UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 25 de setembro de 2022

Sobram professores e falta pedagogia na esquerda

MANIFESTAÇÃO ANTIFASCISTA – Antifascistas tomaram as ruas no domingo contra o governo Bolsonaro. (Foto: Jorge Ferreira/Jornal A Verdade)
Lucas Marcelino*

SÃO PAULO – Paulo Freire talvez só perca para Jesus Cristo em número de pessoas que dizem seguir suas ideias, mas tem atitudes opostas. Se ele pregava que o educador deve ter humildade e autocrítica constante em um processo de ensino-aprendizagem e valorizar o que o estudante traz de conhecimento, boa parte dos militantes de esquerda se coloca como dona da verdade, apenas critica e ignora a experiência de luta de pessoas que se aproximam.

Essa prática (ou práxis para agradar alguns) chegou ao ponto em que tudo, basicamente tudo, é motivo de discussão e imposição de verdades, sempre em tom de deboche, raiva e tentativa de humilhar quem pensa diferente, mesmo dentro da esquerda.

O exemplo mais recente e de grande repercussão foi a discussão sobre o uso de outras cores no logo antifascista.

Se você não acompanhou a discussão, resumo aqui: após os atos realizados por torcidas organizadas e torcidas antifascistas muita gente passou a se declarar “antifa” (abreviação de antifascista) e a usar o logo antifascista com cor de fundo variada e identificação de grupos, por exemplo, “professores antifascistas”.

Como resposta a atitude de boa parte daqueles que se consideram membros de uma organização antifascista foi de perseguição às pessoas que não apresentaram suas carteirinhas de membros do grupo antifascista com um carimbo para cada manifestação.

Acontece que não existe uma organização antifascista. O antifascismo é uma visão de mundo e um conjunto de atitudes de enfrentamento ao sistema capitalista e as opressões criadas ou aprofundadas por ele.

“Virou Modinha”

Antes das manifestações o termo antifascista vinha crescendo nos últimos anos, mas ainda era uma ideia restrita a uma parcela da população, principalmente entre militantes de movimentos sociais e organizações políticas como partidos de esquerda ou grupos anarquistas. De um dia para o outro tudo mudou nas redes sociais. Mas isso é ruim?

Vamos refletir: o mundo era melhor quando praticamente metade da população vivia no socialismo ou agora em que a hegemonia é do sistema capitalista? A Alemanha era melhor quando tinha uma grande participação dos movimentos operários e do partido comunista ou quando foi dominada pelo partido nazista? Vindo para a atualidade, o Brasil era melhor quando 80% da população apoiava um governo socialdemocrata com vários defeitos ou agora que desses 80% boa parte passou a defender um governo pró-ditadura e a pedir intervenção militar?

O que eu quero dizer com isso é que entre a população sempre haverá grupos como os militantes que estudam e dedicam sua prática à uma ideologia política; os simpatizantes que acham aquela ideia correta, mas por diversos motivos não se envolvem a fundo; e aqueles que estão preocupados apenas com seu ganho pessoal, seguindo aquele grupo que lhe dá mais vantagens.

Os dois primeiros grupos devem ser bem-vindos. O terceiro também, desde que se tome bastante cuidado.

Muitos(as) Professores(as), Pouca Pedagogia

Como professor eu aprendi que as pessoas com menor entendimento são as que precisam de mais atenção e alguns erros precisam ser relevados para conseguir avanços.

O maior erro de um professor é encontrar um estudante que está começando ou tem dificuldades para entender algo e focar nos erros dele. Essa atitude faz o estudante se afastar daquilo e buscar algo mais fácil ou em que ele seja aceito com seus erros.

Por exemplo: em uma aula de química o estudante compreende o conceito, mas erra um cálculo. Se eu valorizar o entendimento do estudante posso incentivá-lo a tentar fazer o cálculo novamente, se eu apenas criticar o erro de cálculo posso criar uma rejeição a todo aquele conteúdo ou até mesmo a todas as aulas de química.

