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A batalha das periferias e a Batalha do Pedregal

BATALHAS – As batalhas fortalecem a identidade cultural dos povos das períferias. (Foto: Jornal A Verdade)

Rayanny Felix e Renan Lutiane

CAMPINA GRANDE – A pandemia da Covid-19 se alastra a cada dia, atingindo periferias e cidades do interior Brasil afora. Junto ao vírus, crescem também o desemprego e a fome. Os mais pobres se veem na necessidade de correr riscos diários de contaminação nos locais de trabalho e transportes públicos a fim de sobreviver e não se afundar em dívidas ou se defrontar com a despensa vazia em casa. Esta é a batalha diária das periferias brasileiras.

Mas enquanto os olhares se voltam para o comércio, cegam quanto às periferias, às populações que já sofrem com o descaso como usuários do Sistema Único de Saúde. Esta é a situação no Bairro do Pedregal, onde casos de Covid-19 não estão sendo notificados, como denunciam os moradores.

Não é novidade o descaso da Prefeitura em relação ao Pedregal, que vive sem saneamento básico e com um canal a céu aberto onde crianças brincam diariamente. Já para o bairro de classe média que fica ao lado, existe atenção do “poder público”.

Em Campina Grande, juntamente com a Batalha do Pedregal, militantes da Juventude Rebelião e do Movimento Correnteza fizeram arrecadação de alimentos e materiais de limpeza e higiene para distribuir aos que vivem no local. Para conhecer um pouco sobre a história do bairro e sobre o desenvolvimento dos projetos locais, entrevistamos alguns moradores.

Como surgiu o Bairro do Pedregal?

Saulo Lima, 49 anos – Surgiu de uma invasão, no finalzinho dos anos 1970 e início dos anos 1980. O então prefeito da cidade, Enivaldo Ribeiro, comprou o terreno e deixou a gente ficar aqui. Desde então, o bairro vive em total abandono. Existem diversas cobranças para a Prefeitura tirar o canal porque aqui mora muita gente de risco. As ruas foram asfaltadas só depois de 30 anos, mas o bairro continua, como sempre, abandonado.

A abordagem policial é comum? 

Rafael Ferreira, 22 anos É um absurdo! Eles não querem saber se você tem passagem pela polícia ou não, se é estudante ou trabalhador… Eles só chegam aqui e agridem. Às vezes, forjam um crime para prender. Se você está passando em um momento de abordagem, eles vão te abordar também. Humilham, batem e fazem de tudo, por você morar na favela. Como se o fato de morar na favela fosse o motivo de ser oprimido. E isso é uma das coisas que mais marcam as pessoas do Pedregal. As pessoas têm medo, a polícia, que era para proteger, chega e oprime. Os caras são muito arrogantes. A abordagem policial aqui no nosso bairro é tão opressora, é tão sem noção, que os caras invadem a casa sem querer saber, sem mandado, sem motivo, sem nada. Isso só piora a situação de quem mora aqui, pois já sofremos por morar na comunidade. 

Como surgiu o projeto da Batalha do Pedregal e o que ele se propõe a ser?

Jéssica Oliveira, 27 anos (idealizadora da Batalha)Surgiu a partir da ideia que Yohan Beck teve de construir um evento de hip-hop e de rap dentro da favela, já que aqui, em Campina Grande, a maioria desses eventos era feita em locais não periféricos. Então ele me chamou para que eu ficasse na responsabilidade da poesia. Nos juntamos com os moradores para realizar esse evento de cultura e lazer dentro do Pedregal. Com um tempo, essa batalha se transformou em um projeto, diante da quantidade de necessidades e demandas que existem na comunidade. Percebemos estas necessidades a partir da ideia que tínhamos, que era de ter artistas do bairro. Muita gente que tinha vergonha de falar, de escrever… e tinha gente que queria aprender. Percebemos que era preciso fazer um trabalho com o artista local. Começamos a criar oficinas de poesia, de rima, de grafite e de autocuidado – devido à insegurança com a aparência que percebi nas mulheres que não tinham vontade de aparecer, não querem ficar em posição de destaque, nem tirar foto –, devolvendo a autoestima das pessoas. Gosto muito de falar sobre essa questão da autoestima porque, principalmente, a poesia slam é uma poesia que sai de dentro para fora sem muito compromisso com a escrita e a métrica. A ideia é trabalhar arte, cultura, educação e lazer, tudo junto, de uma forma mais leve e que alcance a população mais marginalizada. 

Como estão acontecendo as campanhas de solidariedade no bairro?

Yohan Beck, 32 anos (idealizador da Batalha)A campanha de solidariedade se iniciou quando percebemos que as pessoas envolvidas com a Batalha foram afetadas direta e indiretamente. Começando pelas crianças com pais que trabalham com reciclagem, os jovens que trabalham com reciclagem ou eram autônomos. Iniciou-se no dia 23 de março com o objetivo de passar informação. Já que não tínhamos condição de dar comida, então focamos na informação. A partir daí, adotamos modelos que já estavam sendo adotados em outras periferias, como no Rio de Janeiro, para antecipar a prevenção do coronavírus aqui. O mesmo mecanismo que a Prefeitura utilizou na quarentena, mas de maneira mais séria. Utilizamos carrinho de som e fizemos parceria com líderes locais para deixar todo mundo informado do que estava acontecendo de prejudicial. Começamos a receber apoio de alguns coletivos, entre eles o Movimento Correnteza, que nos auxiliou e ajudou com cestas básicas, e isso fez com que nossa campanha se ampliasse. Hoje utilizamos plataformas digitais.

A campanha do Pedregal ajuda também outras três comunidades. Conseguimos, através de um edital, o suporte para que se iniciasse a fabricação de máscaras e sabão, também a criação de um centro de tecnologia que tem por objetivo informar os doadores e criar uma plataforma de transparência para mostrar como está ocorrendo. O coronavírus é um inimigo invisível que pode destruir a comunidade se a gente não lutar contra ele.

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