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A superexploração do trabalho no ramo da publicidade e propaganda

EXPLORAÇÃO – As agências de design e de publicidade são responsáveis pela superexploração do trabalho da categoria e por uma série de doenças advindas do acúmulo de trabalho. (Foto: Reprodução/Ares Soares)

Apesar de ser uma jovem categoria, superexploração do trabalho demonstra a maior proletarização dos trabalhadores das agências de Design Gráfico, Publicidade e Propaganda.
Arthur Ventura

SÃO PAULO (SP) – O ramo da publicidade está intimamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo no mundo. Desde o século 19 com o advento da forma industrial do capitalismo, o ramo da publicidade e propaganda se desenvolve sistematicamente como parte fundamental do ciclo do capital, envolvendo a sociedade na lógica do consumo de bens e serviços. Com o avanço dos meios de comunicação no século 20, a massificação cada vez maior dos jornais, a invenção do rádio, da televisão e da internet, a publicidade tornou-se um ramo indispensável para que as megacorporações e todo o tipo de negócio no sistema capitalista pudessem generalizar de forma radical seus produtos e serviços com uma força cada vez mais abundante.

Porém, como se sabe através das atuais relações de trabalho, toda a transformação da natureza, toda a produção material e intelectual dentro do sistema capitalista perpassa e depende da força de trabalho da classe operária, dos braços da classe trabalhadora, responsável pela produção social da riqueza.

Nesta relação de trabalho, o valor produzido através do trabalho de milhões de assalariados é roubado por uma minoria que não trabalha e detém o controle dos meios de produção, isto é, das empresas e das terras.

Essa realidade se manifesta também nas relações de trabalho das agências de publicidade e propaganda e design, onde agrega em sua maioria jovens trabalhadores estudantes, recém formados na área.

A situação de trabalho dos jovens trabalhadores e das jovens trabalhadoras na área de publicidade e propaganda em nosso país vem passando por um nível de precarização evidente, a ponto de corroer a saúde dos mesmos.

Ingressando e concluindo a faculdade no sonho de entrar no mercado de trabalho e garantir um bom emprego e estabilidade, o que a juventude encontra, de fato, é uma realidade extremamente contrária do que esperavam no cotidiano de trabalho nas agências de publicidade e design pelo Brasil.

O reflexo da Reforma Trabalhista, aprovada em 2017 por Michel Temer, regulamentou a terceirização das “atividades-fim”, transformando os milhares de trabalhadores(as) publicitários(as) das mais de dez mil agências instaladas no Brasil em “pessoa jurídica”, flexibilizando os direitos garantidos pela histórica Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como férias remuneradas, décimo-terceiro, participação nos lucros, FGTS, assim como o direito a horas extras remuneradas e uma jornada de trabalho fixa de oito horas diárias de trabalho com direito a uma hora de almoço.

Nada disso é garantido para os jovens publicitários e designers ingressantes no mercado de trabalho de hoje. Pelo contrário, o que se vê são tanto os donos das grandes agências de publicidade como das agências em ascensão no mercado se favorecendo da destruição dos direitos trabalhistas para superexplorar a força de trabalho alheia.

Cargas horárias que extrapolam as oito, nove, dez horas por dia de trabalho, assédio moral, psicológico e sexual, manipulação, mentiras, acumulação desumana de trabalho, humilhações, falsa sensação de liberdade e glamourização da superexploração. Essas são algumas características da precária situação de trabalho em que se submetem os jovens trabalhadores publicitários e designers.

Como relata com bastante qualidade uma jovem trabalhadora de vinte anos moradora da cidade de Hortolândia, interior de São Paulo, estudante de último ano do curso de Publicidade e Propaganda e que prefere não se identificar por medo de represálias por parte dos patrões da agência em que trabalha. Reproduzimos seu relato exclusivo ao A Verdade.

