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Colégio Pedro II: A realidade da educação na pandemia

Movimento estudantil do Colégio Pedro II esteve na linha de frente nas lutas do Rio de Janeiro desde o século XIX. Foto: reprodução.

RIO DE JANEIRO – Faz algum tempo desde que a grande mídia passou a acompanhar, não suficientemente de perto, as comoções sobre ensino remoto no Colégio Pedro II. As reclamações de alguns grupos de pais e responsáveis, entrevistas com o reitor estão sendo usados para forçar a conclusão de que “o Pedro II não se importa com seus estudantes, porque não adota o ensino remoto”.

No entanto, a realidade é bastante diferente do que alguns dizem e, principalmente, do que a grande mídia está mostrando. Desde junho um exaustivo trabalho pedagógico e logístico foi iniciado com a formação de grupos de trabalho, compostos por servidores, alunos, pais e responsáveis, com o objetivo de decidir sobre as atividades a serem ofertadas pela instituição. Nesse contexto, um planejamento cuidadoso está sendo construído, organizando as chamadas Atividades Remotas de Apoio Cognitivo e Emocional.

É importante, no entanto, lembrar que o colégio nunca parou. Na verdade, os professores estão trabalhando ainda mais e a plataforma online institucional – o Moodle – está repleta de atividades, sugestões de vídeos, sites e outros materiais opcionais para os estudantes desde o mês de abril. Projetos como o NU (Núcleo de Utopias), o LEDI (Laboratório de Estudos em Educação e Diversidade) e até mesmo aulas de música online também podem ser citados quando o assunto é apoio pedagógico durante a pandemia.

Também está sendo pensada uma excepcionalidade para os alunos e alunas concluintes (dos anos finais do Ensino Médio Regular, Técnico e do PROEJA – Ensino de Jovens e Adultos), para que estes tenham atividades remotas letivas, já que muitos precisam de seus diplomas logo, para entrar no mercado de trabalho e/ou universidades. Assim, essas complexas questões socioeconômicas e pedagógicas estão sendo discutidas nos fóruns, grupos de trabalho e conselhos institucionais, para que haja a contagem de carga horária, de forma remota e opcional, para esses alunos.

A proposta (que ainda está sendo discutida nas diversas instâncias da instituição), conta também com a possibilidade de ter o ano letivo presencialmente de forma integral, irrestrita e com todo o conteúdo da série novamente. Isso serve como garantia para a inclusão dos estudantes que não queiram ou não consigam frequentar as atividades remotas, seja por falta de acesso tecnológico, seja por falta de condições emocionais ou por qualquer outra razão. Afinal, mesmo com a oferta do “Auxílio de Inclusão Digital” e do “Auxílio Emergencial Estudantil”, temos muitos outros impeditivos, além da própria falta de amplitude desses auxílios.

Pedagogia e Democracia

Em meio a tudo isso, muitas disputas relativas à organização interna do Colégio Pedro II vem sendo travadas, com críticas ao atual modelo organizativo. Os Grupos de Trabalho, embora ainda precisem de maior representação estudantil, são de um grande avanço para nossa democracia interna. Problemas de diálogo e comunicação, presentes na maioria das escolas, muita das vezes se ligam com a presença ou não das bases dentro dos fóruns e conselhos institucionais.

A gestão escolar não se limita à administração de alguns poucos, mas deve incluir amplos setores nos espaços de deliberação, como os grêmios estudantis, sindicatos e organizações de servidores e as associações ou grupos de pais e responsáveis. Afinal, a escola deve ser construída por aqueles que se utilizam dela, sem se valer de qualquer tipo de preconceito e muito menos de discriminação etária contra estudantes. Deve ser um espaço plural, respeitoso e que considere em primeiro lugar os interesses das bases, daqueles que estão mais intimamente ligados à instituição.

Pensar uma escola democrática e participativa é dar voz aos setores que a compõem, em uma experiência de coletividade, que incentive a autonomia e emancipação intelectual e criativa de todos os envolvidos. É incentivar o desenvolvimento individual e coletivo dos atuantes através da crítica e autocrítica, pois a educação em sua essência é justamente um processo dialético, que se vale do senso crítico para funcionar.

