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As torcidas organizadas representam a juventude das periferias

SOLIDARIEDADE – Torcidas organizadas também constroem a campanha das brigadas de solidariedade no Ceará. (Foto: Claudiane Lopes/Jornal A Verdade)

Claudiane Lopes e Michell Platini

FORTALEZA – As torcidas organizadas de futebol vêm tendo um papel de destaque na luta contra qualquer tentativa de golpe militar no Brasil e na oposição ao governo fascista de Jair Bolsonaro. Foram diversos atos que ocorreram em várias capitais brasileiras e fortaleceram o sentimento antifascista no país. A Torcida Vozão Antifa é uma delas e vem atuando no Ceará na luta contra o avanço do fascismo e em prol das famílias pobres e periféricas que estão passando dificuldades na pandemia de Covid-19. O Jornal A Verdade entrevistou Emmanuel Lopes, que faz parte da Comissão de Articulação Institucional da torcida.

Como surgiram as torcidas organizadas no Brasil?

As torcidas organizadas no Brasil surgiram em 1969, um ano após o AI-5, e com forte apelo de combate à ditadura. Outro aspecto é que as torcidas organizadas são movimentos sociais com forte noção de identidade e territórios nas cidades. É a partir da juventude das periferias que se faz essa articulação e, por conta de todo tipo de vulnerabilidade a que estão submetidos, estes sujeitos se mobilizaram.

Como nossa juventude periférica que mais sofre é negra, precarizada e sem oportunidades, muitas vezes é nas torcidas que o sentimento de pertencimento surge. Outro fator da “surpresa” com a presença destes sujeitos nos atos é porque surgiu um vácuo de trabalho de base da esquerda. A despolitização como um projeto intencional não esperava que viesse das torcidas de clubes um brado indignado contra o racismo, e retórica fascista, mas veio, e elas se apresentam como potentes agentes dessa luta. As torcidas antifascistas se unem em grupos estaduais, como fizemos desde as eleições com o “Ele Não!”, em defesa da educação, nas marchas das mulheres e também para debater suas posturas e ações na Torcidas Antifas Unidas (TAU) e na TAU-Nordeste.

Como surgiu a Vozão Antifa?

A torcida surgiu em novembro de 2017, com a junção das vontades de torcedoras e torcedores que visualizaram a escalada de autoritarismo no Brasil e decidiram se organizar observando outras experiências. Percebemos que as opressões se colocam de maneira velada ou escancarada também no futebol e decidimos, a partir da arquibancada, lutar por uma sociedade mais justa e igualitária, em que caibam todas as expressões do povo. Depois do golpe parlamentar de 2016 e do acirramento do clima político, foi criado o ambiente para nos ligarmos em prol de objetivos e bandeiras do campo da esquerda, tendo como espaço de combate o futebol.

 Quais bandeiras a Vozão Antifa defende?

Fazemos um diálogo entre as bandeiras que estão difundidas na sociedade, aplicando-as ao futebol e tentando fazer o inverso, levar para a rua as demandas do esporte. Lutamos contra a homofobia, o racismo, a xenofobia, a misoginia e o machismo nos estádios marcados pelas desigualdades socioeconômicas. Contra a elitização do futebol, que veta o lazer para o torcedor pobre. Isso se vislumbra na arenização das praças esportivas, preços de ingresso, alimentos e produtos.

Lutamos por melhores condições de tratamento no transporte público para chegar ao estádio, numa segurança pública que não seja degradante e violenta para dar condições aos torcedores de realizarem a festa. A indústria do esporte, seus dirigentes, cartolas, imprensa etc. nos tratam como cliente/consumidor do futebol. Rechaçamos esta pecha. Somos contra o genocídio da juventude negra expressado nos estádios pela violência policial e criminalização das torcidas organizadas. Somos contra o projeto de lei que permite a abertura de capital dos clubes, podendo-lhes ter um proprietário, sendo transformados no “clube-empresa”. Somos a favor de uma sociedade emancipada, igualitária, que represente os anseios coletivos. Uma sociedade que garanta direitos fundamentais e essenciais (educação, saúde, lazer, cultura, transporte, moradia), públicos, gratuitos e de qualidade. Somos a favor das gestões participativas dos clubes, democráticas, populares e que não entreguem ao capital nossos times. Somos, portanto, anticapitalistas.   

