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O que é preciso para ser um antifascista?

ANTIFA – Ser contra o avanço do fascismo é condição primeira para ser antifascista (Foto: Luiza Castro/Sul21)

Uma confusão muito comum entre os próprios setores da esquerda é achar que para ser antifascista é preciso também ser revolucionário. Acontece que todo revolucionário é necessariamente antifascista, mas nem todo antifascista é um revolucionário.

Por Felipe Annunziata
Rio de Janeiro

Embora o título deste texto tenha um tom pretensioso, a proposta não é dar uma versão pronta e acabada da luta antifascista no país. Pelo contrário, a ideia aqui é, através do resgate da experiência dos povos de todo o mundo nessa luta, tentar esboçar em que consiste ser antifascista em pleno século 21.

No Brasil, temos visto o aparecimento – cada dia menos envergonhado – de organizações fascistas. Seja a quadrilha armada de Sara Winter acampada em Brasília ou os grupos que defendem golpe militar nas manifestações em defesa do atual ocupante do Planalto. Mas o que nos fez chegar até aqui? Quem apoia, financia e dá cobertura a esses bandos? O que tornou possível esses grupos existirem e se sentirem à vontade para propagandear suas mentiras? Procurar responder essas perguntas é, talvez, o primeiro passo para se tornar um antifascista.

Reconhecer o fascismo, seus apoiadores e combatê-los com toda força

Georgi Dimitrov, comunista búlgaro que lutou contra o nazismo na 2ª Guerra Mundial, classificava o fascismo como “a ditadura aberta do capital financeiro”. Com essa definição e uma breve análise histórica podemos encontrar a presença dos grandes bancos e monopólios capitalistas no apoio aos regimes fascistas em todo o mundo no século passado.

Na Alemanha de Hitler (1933-1945), empresas como Bayer, Volkswagen e Pfizer deram todo apoio financeiro e político ao regime do partido nazista. Na ditadura fascista italiana (1922-1943), empresas como a Fiat apoiaram sem reservas Mussolini, o líder fascista citado recentemente por Bolsonaro. 

Em Portugal, durante o regime salazarista, grandes bancos ingleses e estadunidenses apoiaram e investiram na exploração colonial de Angola, Moçambique e outras nações africanas para financiar o regime fascista que durou 48 anos. No Japão fascista, entre as décadas de 1930 e 1940, monopólios como a Mitsubishi apoiaram, militarmente inclusive, o Estado Fascista japonês.

Assim, vemos que no mundo essa foi a regra ao longo da história. Não importasse o modelo organizacional, o nome que se dava ao ditador de plantão, a regra do fascismo sempre foi se apoiar nos grandes monopólios capitalistas. E no nosso país não é diferente.

Os maiores apoiadores e financiadores de Bolsonaro e dos movimentos dirigidos por ele são investidores da Bolsa de São Paulo, ligado a corretoras de ações (entre elas a BTG Pactual, de onde vem o ministro Paulo Guedes) e empresários donos de grandes redes de serviços. Além disso, vemos monopólios internacionais, grandes bancos e federações patronais, como a FIESP e FEBRABAN, apoiando as principais campanhas que sustentaram o governo até agora, como a Reforma da Previdência em 2019.

Outro setor que tem se mostrado fundamental na base do movimento fascista de Bolsonaro são as polícias militares e as Forças Armadas. Nos atos do último domingo (31/05), todo o Brasil foi testemunha de que a polícia reprimiu com força os atos antifascistas e antirracistas, enquanto abraçava e tirava foto ao lado dos manifestantes que pediam o fechamento do Congresso, do STF e uma intervenção militar pró-Bolsonaro. Logo, identificar esses apoiadores e enfrentá-los é um passo fundamental na luta antifascista. 

Isso implica que para ser um antifascista não basta apenas se opor aos grupelhos que vão às ruas defender um golpe de Bolsonaro. É fundamental enfrentar sua rede de apoiadores e financiadores. Para isso, o único caminho é derrotar o programa político dessa elite fascista: as reformas anti-povo (como a da Previdência), os cortes nos investimentos sociais e a diminuição dos direitos trabalhistas. É preciso também defender o avanço dos direitos do povo pobre, como o acesso à terra pelos camponeses, a moradia digna, a ampliação dos direitos dos trabalhadores e o aumento do investimento nas áreas sociais.

No caso dos militares, significa defender a abertura de todos os arquivos da Ditadura, a prisão de militares torturadores e a desmilitarização da PM, instituição repressiva com origens no período colonial e que sempre apoiou os golpes de Estado em nossa história. Com o avanço dessas lutas, o fascismo encontrará menos espaço para propagandear mentiras.

É evidente que Bolsonaro & Cia. têm outras fontes de apoio, como os sites e blogs de fake news e as redes criminosas de disparos no WhatsApp, que não são mais do que a velha propaganda mentirosa nazista informatizada. Eles ainda encontram apoio em setores (hoje aparentemente minoritários) da grande mídia tradicional. Mas todo esse pessoal é financiado, como as próprias investigações sobre fake news apontam, pelos grupos  burgueses citados antes. Assim, derrotar o capital e os capitalistas que apoiam os fascistas é um passo fundamental para derrotar também o fascismo.

