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Terceirização e pandemia na USP

TERCEIRIZADAS – Trabalhadoras têm sido vítimas da super-exploração do trabalho durante a pandemia e, também, de demissões em massa. (Foto: Reprodução)

“A união da categoria será fundamental para que as terceirizadas tenham seus direitos garantidos com maior estabilidade e avanços daqui pra frente.”
Fly Hirano

SÃO PAULO (SP) – Há muitas facetas reluzindo o complexo que compõe a pandemia da Covid-19. De um lado há a quarentena, o lockdown e o isolamento social, do outro o abandono do governo, auxílio emergencial em análise e redução deste para R$300, falta de acesso a água, saneamento básico e sistema único de saúde supersaturado e sem equipamentos.

Essa dicotomia responde a uma evolução histórica de descaso e prevalência do poder dos e para os ricos em que os problemas sociais são agravados enquanto o capital financeiro, os bancos e indústrias recebem incentivos que batem R$1,2 trilhão em plena crise sanitária.

O povo brasileiro, assim, está sendo sabotado. Na mídia burguesa o ataque é individualizado, como se o dever do isolamento social dependesse apenas da vontade de cada um. Mas a verdade é que as empresas tornaram ainda mais insalubres os serviços que já eram precarizados mantendo o trabalho de centenas de pessoas sem as medidas necessárias à saúde e segurança – como no caso de muitas empresas de telemarketing – ou demitindo em massa como foi o caso das funcionárias terceirizadas da FAU-USP.

Sem sindicato, essas trabalhadoras ficam à mercê dos mandos e desmandos da empresa. O que é formalizado – geralmente só de palavra – não é cumprido, e as notícias sempre chegam de repente, sem qualquer possibilidade de organização e reestruturação dessas pessoas com relação à gerência de suas vidas e famílias. O contrato com a empresa de limpeza Gramaplan que ia até novembro foi interrompido pelas demissões já em agosto.

No início da pandemia, o reitor Vahan Agopyan foi categórico: “A USP não vai parar”. No entanto, suas palavras correspondiam mais aos interesses do mercado de manutenção de entrega dos diplomas e de pesquisas aliadas a interesses de empresas do que a qualquer tipo de respaldo social como, por exemplo, o incentivo às áreas da saúde e engenharia na pesquisa ou dos cursos de arte e cultura na produção de conteúdo de qualidade para suportar a quarentena, ou ainda, ao setor de educação e comunicação tão necessários à manutenção da formação da população em isolamento durante a suspensão das aulas e demais atividades.

Nada de incentivos, pelo contrário: cortes e mais cortes. Quase todas as trabalhadoras terceirizadas da limpeza foram demitidas, as que foram mantidas durante a quarentena tiveram seus benefícios removidos como o vale transporte e alimentação, totalizando o salário a partir de março em R$340,00 – completamente insuficiente para passar o mês. Ainda por cima o contrato mantido impede o recebimento do auxílio emergencial de R$600.

A pausa no trabalho provoca tanto o desgaste e a tensão da ausência da renda quanto uma carga emocional pela sensação de impotência e de atrofiamento. Uma funcionária relata: “O aviso chegou dia 16 de março. Do dia pra noite a FAU fechou, foi muito rápido, até a gente entender…”. Ela complementa: “No meio desse negócio do vírus, antes de fechar, eu peguei uma gripe que doía tudo. Se era ou se não era [Covid-19] eu não sei. Eu ia trabalhar porque não podia faltar. Ia trabalhar todo dia, todo dia. Para atender as pessoas de manhã cedo era difícil. Todo mundo ficando doente. Eu poderia questionar né, mas estava no comecinho, ninguém achava que era sério. Foi uma semana de gripe de ir trabalhar empurrada, chorando que tinha que ir para não faltar, que não podia faltar. Tive falta de ar, tontura, entendeu? E as meninas também.” Ainda assim, ela reitera o quanto gosta do trabalho, como era bom antes da pandemia e que esse período sem trabalho é difícil de passar pelo motivo de não ter o que fazer.

A USP concentra muitas contradições: é uma universidade pública, renomada, que vive às custas do dinheiro do povo através dos impostos não progressivos de nosso país, mas que abandona e não valoriza os próprios trabalhadores e trabalhadoras. Tampouco o faz com seus filhos e filhas cuja permanência nos cursos segue sofrendo ataques.

Do lado das terceirizadas, militantes da Unidade Popular na USP acreditam que “é fundamental nesse momento que consigamos garantir a recontratação das funcionárias da limpeza quando a licitação indicar a nova empresa a ser contratada e que a retomada das atividades seja feita com a devida proteção e cuidado. A união da categoria será fundamental para que as terceirizadas tenham seus direitos garantidos com maior estabilidade e avanços daqui pra frente.”

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