Na primeira agência que trabalhei, os chefes sempre vendiam uma ideia para os novos contratados de que tínhamos um grande potencial de crescimento dentro da empresa, dizendo que tínhamos que estar sempre nos especializando, nos esforçando cada vez mais e aí você fica encantada. Eles fazem assim, uma verdadeira lavagem cerebral! Eu trabalhei na primeira vez como estagiária e logo eu fiquei responsável pelo time todo sendo que só tinha no máximo uns seis meses de carreira. E a gente trabalhava nos finais de semana sem receber um real a mais por isso, mas era “por um propósito maior” como nossos chefes diziam. Em vários finais de semana a gente chegava entrar no serviço às nove da manhã e sair as duas da madrugada para atender as demandas que os patrões passavam para a gente.

Uma vez um menino ficou responsável por fazer um folheto, mas não deu conta e eu fiquei responsável por produzi-lo, sendo finalizado às quatro da manhã em casa.

O folheto foi revisado pelos meus chefes e pelos clientes, também e foi para a produção. Quando o folheto chegou, veio com uma letra faltando… eu lembro que avisei meu chefe – que estava em reunião em outra sala –, eu fui para o meu lugar.

Meu chefe saiu da sala de reunião, foi até mim com a caixa de folheto, jogou na minha frente e falou assim: você não fez a cagada? agora você resolve, sendo que tinha passado pela revisão de todo mundo. A minha vontade era de sair andando, de me demitir e muitas coisas.

Sempre tinha um papo deles do tipo: ah, a gente paga pizza para vocês, a gente é divertido, da privilégios para vocês com as coisas que ganhávamos dos nossos clientes como pão de queijo da fábrica, fazia unha de graça na manicure que era nossa cliente, massagem de graça, então sempre tinha esses “privilégios”. Aí chegávamos na agência tinha um ambiente descontraído, tinha refrigerante, todinho, salgadinho etc., toda aquela patifaria.

O argumento principal deles era bem assim: ué, mas onde você vai encontrar um outro lugar que te proporcione tudo isso? A verdade é que era um desgaste mental que não compensava. E quando eu fui demitida, de um dia para o outro, eu sentei no chão e chorava porque eu me sentia culpada, como se eu tivesse errado em alguma coisa.

Na empresa onde estou hoje (atualmente como Pessoa Jurídica), eu fiquei por muito tempo sendo a única analista. E o analista é responsável por cuidar de toda a campanha que vai pro ar na parte de “digital”. Então, tudo o que você vê em redes sociais, Google, rede de pesquisa etc., é toda minha. Além disso, eu falo com cliente, porque eu preciso anunciar quando as coisas vão sair e tudo mais, então é uma pressão de todos os lados. Até que eles perceberam o que estava acontecendo comigo e contrataram mais dois analistas e dividiram a gente em time. Só que existe um grande problema em agência pequena que é: você infla de clientes para conseguir ter um faturamento maior e esse “inflar de clientes” leva com que seus funcionários tenham uma sobrecarga, e isso acontece em qualquer agência pequena, em agências que estão decolando principalmente. Isso aconteceu na agência que estou hoje.

Eu faço um TCC e me desgasto com a faculdade. E olha, eu consigo contar nos dedos quantas vezes eu trabalhei seis horas por dia, porque existe uma glamourização do esforço individual por parte dos patrões que incentivam que nós façamos cargas horarias cada vez maiores.

Nossos chefes geralmente não são carrancudos. São aqueles chefes que saem com os funcionários para a balada, para os bares, que te oferecem droga nestes espaços, são “descolados”, deixam a gente trabalhar de shorts, de chinelo, consumir álcool, fazer “a nossa hora”, que contratam a comunidade LGBT. Existe uma inclusão das minorias lá dentro. Quem trabalha nesses espaços geralmente é uma galera jovem com energia, disposição que sonha em “chegar no topo”, só que ninguém sabe que esse “topo” não existe.

