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Lesbofobia: uma violência velada

Foto: reprodução.

Por Ana Caroline Penna

RIO DE JANEIRO – Estamos no mês da visibilidade lésbica e diferente do que acontece em junho, as grandes marcas não abraçam essa causa afim de lucrar como usam a bandeira do arco-íris. A lógica liberal que esvazia e distancia a mobilização em diversas causas, não se exime de criar o mesmo cenário no movimento LGBT+.

Durante esse mês a produção de conteúdo voltado para esse público foi única e exclusivamente feita por mulheres lésbicas e contou com o apoio de alguns movimentos de mulheres. O Movimento de Mulheres Olga Benário promoveu quatro encontros sobre temas extremamente necessários para esse mês. Olhando de forma ampla para a construção de agosto falamos mais para os pares do que para a sociedade como um todo e mais uma vez pouco se denunciou sobre lesbofobia para os que seguem cometendo-a.

“Lesbofobia é a intersecção entre a homofobia e o sexismo contra mulheres. Inclui várias formas de negatividade em relação às mulheres lésbicas e bissexuais como indivíduos ou grupo social, ou aos relacionamentos lésbicos”, é o significado que aparece quando se faz uma pesquisa rápida. Mas seus desdobramentos estão além uma simples definição, nem é apenas o apagamento social dessas mulheres.

É um preconceito que gera violência física, estupro corretivo e assassinato – uma longa lista de crimes de ódio. A omissão do olhar sobre a causa é percebida na ausência de dados sobre ela. O Dossiê do Lesbocídio é um relatório que denuncia e analisa os casos decorrentes da lesbofobia, e nos mostra valores assustadores dessa realidade. Ele é de autoria das pesquisadoras da UFRJ Maria Clara Dias (professora do Departamento de Filosofia e coordenadora do estudo), Milena Cristina Carneiro Peres e Suane Felippe Soares, foi desenvolvido pelo grupos de pesquisa “Lesbocídio – As histórias que ninguém conta” e surgiu como iniciativa do Núcleo de Inclusão Social e do Nós: Dissidências Feministas. Esse material é facilmente encontrado em sites de busca e nos mostra a quantidade de casos de mortes por lesbofobia de 2014 a 2017.

Em tempos de pandemia ocorreu um aumento significativo nos casos de violência contra a mulher, pois o isolamento colocou muita das vítimas dentro de casa com seus agressores. O ponto que cabe a reflexão é: onde estão as mulheres lésbicas nesses dados? Quais mortes e registros de agressão pela Lei Maria da Penha são contabilizados como lesbofobia? A iniciativa do Dossiê aponta alguns números assustadores de três anos atrás. Como será que estamos hoje, em meio a um governo que legitima discurso de ódio e possibilita que o conservadorismo esteja cada vez mais fortalecido?

O machismo permite que a dinâmica da opressão e da violência seja mantida. Quando mulheres que desafiam a lógica patriarcal expressam sua afetividade por outras mulheres, causam a sensação de ultraje à virilidade e subjetividade masculina, que responde com extrema violência.

É importante cobrarmos que a sexualidade de mulheres vítimas de violência ou assassinadas conte como dado fundamental nos registros, assim como raça e localidade. Quando nos debruçamos sobre os dados gerados percebemos que as conquistas relacionadas ao tema são das mulheres brancas, que conseguem denunciar essa violência e infelizmente vemos que as que mais morrem vítimas de agressão são as mulheres negras e ainda faltam dados sobre essas mulheres, que são divulgadas como números. Além disso, basicamente não há informações sobre mulheres indígenas, mulheres lésbicas e mulheres trans nesses registros.

Denunciar o lesbocídio é também denunciar que tipo de proteção estamos tendo direito. Precisamos garantir o direito à vida para todas as mulheres e exigir que esses números tenham seus devidos recortes, pois isso assegura o que lhes é negado: o direito a justiça e a memória. É nosso dever enquanto mulheres que militam de forma organizada fazer disso uma pauta relevante dentro dos movimentos e organizações para que se possamos mudar essa triste realidade.

Agosto já está no fim, mas o legado que o mês da visibilidade nos deixa é essa reflexão. Que estejamos atentas à vida das mulheres lésbicas e que a lesbofobia e o lesbocídio não siga sendo mais uma violência naturalizada e sim combatida.

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