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Nossa luta ecoa: crônica sobre a construção da ocupação Padre Leo Comissari

FOTO: Wilian Vieira

João Gabriel Cruz e Sabrina Ferreira

 A noite tava fria em São Bernardo. O salão cheio de pessoas com suas histórias faz o silêncio ter que lutar no ambiente. O transporte logo chega, a porta abre e os passos se ajeitam. Cada um pro seu lugar, quem se aprontou logo, chega na porta primeiro. Sem pressa que já esperamos muito por isso. Quem vai depois joga mochila nas costas e mantém o silêncio, não é hora de contar história, tem uma outra acontecendo agora, uma história que não começa aqui. O transporte vai levar mulheres e homens a um ponto que faz parte da caminhada das famílias que lutam por moradia digna, é como se fosse a terra prometida.

Estamos levando todo o nosso tesouro, que cada um herdou dos pais, que herdaram dos avós. Tirando roupa e documento, o que temos não se vende nem se perde, não se guarda em bolsa, a gente carrega no peito, e só consegue dar valor quem chega junto e faz acontecer, quem trabalha tem muita bagagem. Cada perna, braço e mãos estão prontas, o coração talvez bem antes e a cabeça se preparando para se aprontar. O destino chega, a porta abre e é hora de colocar a mão na terra, na cavadeira, no pontalete ou seja o que tiver para fazer, será feito. Todos sabem bem o que fazer, cada um na sua função, cada coisa no seu lugar e cada pessoa aqui, mais do que nunca está no seu verdadeiro lugar: NA LUTA!

Os pontaletes sobem, os fitilhos são amarrados, lonas estendidas, cada barraco vai sendo aprontando e a luta acontecendo. Contornando o caminho de pedra que guiava os passos na madrugada escura, vai se levantando um novo bairro, uma nova vila, uma nova favela e também se formando novas mulheres e novos homens, a igualdade e o trabalho constrói a gente. Esse trabalho não é pra ninguém além desses homens e mulheres, não tem patrão -esses acordam mais tarde-,aqui as pessoas são iguais, todos de mão calosa, rosto suado, quase nada de dinheiro, mas temos uma esperança que não cabe no bolso. Todos nós estamos construindo uma obra grande que só pode ser feita com muitas mãos, sejam as casas ou nossa própria construção. Com os companheiros aprendemos que toda tarefa é importante, é no coletivo que aprendemos a pensar no próximo, a não agir sozinho; não vamos conseguir uns sem os outros, enquanto um companheiro não tiver casa todos nós ainda somos sem teto. E é assim que a gente vai se fazendo novo homem e nova mulher.

FOTO: Wilian Vieira

 O silêncio ainda luta, mas as bocas mal se falam, o que se escuta é música. O que marca o ritmo forte é o time de cavadeira rasgando o chão. Ferindo fundo a terra para deixar a casa da gente firme. A música é do trabalho, dividido e organizado, que nem numa roda de samba. Cavadeira faz sua parte e chama o pontalete para manter a levada, fitilho já bateu no peito e disse que a próxima é com ele. Tudo redondinho como se fosse ensaiado. Foi durante a vida inteira, nas fábricas, nas cozinhas, nas obras dos outros que aconteceram os ensaios, dessa vez é pra valer.

Firme vai ficando também todos nós, cada passo nesse escuro é passo certeiro. No caminho da luta, passo firme pode errar, mas não derruba, e ninguém à de derrubar, nenhum de nós, nenhum dos que virão, assim como nem se quer dobraram os que já se foram na mesma caminhada. Até tem gente disposta a ser pedra no nosso caminho, gente que acorda assustada de madrugada com nós que não nos assustamos fácil. Aqui tem tanta mão furando terra, tanto barraco subindo, e na mente muita indignação sustentando  tudo isso. Mas daquele 13º andar aquele olho não sabia como que acontece uma coisa dessa, achou melhor avisar quem deve entender do assunto, a polícia. Aliás, tem gente que bate em prego, torce parafuso, corta verdura no trabalho, atirar que é mais raro; mas todo pobre sabe que tem outro tipo de gente que faz isso tudo com trabalhador, e atirar pra eles não é raro, a polícia trata pobre que nem peça de máquina mesmo. 

Os olhos lá do chão vêem o reforço amigo do 13° andar chegar. Nem se tivesse uma porta ele bateria, afinal de contas o que mais tinha por lá era pobre, e eu já comentei o que a polícia faz com gente pobre. O silêncio ganha mais um adversário, o novo som não se encaixa na roda, era como se alguém alterado de alguma coisa chegasse querendo tocar o tantan, até atrapalhou a roda, mas cada um sabia o que fazer com seu instrumento.  Daí chega uma hora que a música já não rola mais, os instrumentos param, todos juntos vão tirar o intruso. A casa é nossa e só entra quem a gente deixar e o fardado com nariz de gesso não era bem-vindo ali.

FOTO: Wilian Vieira

O fardado fez barulho, bagunçou o barraco, mas ele não pode nada com esse povo e suas histórias, todos juntos e organizados. Essa obra é nossa, o chão pode ainda não ser, mas a obra é da gente, a obra é do nosso povo. Quem tudo constrói é experiente, malandro véio, sabe onde pôr o pé e mais ainda a hora de tirar. Desmontamos os barracos, que nós somos pobres mas não somos bobo, antes a gente tirando fita por fita, madeira por madeira, do que nosso dinheiro que trocamos por ferramentas e materiais indo parar no bolso de quem atende os interesses dessa gente que olha de cima pra baixo, que nem o patrão faz, como se tivesse no 13º andar.

Isso tudo só se resolve no coletivo, com as mesmas mãos do trabalho votando o que deve ser feito. Pronto, assembleia marcada pro dia seguinte depois do trabalho. O futuro estará nessas mãos, mas com a gente no agora já vai se construindo o futuro, tudo na nossa mão e com nossa mão no trabalho. Pensando no coletivo ficamos mais afiados e longe do erro. De assembléia em assembléia a gente bota lenha no fogo de dentro da gente que faz acordar cedo e lutar por um novo mundo. É um passo adiante, dois passos para trás, agora o próximo para frente vai ser com mais pernas, mais trabalho, mais casa para conquistar, assim é nossa caminhada, nossa luta. Do chão que um dia a gente vai tomar dos ricos e poderosos, sobem nossos barracos, plantamos nossas sementes e nos levantamos do chão também, dia após dia, mais e mais famílias, jovens, mulheres, pedreiros, cozinheiras, terceirizadas, lutadores. Levantados do chão apoiados nas mãos e nas ideias de quem luta, de quem se liberta, de quem constrói nossos movimentos sociais como se tivesse construindo a nossa casa.

Com luta, com garra, a casa sai na marra!

MLB essa luta é para valer!

FOTO: Wilian Vieira

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