Na agência em que eu estou, você não pode tirar trinta dias de férias. Não pode, meu chefe não gosta. Porque se eu tiro mais de uma semana de férias, quem que vai assumir meus quase trinta clientes? Eu ainda tenho que fazer parte de grupos de WhatsApp de cada empresa que eu sou responsável, sendo que cada grupo deste tem pelo menos duas pessoas. Eu tenho em média quase sessenta pessoas para conversar, além do meu time.”

A trabalhadora relata que acabava sendo obrigada a conversar com essas pessoas sobre trabalho mesmo fora do seu expediente e pelo WhatsApp pessoal, pois seus patrões não se preocupavam em separar o WhatsApp Business do pessoal para os funcionários, mesmo essa separação ser uma exigência da funcionária.

Ela relata como o ambiente na empresa aparenta ser uma coisa, mas que na realidade é outra. A publicitária também demonstra casos de perseguição a jovem por reclamar seus direitos nas reuniões semanais dos funcionários com os patrões.

“A relação entre a galera da empresa é muito camuflada. Existe sempre os favoritinhos que são tratados como pupilas lá dentro. Por muito tempo eu fui assim também. Só que aí nas reuniões que tínhamos com nossos chefes, eu comecei a questioná-los de coisas que ninguém questionava. Eu comecei a conversar com a galera do nosso grupo da necessidade de tirarmos férias e outras coisas. Quando comecei a questionar os patrões sobre isso nas reuniões, eu recebi uma ligação de um deles às 20:30 da noite dizendo que eu estava formando um ‘grupinho do mal’ dentro da empresa e que não queria isso. Você entendeu a gravidade do negócio? E aí eu não tinha muito o que fazer: ou eu parava de falar com a galera sobre isso ou eu perdia meu emprego.”

Dentre várias denúncias, ela coloca que trabalhou mais de um ano sem contrato de estágio por “falta de vontade” de seu chefe de ir atrás de regulamentar o trabalho dela, que foi somente acertado por pressão da mesma.

Ela conta ainda que a relação dos clientes com a agência é muito complicada, pois se baseia estritamente no lucro, fazendo com que não enxerguem seres humanos por trás dos computadores que estão sendo responsáveis por produzirem seu marketing. As empresas às veem como “robôs programados para produzir e gerar valor”, sendo a categoria constantemente constrangida, tanto pelos patrões das agências, como pelos clientes por não conseguirem atingir as metas.

“É impossível produzir um site em duas semanas, a menos que você vire todas as madrugadas! É impossível você fazer campanha sendo que eu tinha quase 30 clientes para cuidar! Impossível!” Desabafa, contando de um contrato fechado pela agência exigindo tal demanda.

Quando perguntada se esse tipo de relação de trabalho acontece também nas grandes agências, ela responde:

“Claro que acontece em grandes empresas. Ó, uma grande agencia de Sumaré que atende a Sorridents [Clínica odontológica de grande porte em Campinas] tinha um problema de manter seus funcionários atendentes na empresa por conta da arrogância e grosseria do pessoal da Sorridents, sendo que a agência não barrava e aí o funcionário não aguentava e se demitia.

ARROGÂNCIA – Empresa Sorridents é corresponsável por ampliar a exploração de designers e publicitários. (Foto: Reprodução)

A social media da agencia, pessoa responsável por cuidar das redes sociais dos clientes, tinha dia que ela saía onze horas da noite, uma da manhã. E assim, contratos extremamente longos, pesados e uma pessoa pra dar conta de tudo. Uma única! As grandes agências de Campinas pagam uma merreca.