E é basicamente isso que os(as) “professores(as) de antifascismo” estão fazendo.

Muitas pessoas que se declararam antifascistas com uma imagem nas redes sociais não sabem tudo sobre o antifascismo. Algumas talvez tenham visto o logo pela primeira vez, outras apenas se identificaram com a atitude frente aos grupos “bolsonaristas” e fascistas e alguns podem ter apenas se solidarizado com os grupos atacados pela polícia. E tudo isso é bom para nós antifascistas.

Vou dar um exemplo: vi pessoas postando uma versão escrito “católicos antifascistas”. Para muitos militantes isso parece absurdo já que a Igreja Católica é uma das instituições mais reacionárias e teve (e ainda tem) ligações com grupos fascistas.

Acontece que meu vizinho é católico por tradição da família e se identifica muito mais com os ideais cristãos de igualdade, justiça social e eliminação da pobreza do que com documentos de Roma ou do Vaticano que ele nem sabe que existem. Meu vizinho faz parte das comunidades eclesiais de base que ajudam pessoas pobres e criticam as injustiças e discorda de várias ações da direção da Igreja como a condenação dos LGBTs ao inferno.

Meu vizinho é antifascista? Conscientemente não, mas concorda com várias ideias antifas. Ele pode se tornar um antifascista consciente? Claro, desde que ele seja acolhido e respeitado nas suas dificuldades e possa se desenvolver e avançar.

Penetrar nas Massas

Então pode tudo? Claro que não. O antifascismo tem alguns princípios claros como ser anticapitalista; ser contra toda opressão e segregação como racismo, LGBTfobia, machismo, entre outras; lutar por justiça social e pela derrubada do sistema capitalista; defender ideais operários e da classe trabalhadora contra a exploração dos patrões e por aí vai.

E um católico pode fazer isso? Claro. Ou vamos esquecer de Frei Tito e Padre Henrique que foram torturados e mortos pela Ditadura Militar ou de Dom Helder que foi Arcebispo de Recife e defendeu presos durante a mesma Ditadura?

Isso não significa que não devemos ter cuidados. Sempre que algo se populariza acontece um movimento de adaptação com a inserção e rejeição de algumas ideias novas e antigas. A questão das cores se encaixa aí.

Estudantes de ciências ambientais que colocaram o fundo verde ou LGBTs que colocaram a bandeira do arco-íris de fundo estão traindo o movimento ou deturpando suas ideias? Jamais. Eles estão em processo de aprendizagem e aproximação com o movimento e se forem acolhidos podem compreender a importância das cores vermelho e preto.

Uma das frases mais famosas de Marx diz o seguinte: “uma teoria se torna material quando penetra nas massas. Ela nos ensina uma coisa essencial para esse momento, mas por bem ou por mal muita gente se esqueceu.” – Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, 1843.

Quem tem medo dessa massificação do movimento tem medo de cumprir seu papel de difundir o antifascismo e ajudar na elevação do nível de entendimento das massas, prefere ficar sonhando com lutas fictícias e escalpelamento de nazistas em algum grupo guerrilheiro enquanto observa a fumaça do cigarro subindo e aprecia sua bebida lendo um texto de algum filósofo obscuro.

De fato, muitos desses novos simpatizantes antifascistas não estão completamente ganhos para a luta. Mas neste momento de intensa discussão política todo mundo quer se posicionar e somar forças. Se não nos colocarmos para receber e educar os novos simpatizantes do movimento antifascista eles serão acolhidos pelo “bolsonarismo” que não se preocupa em chamar alguém de irmão para amanhã usá-lo como escravo ou escudo humano para os líderes fascistas.

Usemos os princípios antifascistas de solidariedade e unidade da classe trabalhadora para ampliar nossas fileiras e criar um grande exército de combate ao fascismo. Lembrando que em um exército popular cada pessoa ocupa uma função de acordo com suas habilidades e dedicação, mas nenhum general vence uma guerra sem um grande batalhão de soldados.


*Professor e Militante da Unidade Popular.

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