pelos governos para implementar mais ataques contra os trabalhadores do nosso país, visto que a classe trabalhadora é impedida de se reunir presencialmente, fazer grandes atos, manifestações e greves, ferramentas históricas de luta dos trabalhadores e do povo.

Esses ataques diretos aos nossos direitos e salários, a falta de perspectiva de aposentadoria e as diversas medidas que o governo aplica contra o povo pobre do nosso país também acentuam a desilusão frente ao sistema que vivemos. Outro aspecto que impacta na vida dos servidores públicos é o corte imposto pela Instrução Normativa 28, que impede o pagamento de insalubridade e auxílio transporte dos trabalhadores que realizam sua jornada em casa e tem gastos muito maiores com eletricidade, água, internet, computadores etc. Esses direitos, conquistados após muitas lutas e que representam uma porcentagem significativa nos salários dos colegas, também são desrespeitados pelas reitorias de várias Universidades do país, a exemplo da UFRGS e da UFSCPA no Rio Grande do Sul, que apesar de serem, em palavras, contrárias à política de Bolsonaro, se mostram, na prática, alinhadas ao Governo Federal, abrindo mão da autonomia universitária em detrimento dos servidores.  Entretanto, apesar de serem golpes baixos, ao invés de esmaecerem a luta dos trabalhadores, os ataques do governo e de algumas reitorias em tempos de pandemia intensificam a organização das categorias para criar meios de barrar esses retrocessos, e ainda avançar, mesmo durante a quarentena.

Para que isso seja possível, é imprescindível a participação de um número cada vez maior de colegas nas reuniões e atividades coletivas dos sindicatos. Somente com muita organização e construção coletiva venceremos esse e quaisquer governos que ousarem atacar os servidores públicos e a classe trabalhadora em geral. Somos nós que construímos, desenvolvemos e criamos neste país, e a saída para esta crise e todas as outras crises do sistema capitalista, não é o corte de direitos, de salário, de aposentadoria e nem um auxílio limitado de 600 reais para o povo. A saída é a taxação das grandes fortunas, o fim de isenções fiscais para as mega empresas, a suspensão do pagamento da criminosa e trilionária dívida pública e a construção de um governo dos trabalhadores, para os trabalhadores, que invista na saúde, na educação, na ciência e tecnologia, para criar um país forte e independente, baseado no trabalho e na partilha de seus frutos e não na exploração e da opressão.

Além da participação nos sindicatos, é extremamente importante que os servidores públicos tomem partido, que participem das decisões tanto no seu local de trabalho quanto na sociedade. Organizar a classe trabalhadora e o povo e evidenciar as contradições nos parlamentos burgueses, mas também nas lutas de ruas: eis o papel da Unidade Popular Pelo Socialismo e do Movimento Luta de Classes.

* Rodrigo Fuscaldo é Técnico de Laboratório Químico na UFRGS e secretário-geral do diretório municipal da UP em Porto Alegre – RS

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