UNIDADE POPULAR CONTRA O FASCISMO (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Reconhecer todos que podem contribuir para a luta 

Uma confusão muito comum entre os próprios setores da esquerda é achar que para ser antifascista é preciso também ser revolucionário. Acontece que todo revolucionário é necessariamente antifascista, mas nem todo antifascista é um revolucionário.

O que aqui é fundamental é que o antifascista reconheça que o fascismo só surgiu e se desenvolveu porque o capital sentiu a necessidade de um regime autoritário para aumentar a exploração dos trabalhadores. Portanto, o antifascismo é também uma luta pelas pautas populares.

Dessa forma, pessoas que defendam apenas reformas que garantam mais direitos ao povo e uma melhoria das condições, ainda que dentro da ordem capitalista, podem e são bem-vindos na luta antifascista. Mas para esses setores é preciso ficar claro que o enfrentamento ao fascismo é também um enfrentamento às pautas do capital financeiro. Setores democratas, progressistas ou reformistas que não vejam numa revolução a saída para as mazelas da sociedade, desde que entendendo a real dimensão do inimigo que se enfrenta, podem ser importantes aliados da luta antifascista.

Na França ocupada pelos nazistas, as redes de resistência dos partisans eram compostas por comunistas, anarquistas, socialdemocratas e liberais progressistas. Todos estavam unidos para enfrentar não apenas os nazistas alemães, mas também os franceses colaboracionistas. Em Portugal, durante a Revolução dos Cravos, a união de militares de baixa patente revoltosos com a política colonial e democratas progressistas, somada à luta armada de mais de quatro décadas do Partido Comunista, foi fundamental para a derrubada do salazarismo.

Ser antifascista, portanto, embora não seja sinônimo de ser revolucionário, significa sim ser contra o capital financeiro e as políticas de diminuição dos direitos do povo. logo, ser antifascista é, no mínimo, ser progressista.

A luta antifascista é uma luta das forças populares contra as forças reacionárias

Este talvez é o ponto mais importante. Há na grande mídia o discurso de que cabe às instituições da ordem (STF, Congresso e a própria mídia) controlar Bolsonaro e seu movimento golpista e, eventualmente, derrotá-lo. Em nenhum lugar da história as chamadas “instituições democráticas” foram capazes de barrar um golpe fascista. Pelo contrário, em todos os casos ou se apoiou o golpe através do parlamento ou essas instituições se omitiram diante do avanço fascista.

Hoje não é diferente. Mesmo sabendo de todo apoio de neonazistas e supremacistas brancos que Bolsonaro tem, Rodrigo Maia (presidente da Câmara) senta em cima de mais de 40 processos de impeachment contra o presidente. Os mais novos aliados de Bolsonaro são os deputados do chamado “Centrão”, que não é nada mais que um grupo que reúne uma ou duas centenas de deputados de direita que vivem de currais eleitorais e de parasitar o Estado brasileiro durante gerações que aprovam tudo que é de interesse da burguesia em troca de cargos no governo. 

No judiciário, a despeito de declarações mais duras de um ministro ou outro do STF, o presidente da corte gosta de andar de afagos com Bolsonaro. O procurador-geral Augusto Aras, por sua vez, faz de tudo para agir como advogado particular da família miliciana do presidente.

Muito mais não pode se falar dos governadores que se opõe ao presidente, boa parte dos quais aplicam políticas corruptas e assassinas contra o povo pobre dos seus estados. Exemplo de Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, que foi denunciado por roubar dinheiro da saúde no meio da pandemia e ainda continua a sua política genocida contra a população negra das favelas. Portanto, não será nenhuma instituição estatal que terá as condições de conduzir a luta contra o golpe fascista, e é por isso que temos mais um motivo para compreender que a luta antifascista é uma luta essencialmente popular.

Dimitrov dizia que o fascismo só se derrubava com uma ampla “frente popular”. Hoje, isso é muito atual. Apenas com o povo pobre de frente, através de sua mobilização e das suas organizações, é que poderemos derrotar o fascismo. São os sem-terra, os movimentos de moradia, os elementos progressistas das torcidas organizadas, os partidos e organizações populares, as organizações indígenas, os movimentos e coletivos negros, sindicatos, movimentos de mulheres e LGBT que estarão na frente de batalha contra os fascistas.

São esses setores os mais atacados num golpe fascista. São esses movimentos, que representam uma ou mais pautas e setores da sociedade, que os fascistas odeiam de morte. Os fascistas não odeiam de morte a grande mídia, apenas querem controlá-la e transformá-la numa rede de propaganda de mentiras a seu favor. Eles não odeiam de morte o Congresso e o STF, desde que apoiem suas pautas. Eles odeiam de morte apenas os trabalhadores, os negros, as mulheres, os LGBTs, os camponeses, os sem-teto e os sem-terra, porque para eles a simples existência digna desses setores significa uma ameaça a seu projeto.

Por isso, o fascismo só se vence nas ruas. Todos os manifestos, frentes da intelectualidade, apoios dentro da institucionalidade, desde que observado essas questões que se apresenta, são importantes. Mas é apenas na luta de rua, na ação do povo pobre que os fascistas serão derrotados. O fascismo gosta de se afirmar como um movimento de massa e tem nisso uma de suas táticas centrais, portanto, só com um amplo e grande movimento de massa, verdadeiramente popular, é que venceremos o fascismo.

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