Tenho um amigo que trabalha em uma destas grandes agencias, produtor de vídeo, trabalha de madrugada, 20 anos, há dois meses atrás ele ficou internado cinco dias porque teve um começo de AVC por conta de estresse. Ele ficava muito estressado, fumava, bebia para relaxar, estava no meio do trabalho gravando, às quatro da manhã, começou sentir formigamento e foi pro hospital. O médico disse que se ele demorasse mais algumas horas para chegar lá, o quadro do menino teria tido complicações graves. Essas agencias são extremamente grandes, algumas muito premiadas por anos consecutivos em Campinas.”

Por falar em doenças físicas e psicológicas, a jovem conta que desenvolveu no trabalho Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

A jovem trabalhadora ainda sofre tendo 40% dos movimentos do pé paralisados, potencializado pelas extensas horas de trabalho em que é submetida estando sentada na frente do computador. O psicólogo da funcionária afirma que “esse acidente aconteceu pois estava muito sobrecarregada, então acredita-se que o corpo dela simplesmente arrumou uma forma com que ela desse uma pausa à força.”

Além disso, a jovem pode estar com sintomas de paralisia facial, devido ao grande estresse advindo do indevido acumulo de tarefas do trabalho e a falta de descanso.

Tudo isso, segundo ela, para ganhar em torno de R$ 2.000,00 por mês. Ela ainda demonstra que suas companheiras de trabalho têm constantes crises de choro. Uma colega que trabalha na mesma empresa relata que reserva alguns minutos do dia no serviço para poder chorar, já que seus chefes não confiam nela para explorá-la cada vez mais com o acumulo de tarefas.

FALTA DE DIREITOS – “Isso mostra que precisamos de um sindicato que de fato represente os interesses da nossa categoria como um todo, que unifique os trabalhadores das agências que hoje se encontram isolados uns dos outros.” (Foto: Pedro Lima/Jornal A Verdade)

Para Thales Caramante, designer e militante da Unidade Popular Pelo Socialismo, “essa superexploração é uma consequência direta do que é o sistema capitalista… a juventude trabalhadora, os publicitários, os designers são uma jovem categoria que têm sua força de trabalho explorada até a espinha,  tem também o valor do seu trabalho roubado assim como milhões de operários desde o século 19 com o início das primeiras fábricas.”

“Esses trabalhadores têm trinta, sessenta, noventa clientes e não veem nem mesmo um terço de todo o valor produzido por eles, veem o contrário: assédios, crises de ansiedade, depressão, deterioração do próprio corpo completamente desgastado pelas longas jornadas de trabalho. Não se pode aceitar nada mais disso, a categoria precisa urgentemente ter seus direitos mínimos garantidos, piso salarial, férias, aposentadoria, participação dos lucros, precisa urgentemente de uma cipa… tudo isso não existe para designer gráfico nem para publicitário hoje… os sindicatos como Sindigraf não abrange as agências de design gráfico, o Sindicato dos Publicitários é praticamente uma empresa, é um sindicato patronal financiada por universidades privadas. Isso mostra que precisamos de um sindicato que de fato represente os interesses da nossa categoria como um todo, que unifique os trabalhadores das agências que hoje se encontram isolados uns dos outros” – manifesta.

Estes relatos infelizmente fazem parte da realidade de milhões e milhões de jovens pelo Brasil nos dias de hoje.

Graças as políticas neoliberais defendidas pelo governo Bolsonaro, a parte de jovens que não faz parte hoje dos 27,1% de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou estão sendo disputados pelo tráfico e pelo crime organizado, ou estão subordinados a condições de trabalho sub-humanas, injustas, sem garantia e sem perspectiva de melhora, sem respaldo da justiça na defesa de seus direitos mais básicos que vem ano após ano sendo retirados.

“Cabe aos comunistas revolucionários, militantes da União da Juventude Rebelião (UJR), do Movimento Luta de Classes (MLC) e da própria categoria apresentar uma alternativa aos que choram todos os dias por conta dos assédios e pressões causados pelo sistema capitalista. Essa realidade tem que mudar urgentemente, e mudará somente com organização e unificação em luta da categoria contra a exploração e por mais direitos.”

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