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“Aldir Blanc: Chora a Nossa Pátria Mãe Gentil”

ALDIR BLANC – As músicas de Aldir Blanc foram imortalizadas ao longo da história. (Foto: Reprodução)

José Levino

PERNAMBUCO – Foi numa madrugada, seu horário predileto, que ele partiu no dia 4 de maio de 2020. Um carioca da gema, um brasileiro de verdade, cronista do povo, expressando a realidade e anunciando sua transformação nas poesias, letras de música e crônicas. Tinha somente 73 anos de idade e continuava produzindo muito, apesar da diabetes e hipertensão com as quais convivia há alguns anos.

Estava internado desde o dia 10 de abril para tratamento de infecção urinária e pneumonia, mas foi vitimado pela Covid-19, a “gripezinha” que está ceifando milhares de vidas no Brasil e no mundo inteiro. Aldir morreu num hospital público de Vila Isabel, aguardando em vão por cerca de 20 dias vaga numa UTI.

Falo de Aldir Blanc Mendes, que vivia em isolamento social há 30 anos, mas teve de sair para se hospitalizar, embora não haja comprovação médica se contraiu o coronavírus antes ou depois da internação. O autoisolamento aconteceu depois de um acidente de automóvel que não deixou muitas sequelas físicas, mas provocou a chamada “fobia social”. Ele se encontrava basicamente com filhos e netos e falava com os amigos por telefone.

Aldir Blanc nasceu no dia 2 de setembro de 1946 no Estácio e cresceu em Vila Isabel. Formou-se em Medicina, mas resolveu se dedicar integralmente às letras e à música, depois que viu morrer uma filha recém-nascida e nada pôde fazer. “Estou fora”, disse ele. Para a música, despertou desde cedo e, aos 18 anos, ganhou uma bateria, mas seu forte mesmo foi a escrita, apesar de ter desenvolvido vasta cultura musical. Engajado politicamente, criou em 1973 o MAU – Movimento Artístico Universitário –, junto com Gonzaguinha e Ivan Lins.

Fez mais de 600 (seiscentas) músicas com uns 20 parceiros. O primeiro foi Sílvio da Silva Júnior, com quem emplacou o primeiro sucesso – Amigo é pra essas coisas, eternizada pelo MPB-4. Mas seu parceiro mais marcante e conhecido foi João Bosco, com quem fez, entre outras que serão para sempre cantadas:

De Frente pro Crime (trata do egoísmo, da indiferença ante os acontecimentos e o sofrimento dos outros): “Sem pressa, foi cada um pro seu lado/Pensando numa mulher ou no time/Olhei o rosto no chão e fechei/ Minha janela de frente pro crime”. Dois pra lá, dois pra cá (um bolero que expressa a sensualidade tropical): “A tua mão no pescoço/As tuas costas macias/Por quanto tempo rondaram/As minhas noites vazias”; Mestre-Sala dos Mares (homenagem aos heróis e heroínas do povo brasileiro, representados pelo Almirante Negro – João Cândido –, líder da Rebelião dos marinheiros, denominada Revolta da Chibata (1910): “Glória a todas as lutas inglórias/Que através da nossa História/Não esquecemos jamais/Salve o Navegante Negro/Que tem por monumento/As pedras pisadas do cais”1.

Também compôs o hino da luta pela Anistia dos condenados à prisão ou ao exílio pela Ditadura Militar (1964-1985), a música O Bêbado e a Equilibrista: Meu Brasil/Que sonha com a volta do irmão do Henfil/Com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete”.

Estas músicas foram imortalizadas pela voz de Elis Regina, uma das maiores cantoras e intérpretes brasileiras. Sobre a parceria, o compositor e cantor João Bosco escreveu em nota de pesar pelo falecimento do parceiro e amigo: Aldir foi mais do que um amigo para mim. Ele se confunde com a minha própria vida… Não existe João sem Aldir. Felizmente, nossas canções estão aí para nos sobreviver. E como sempre ele falará em mim, estará vivo em mim, a cada vez que eu cantá-las”.

Poucos sabem que Aldir Blanc também cantava, mas não gostava de se apresentar em público. Gravou dois discos: Aldir Blanc e Maurício Tapajós (1984) e Vida Noturna (2005). Escreveu crônicas em vários jornais, especialmente em O PASQUIM, fundado em 1969, jornal que satirizava a ditadura e abria espaço para personalidades que lutavam por democracia.

Moacyr Luz, músico e compositor, um dos parceiros de Aldir Blanc (Coração do Agreste, Saudades da Guanabara, Medalha de São Jorge) conta que havia uma combinação entre os dois. Quem morresse primeiro, fecharia a Rua Garibaldi, Zona Norte do Rio, onde moravam, chamaria os amigos, faria uma festa, botaria pra quebrar. Não foi possível por causa da pandemia. Não houve festa, velório ou uma música sequer”, lamenta Moacyr. 

Chora a nossa pátria mãe gentil. Choram Marias, Clarices, Josés, Antônios e Severinos. Mas esta dor assim pungente não há de ser inutilmente. Ao som das músicas compostas por Aldir Blanc e seus parceiros o povo brasileiro haverá de superar tantos problemas que lhe afligem, derrotar a política da morte que hoje predomina e construir uma sociedade fundamentada na igualdade, na justiça, na cooperação. Viva Aldir Blanc! Viva o povo brasileiro!

Nota

[1]. Mestre-Sala dos Mares (1975) não teve a letra original aprovada pela censura estabelecida pela Ditadura Militar (todas as letras tinham que passar pelo crivo da censura antes da música ser liberada para gravação). Aldir Blanc foi convocado e teve de fazer mudanças. Segue a letra original com as palavras substitutivas entre parênteses.


Mestre-Sala dos Mares

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro (feiticeiro)
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante (navegante) negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar (acenar) pelo mar com seu bloco de fragatas (na alegria das regatas)
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas (santos entre cantos e chibatas)
Inundando o coração de toda tripulação (do pessoal do porão)
Que a exemplo do marinheiro (feiticeiro) gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro (navegante negro)
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo

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