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Contando moedas: sobre o fim da gratuidade do transporte público para idosos

Foto: Emília Silberstein – JAV

Por Victória Magalhães

Sábado, segundo dia de janeiro, por volta das oito da noite. Estamos em São Bernardo, na Estrada dos Alvarenga, esperando o mesmo ônibus, o 147. Esse é um ônibus intermunicipal, usamos um bilhete que atende toda a região metropolitana de São Paulo, estamos há mais de uma hora esperando o ônibus.

Claudia puxa assunto comigo, deseja um bom ano. Reclamamos um pouco sobre a demora do transporte. Ela começa a contar moedas. A Claudia tem mais de 61 anos, é moradora de Diadema, no bairro Serraria, e para chegar em casa depende de duas conduções: essa que esperamos juntas e ao chegar no terminal Piraporinha pega mais uma. O total da tarifa, considerando ida e volta, é de R$22,16. Um roubo, como dizem por aí. “Como pode, menina. Mais de uma hora esperando um ônibus que vale os olhos da cara! E você viu? Aquele prefeito lá de São Paulo aumentou o salário dele. Pra isso tem dinheiro, né?!”. Ela volta a caçar moedas na bolsa.

É dura a vida das mulheres trabalhadoras, muita dura. Mais duro ainda é que nem mesmo na velhice elas tem o direito de descansar e viver uma vida digna. É isso que a Claudia conclui no desenrolar da conversa, enquanto narra brevemente sua situação.  “Eu tô lascada, menina. Agora até o bilhete do ônibus eles tiraram da gente! Primeiro foi o emprego. Eu tô desempregada há 5 anos, porque depois que a gente completa uma idade acham que a gente está velha para trabalhar, sabe? Mas as contas continuam vindo, e ninguém abre uma porta pra gente. E ai, como é que faz? Depois foi a aposentadoria… eu nunca vou ver nem a cor desse dinheiro! Como é que eu vou completar 30 anos de registro se sempre trabalhei como doméstica? Nunca tive carteira assinada não! E agora, para terminar de matar a gente, esses sem vergonha não querem nem mais que a gente saia de casa! Com o preço dos alimentos no mercado do jeito que tá, minhas economia todas ficam lá, é humilhante. Sem o cartão do ônibus eu não vou conseguir nem ir ao médico mais, menina. Não tenho esse dinheiro não! Não sei onde vamos parar”. Ela volta a contar moedas e comemora ter achado a última que faltava para completar a passagem e ir para casa.

Penso em todas as Claudias que estão, como a gente, submetidas a esse sistema da morte. Claudias desempregadas, que tem todo mês o dinheiro contadinho: um montante para pagar o aluguel, outro tanto para água, luz e gás, o que sobra fica pro mercado, onde quase já não dá pra comprar nada. Quantas são as Claudias, que mesmo já idosas, se humilham pelo direito ao emprego, a aposentadoria, a casa, a um saco de arroz e que agora, com a revogação da gratuidade do transporte público para pessoas acima de 60 anos, proposta por Covas e Dória, nem mesmo o direito ao passe livre que lhes garantia poder fazer seus exames regulares e consultas de rotinas pelos SUS, buscar os remédios controlados no postinho, visitar os filhos vez ou outra terão mais? São mais de 180  mil Claudias, Marias, Joanas, Carlas, Josés, Antonios perdendo, de novo, um direito básico.

Pior ainda, a prefeitura de Orlando Morando, em São Bernardo, está por sua vez com a proposta de imitar seus amigos de partido (PSDB) e aprovar o mesmo corte de gratuidade do transporte público aqui no município. Quer dizer, aos idosos não resta nenhuma opção. A conta não fecha. 

Já são quase duas horas de espera do ônibus. Conversamos mais um pouco. Denuncio qual a responsabilidade dos Governos Federal, Estadual e Municipal seus caráter, anti-povo. Ela concorda, diz que sempre foi assim, diz que, na verdade, até hoje o povo desse país só sofreu, algumas fases mais, em outras menos, mas sempre sofreu. Juntas, chegamos à conclusão de que o problema é um: “todos os políticos que estiveram ai até hoje colocaram o dinheiro acima da nossa vida, né?”. Ela faz uma pausa. “Precisamos fazer alguma coisa, menina. Eles só vão parar quando nós todos tivermos morrido… precisamos fazer alguma coisa”. Dessa vez sou eu quem concorda. O ônibus aponta na esquina, nós começamos a nos despedir porque ela diz que está cansada, quer dar uma cochilada.

Ao entrar no ônibus penso no nosso papel. No papel de partidos como a Unidade Popular pelo Socialismo, de movimentos populares como o MLB, o Movimento de Mulheres Olga Benário e tantos outros movimentos que diariamente estão lado a lado de mulheres como Cláudia, que só precisam saber que existe uma alternativa. O papel dos que constroem a real possibilidade de uma sociedade de novo tipo, onde cada trabalhador, mulher, jovem, idoso, possa ter direito de viver. Viver mesmo. Sem se humilhar, sem ser explorado, sem passar fome, sem sofrer pela falta de um teto ou sem ter que contar moedas para pegar um transporte que tem o nome de “público”. Penso que temos que ter cada dia mais disposição para denunciar aqueles que lucram às custas dos nossos, que jogam os nossos a morte. Lutemos com o nosso povo.

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