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Bolívia: trabalhadores contra governo golpista

QUEREMOS ELEIÇÕES – As massas trabalhadoras da Bolívia exigem eleições livres no país. (Foto: Reprodução/Tinta Roja)

Felipe Annunziata

RIO DE JANEIRO (RJ) – O mês de agosto foi marcado por imensas mobilizações operárias, camponesas e populares em várias cidades bolivianas. Utilizando da tradicional tática de luta de bloqueios de estradas, trabalhadores de vários setores fizeram greves e passeatas exigindo eleições e a saída do governo fascista de Jeanine Añez, imposto por um golpe militar-policial em novembro do ano passado.

As greves e os bloqueios de estradas tinham como principal palavra de ordem “Eleições Já!” e foram motivados pela decisão do Tribunal Eleitoral da Bolívia de adiar as eleições de setembro para o dia 18 de outubro. Em pouco tempo, a revolta popular tomou outras proporções e a exigência da saída imediata do poder de Añez e das oligarquias de La Paz e Santa Cruz de la Sierra passou a ser a principal reivindicação.

Governo Tenta Fraudar Processo Eleitoral

Em novembro de 2019, a Bolívia sofreu um golpe de Estado dado por militares, policiais e por milícias fascistas armadas. Eles forçaram a renúncia de Evo Morales, então presidente, e colocaram no lugar o atual governo interino da desconhecida senadora Jeanine Añez, ligada à CIA e ao Governo dos Estados Unidos. Logo as milícias paramilitares começaram uma onda de sequestros e assassinatos de lideranças populares e militantes de organizações de esquerda.

Os golpistas foram apoiados pela Embaixada dos EUA, que, por meio da Organização dos Estados Americanos (OEA), forjou uma auditoria eleitoral apontando que a reeleição de Morales, em outubro de 2019, havia sido fraudada. Essa auditoria foi o pretexto utilizado para a realização do golpe em novembro. Em fevereiro, o jornal The Washington Post publicou um estudo de dois pesquisadores apontando que a auditoria não estava correta. Em junho, a fraude foi comprovada por estudos independentes de universidades americanas e publicada no insuspeito jornal The New York Times.

No poder, os golpistas trataram de implementar o programa estabelecido pelo imperialismo estadunidense. Começaram com uma agenda de cortes nos gastos sociais e dos direitos trabalhistas e preparam o país para uma onda de privatizações.

As eleições, que antes estavam previstas para o primeiro trimestre, vêm sendo adiadas sistematicamente com o argumento de que a pandemia impede sua realização. No entanto, o governo fascista da Bolívia segue a mesma cartilha do governo brasileiro e tem tirado qualquer condição do povo pobre boliviano poder se proteger da pandemia. Há denúncias que respiradores importados sofreram superfaturamento, além de desvios da verba voltada para a pandemia.

Ao mesmo tempo, todas as pesquisas de opinião apontam para uma provável vitória, ainda em primeiro turno, do candidato do partido Movimento ao Socialismo (MAS), Luis Arce. O MAS é o mesmo partido de Evo Morales e tem maioria na Câmara dos Deputados e o Senado do país. Ou seja, um cenário de eleições sem fraudes tiraria os golpistas do poder.

Mobilizações de Agosto

Este é o contexto em que se desenvolveram as mobilizações de agosto na Bolívia. Percebendo a tentativa de fraudar ou mesmo impedir as eleições, trabalhadores urbanos e camponeses se colocaram em luta. Vale destacar que, desde o primeiro dia do golpe, esses mesmos setores se mobilizam constantemente para enfrentar as ofensivas do governo golpista.

No entanto, os atos de agosto iniciaram com a pauta de obrigar o Tribunal Eleitoral a cumprir a data do dia 6 de setembro para as eleições. O tribunal, pressionado pelo governo, não cedeu. Outras reivindicações que atingem diretamente o programa econômico neoliberal também tomaram as ruas. Ficou claro a todos os setores mobilizados que com um governo fascista é impossível qualquer acordo. Com Jeanine Añez e seus aliados no poder não seriam as eleições que derrotariam o golpe, só a mobilização popular.

As passeatas e bloqueios paralisaram o país e colocaram o governo contra a parede. Setores da direita fascista que não compõem diretamente o governo, liderados por Luis Fernando Camacho (também candidato presidencial e conhecido miliciano na Bolívia), colocaram grupos paramilitares nas ruas para atirar nos manifestantes. O ministro de governo, Arturo Murillo, saudou os policiais e milicianos que foram reprimir os manifestantes afirmando que “meter bala seria o politicamente correto”.

A situação foi piorando e Morales, refugiado na Argentina, e o MAS tentavam amenizar o cenário propondo um acordo com o governo fascista. O MAS, mesmo controlando o Legislativo e a maioria dos governos departamentais (equivalente aos estados no Brasil), optou por não enfrentar e colocar a derrubada do governo na ordem do dia. Em vez disso, apresentou às organizações populares uma proposta de acordo com o Tribunal Eleitoral, governo e organizações populares mediado pela ONU aceitando a data de 18 de outubro, mas colocando-a como irrevogável.

O vacilante Luis Arce, candidato presidencial do MAS, afirmou que “se vamos derrubar este governo, como dizem os companheiros, que governo vai entrar? Creio que esta reflexão temos que fazer. Derrubar Añez implicaria um novo governo provisório que teria que convocar novas eleições e, portanto, isso implicaria um período maior de incerteza”.

Mesmo com a oposição dos setores populares mais combativos, o acordo foi firmado entre o MAS e os golpistas, e a lei que autoriza a eleição para 18 de outubro foi aprovada no Legislativo. As direções das principais organizações populares que convocaram as greves e bloqueios, a Central Operária Boliviana (COB) e o Pacto de Unidade (historicamente influenciada pelo MAS), aderiram e suspenderam as mobilizações maiores.

Mesmo assim, as manifestações continuaram em todo o país contra os ataques aos direitos sociais promovidos pelo governo, com marchas no interior e manifestações na cidade. O governo e as milícias, por sua vez, aumentaram a violência atirando e prendendo mais manifestantes. A procuradoria-geral da Bolívia (controlada pelo governo) começou a acusar vários militantes de esquerda de terrorismo. O próprio candidato presidencial do MAS, que lidera as pesquisas, foi denunciado ainda em julho por “práticas antieconômicas” quando era ministro de Morales, mostrando qual é a intenção do governo fascista em devolver o poder ao MAS.

Derrotar o Imperialismo e o Fascismo

A situação na Bolívia mostra que apenas com um enfrentamento direto e a mobilização popular é possível derrotar o fascismo e seus apoiadores. A conjuntura naquele país reflete que o choque entre os setores populares e reacionários é cada dia mais inevitável. Ninguém dá um golpe de Estado planejando devolver o poder aos golpeados. Não foi assim aqui no Brasil, quando a direita derrubou Dilma e o PT, e na Bolívia não será diferente. As atitudes do próprio governo e dos milicianos mostram sua falta de disposição ao diálogo.

Na Bolívia, o que fica claro é que apenas as mobilizações dos trabalhadores poderão derrotar o governo fascista miliciano.

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