No último mês ocorreram atos antifascistas em várias cidades do país para contrapor às manifestações da extrema-direita em defesa de uma intervenção militar (golpe)?

As torcidas antifascistas são fóruns que reúnem pessoas de várias organizações, tendências, partidos, movimentos, coletivos ou independentes. É também um lugar para agregar pessoas que têm princípios e valores democráticos, que torcem pelo mesmo time, mas que não têm experiência de organização e sentem-se confortáveis em se aproximar. O nosso trabalho nesse sentido é convergir essa diversidade de vontades e tentar organizar e formar politicamente novas frentes.

Bolsonaro, eleito por um processo mentiroso e viciado, é filho do racismo estrutural, do patriarcalismo e do espírito golpista que permeia toda nossa história. É o que há de pior na expressão política humana. Representa a anticiência, o negacionismo climático e histórico, o fundamentalismo religioso, o autoritarismo. Mas nem todos os que votaram nele são fascistas. Nossa “Tia do Zap”, com quem passamos a infância com carinho, ternura e amor, de repente verbaliza ódio, racismo, desprezo pelo outro. O que aconteceu? Pessoas com quem convivemos no dia a dia, colegas que dividimos espaço no estádio, foram enganadas pela antipolítica e pelas fake news. É preciso enxergar quais corações e mentes podem ser disputados e trazidos de volta para a razão. Fascistas são os que conscientemente se sentem representados.

Nos unimos na luta urgente, que é destituir o Governo Bolsonaro e Mourão, a correição dos arroubos policialescos da Justiça burguesa partidarizada e a realização de eleições livres. E isso só vai acontecer se agitarmos e ocuparmos, como sempre fizemos, as ruas. Realizamos agora durante a pandemia uma ação importante, que é a campanha Driblando a Fome, que, na primeira etapa, se aliou à Rede de Solidariedade do MLB Ceará para fazer doação de cestas básicas.

Sabemos que grande parte dos clubes de futebol do Brasil é controlada por partidos de direita, que utilizam esse meio para ganhar dinheiro com a venda de jogadores e eleger seus candidatos. Como a Vozão Antifa analisa essa situação?

A política partidária está no cotidiano dos clubes. Em ano eleitoral, fica mais evidente ainda, com o lançamento de candidaturas de dentro das diretorias, mas ela permeia as relações dos clubes o tempo todo. As instâncias de decisão, tais como diretorias e conselhos, são lugares cheios de representantes da classe empresarial, classe média alta, liberais, ricos e abastados, que compram seus títulos de “sócios-proprietários”. Os clubes brasileiros ainda são sociedades sem fins lucrativos (o que pode mudar se o projeto de clube empresa for aprovado) e esta exclusão é sintoma da sociedade abrangente.

Os estatutos de alguns clubes vêm mudando de alguns anos para cá, permitindo a entrada de chapas mais democráticas, abertas e populares. O modelo de sócio-torcedor como relação entre clube e adepto dá uma perspectiva da participação, mas precisamos ser mais do que consumidores de ingresso para o ano todo, devemos participar da vida do clube.

Neste cenário nublado, surgem os oportunistas da direita que buscam os votos sem fazer nada relevante pela instituição e adeptos. Nós não apoiamos quem só se diga torcedor do Ceará Sporting Club, ou que se aproxime, ou até mesmo faça carreira dentro do clube. Nossa análise quer saber que projeto de sociedade você representa? Lutamos pelo diálogo e pela criação de um ambiente de debate que seja de disputa de ideias para o clube e para a sociedade, não mera reprodução e acúmulo do capital. Esta tem sido uma árdua tarefa.

Uma saída é nos articularmos com as outras torcidas organizadas. É uma relação muito importante. Em várias frentes fazemos coro com as torcidas organizadas tradicionais, as respeitamos por suas trajetórias e lutas. Elas e as torcidas antifas devem se unir nas ações que defendem a democracia e que lutam pela preservação dos direitos humanos.

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