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Patrões demitem trabalhadores terceirizados na pandemia

ESSENCIAIS – Hoje as trabalhadoras terceirizadas são essenciais para a luta contra a pandemia, mesmo assim têm baixos salários. (Foto: Reprodução)

Biana Politto, Layse Yamauti e Sabrina Ferreira

SÃO PAULO (SP) – Durante a pandemia do novo coronavírus, a demissão em massa de trabalhadoras e trabalhadores terceirizados se tornou cotidiana. Foi o caso da empresa Multiclean, que presta serviço para as escolas municipais de Porto Alegre. A empresa anunciou a demissão de 700 trabalhadoras que atuavam nas áreas de cozinha e limpeza nas 99 creches e escolas da cidade, deixando centenas de famílias desamparadas durante um período de crise sanitária mundial. Outro caso foi o da demissão de trabalhadoras da empresa Guima, em São Paulo. Essa empresa é responsável pela limpeza do metrô da capital, um dos serviços essenciais nesse período de pandemia. Como o transporte coletivo é um dos locais com maior índice de transmissão da Covid-19, sua limpeza e esterilização devem ser redobradas. As propagandas da empresa, inclusive, reforçam essa ideia, mas na prática age ao contrário: demitindo injustamente dezenas de funcionárias e assim aumentando a carga de trabalho sobre o que restou do quadro reduzido.

A Salutar foi outra empresa que simplesmente despediu os trabalhadores em meio à pandemia. Mesmo tendo seu contrato de responsabilidade pela gestão do Restaurante Universitário da Universidade Federal do ABC mantido.

Para exemplificar a situação, Rosa, demitida pela empresa Salutar, e Maria, demitida da empresa Guima, contaram para o jornal A Verdade quais os principais problemas que enfrentaram no trabalho terceirizado. Ambas as entrevistadas têm nomes fictícios em garantia de sua segurança.

Como você avalia a situação dos trabalhadores terceirizados? Eu acredito que seja um pouco difícil pra nós, terceirizados. Essa é a primeira vez que trabalho terceirizada e senti muita dificuldade. A gente não tem o resguardo da empresa. É tudo contra. A gente que tem que correr atrás das coisas. Tanto que eu entrei lá e não tinham uniforme pra mim. Trabalhei todo esse tempo lá na Salutar, eu que comprei sapato, eu que tive que comprar o uniforme, porque eles não deram nada até o último dia de trabalho. Era muito difícil trabalhar com a Salutar. Eu trabalhei em várias empresas, não é fácil, mas, de todas, a Salutar superou no descaso com os funcionários. Ficaram devendo ticket pra gente…

Quais eram as condições de trabalho lá no metrô? A Guima não garantia pra gente nem os produtos necessários para fazer a limpeza do metrô. O desinfetante era o pior que tinha, um que dá alergia em um monte de mulher lá, rinite, alergia na pele… Tudo era muito precário. Às vezes, a gente tinha que trabalhar com a bota furada e os pés molhados o dia inteiro, tinha que tirar o lixo das estações com a mão, mesmo sendo perigoso, porque encontramos coisas que furam, coisas perigosas no lixo. Isso tudo porque eles alegavam que não tinham dinheiro para comprar saco de lixo nem bota e nem luva nova para todo mundo. A gente tinha que ficar lavando as luvas para reutilizar.

Você foi demitida por justa causa, mas a Guima não apresentou para você nenhuma justificativa. Conta como foi isso? Sim, fui demitida por justa causa. Eu já sabia que eles estavam demitindo um monte de gente, aí a responsável um dia me chamou na sala dela para conversar, isso depois de metade do meu expediente, e me demitiu por justa causa. Só que ela não me falou nada do motivo. Não tem motivo! Eu não atraso, não falto, não dou nenhum motivo. Trabalho direitinho, eu sou uma mulher honesta. Várias das minhas colegas de outras estações também foram demitidas por justa causa e a mesma coisa, sem motivo. Eles que não querem pagar os nossos direitos, mas eu vou entrar com processo, porque não é justo uma coisa dessas. Eu tenho vários anos de Guima e ser demitida assim, do nada, ainda mais por justa causa, é muito revoltante.

Conte um pouco sobre como foi o processo de demissão e como você está agora? Quando chegou a pandemia, todos nós achamos que era coisa rápida, né, coisa de semanas. Só que não, aí se agravou. E eles começaram a dispensar os mais novos: eu, a técnica e mais uns cinco funcionários, que éramos os novos contratados. Até agora eu estou desempregada, pago aluguel, tenho criança, só o meu marido fazendo bico ‘pro’ Mercado Livre, tá muito difícil. A gente não tem retorno da Salutar de jeito nenhum, manda e-mail, eles não respondem, manda ‘zap’ e eles não respondem. Não tem, assim, uma parceria com eles, nós sendo funcionários deles, eles tinham que ter um resguardo, mas não tem, a gente tá assim, jogado ao deus-dará. Eu me senti humilhada, de não ter uma resposta deles, falando “ó, a gente vai dar um jeito, vai pagar nem que for R$ 100 por mês ou por semana, mas a gente vai pagar”. Não, simplesmente viraram as costas e tá aí. Não pagaram nada!

A realidade em que vivem trabalhadoras terceirizadas como Maria e Rosa é de sonegação de direitos por parte dos patrões. Desde o descumprimento do depósito do Fundo de Garantia até a falta de pagamento de rescisão; atraso de salários, atraso ou falta do pagamento do 13º, dificuldade para tirar férias (há casos de trabalhadores que ficam até cinco anos sem férias) e, por fim, a demissão injusta e injustificável. O auxílio-creche geralmente as trabalhadoras não recebem. O auxílio-alimentação da empresa Guima é de exatamente R$110,94, ao mesmo tempo que o preço do arroz subiu no último mês em até 300%, chegando a custar inacreditáveis R$ 40 (5 quilos).

“Essas situações relatadas deixam mais escancarado que os patrões e esse governo não se importam com a vida dos trabalhadores! Nos exploram, nos humilham, roubam o nosso dinheiro e deixam o povo, que só tem a própria força de trabalho para pagar as contas e sustentar a família, cada vez mais abandonado! Se você é um trabalhador ou uma trabalhadora terceirizada, se organize e lute por seus direitos!”

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