No Colégio Pedro II, a ação estudantil organizada vem conquistando importantes direitos e garantias, através de assembleias e reuniões onlines, pesquisas de opinião e manifestos assinados pela maioria dos estudantes. Com isso, enfrentamos o autoritarismo do reitor Oscar Halac, que muita das vezes gerencia a escola por meio de portarias unilaterais e antidemocráticas. Por isso é tão necessária a presença de um movimento estudantil organizado e combativo dentro dos fóruns de decisão, especialmente com a presença dos grêmios no Grupo de Trabalho Central.

Em tempos de autoritarismo e de intervenções federais nas reitorias e diretorias-gerais dos IF’s e Universidades, a educação pública se vê fortemente ameaçada. O fascismo e o obscurantismo, contudo, tem sido combatido todos os dias pelos setores combativos de nosso histórico colégio e não podemos, nem iremos, aceitar qualquer tipo de retrocesso na construção de uma gestão escolar democrática e popular. O objetivo dos estudantes deve ser tornar a gestão cada dia mais participativa, indo na contramão do que faz o reitor e do que ocorre Brasil afora.

Criado em 1837, o Colégio Pedro II é a escola pública mais antiga do país. Foto: reprodução.

Ataques da grande mídia a mais antiga escola pública do Brasil

Os grandes meios de comunicação ignoram toda essa realidade do Colégio Pedro II. Se utilizam de grupos isolados não representativos para fazer valer o discurso hegemônico. O desejo pelo “retorno à normalidade” é a expressão dos interesses de classe desses grupos, que precisam (mesmo que neguem isso) do povo e dos trabalhadores para movimentar a economia nacional. A interrupção da produção significa a queda dos lucros dos grandes empresários e inclusive, por conta da interdependência entre os setores econômicos, dos lucros do conglomerado midiático.

Voltar às aulas, mesmo que remotamente, serve para criar ares de normalidade, além de continuar a cadeia exploratória que avança cada vez mais entre as gerações. Tudo isso à custa da saúde física e mental dos estudantes e trabalhadores da educação, em meio a um cenário de crise sanitária e de saúde pública, no qual muitos estão doentes ou possuem familiares em risco. Nossa prioridade nesse momento deve ser preservar a vida da comunidade escolar e é isso que o Colégio Pedro II tem defendido.

Os interesses econômicos citados ficam ainda mais claros quando esses grupos midiáticos ignoram as verdadeiras reivindicações da maioria da comunidade escolar. Quando deixam de denunciar os repasses bilionários do governo aos bancos, em benefício de grupos privados em vez de investir na educação pública e na garantia de inclusão digital para esse período pandêmico. Como pensar em estratégias didático-pedagógicas com um orçamento educacional asfixiado pelo Teto de Gastos, por exemplo?
É preciso nesse momento construir alternativas coletivamente, pois a exclusão já é garantida pelo próprio sistema e pelas medidas econômicas negligentes que são apoiadas pela grande mídia. Nós precisamos de auxílios estudantis maiores e mais amplos, que possibilitem maior equidade no ensino e no planejamento pedagógico. Precisamos de participação estudantil nos fóruns de decisão e nos grupos de trabalho para pensarmos um planejamento escolar democrático.

Porque nenhum veículo da imprensa burguesa ouviu as representações estudantis? Porque não há nenhuma representação de grêmios estudantis no Grupo de Trabalho Central do Colégio Pedro II? Ou porque Oscar Halac gerencia o colégio por meio de portarias unilaterais? São essas as perguntas que não são feitas pelas colunas dos grandes veículos de informações e que nós, enquanto movimento estudantil continuaremos a fazer. Afinal, todas as grandes conquistas estudantis vieram desse histórico movimento que sempre prezou pelo bem comum, com luta e combatividade, e que neste momento não vai permitir que estudante algum fique para trás.

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