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Equador: um neoliberalismo derrotado diante de um bloco popular que cresce

UNIDADE POPULAR. Maioria da esquerda e dos movimentos sociais estão ao lado de Yaku Pérez (Foto: Opción)

As propostas do plano de governo de Yaku Pérez representam a possibilidade de algo novo para o Equador, impregnado de gente e de sua história. Com Yaku estão as organizações que nunca pararam de lutar contra o neoliberalismo e a favor dos direitos, que têm sido perseguidas e atacadas pela direita e pelo correísmo. Por isso, o candidato indígena e dos setores populares assusta quem, de uma forma ou de outra, sempre governou o país ao longo dos tempos e agora teme o crescimento de uma alternativa verdadeiramente de esquerda e anti-imperialista.

Por Por Edgar Isch L.
Periódico Opción – Equador

INTERNACIONAL – As eleições no Equador revelam alguns aspectos de interesse para a América Latina. O primeiro a ser mencionado é que as forças claramente neoliberais, lideradas pelo banqueiro Lasso e pelo Partido Social Cristão, foram claramente derrotadas. Até o momento, a sua candidatura presidencial e outras afins não somam 22% e perderam em seu reduto eleitoral principal, que é a província de Guayas e outras do Litoral, onde o correísmo o substituiu. Em Pichincha, onde fica a capital do país, e única região em que aparecem em primeiro lugar, o voto de Lasso cai 6% em relação ao voto que obteve em 2017.

Isso é resultado de quatro anos de governo frontalmente neoliberal, incapaz e que deu continuidade ao mundo de corrupção do governo anterior. Que este governo, o de Lênin Moreno, tenha nascido do correísmo e esteja rodeado de altos representantes deste grupo político, mostra que antes de uma posição ideológica havia um oportunismo rodeado, em vários casos, por expressões de “esquerda”.

Mas há uma história que se recupera na derrota dos neoliberais. O Equador foi um dos pilares da resistência a essas políticas, na medida em que mais de 70% da população se opôs ao Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos, a construção do Estado plurinacional foi proposta, a privatização da seguridade social foi interrompida (até com um plebiscito), evitou-se a privatização da saúde e da educação e exigiu-se uma auditoria da dívida externa.

Então, Lucio Gutiérrez apareceu para ganhar as eleições presidenciais defendendo estas propostas sociais, traídas em menos de seis meses. Logo depois, o “forasteiro” Rafael Correa, que com aquele apoio social e programa iniciaria seu primeiro governo, seguiu o mesmo caminho logo após a aprovação da nova Constituição.

Os povos indígenas, povos e trabalhadores do Equador realizaram a revolta de outubro de 2019 contra as imposições do Fundo Monetário Internacional. Coletivamente, eles construíram uma proposta política unitária e atualizada chamada Minga por la Vida e deram lugar a novos processos unitários.

Uma segunda lição emerge daí. Os povos não estão condenados aos ciclos neoliberais e aos ciclos ditos “progressistas”. A candidatura de Yaku Pérez se apresenta como a continuação de outubro, com as complexidades que isso significa em um movimento tão amplo, que já se expressava no slogan: “Nem FMI, nem Correa. Só o povo salva o povo”.

Não se pode esquecer que a consulta popular na região de Cuenca, por mais de 80% dos votos, se manifestou pela proteção das zonas de recarga de água e contra a continuidade das explorações mineiras que põem em risco o meio ambiente. As transnacionais perdem essa disputa para uma plataforma social, urbana e rural que coincide com as propostas de Pérez.

Onde quer que você queira ver, aqui há um avanço na consciência social dos setores indígenas, trabalhadores, empobrecidos, mulheres e ambientais que estão construindo seu próprio caminho e que, entre outras coisas, rejeitam o messianismo do suposto líder insubstituível. Yaku Pérez se apresenta nessas condições como um lutador experiente depois de muitos anos de ação comunitária e política, vindo de uma família que conhece a pobreza e com a capacidade de representar aquele bloco popular e de esquerda cuja presença está crescendo.

Correísmo diminui

Certamente o correísmo, com Correa como candidato-sombra e Andrés Arauz como expoente, alcançou o primeiro lugar nas eleições presidenciais. Mas seu voto está em declínio. Com 98,71% dos votos contabilizados, o correísmo chega a 32,07% dos votos, bem abaixo dos mais de 39% que conquistou com Lênin Moreno. O quadro é pior se considerarmos a meta de 40% para vencer já no primeiro turno. Em Pichincha, o correísmo atingiu 22,56%, quase 15 pontos abaixo de 2017. o mesmo ocorre na maioria das províncias, com exceção de algumas no Litoral.

O correísmo só se tornaria a primeira força em 8 das 24 províncias (estados) existentes, todas da Costa e uma da Serra. Sua expressão como força nacional está cada vez mais reduzida a um partido regional. Isso não impediria, por hoje, que tenham o maior bloco legislativo, mas sem ultrapassar a metade mais um na Assembleia, como aconteceu em processos anteriores.

Protestos indígenas no Equador fortaleceram organizações e movimentos populares no país (Foto: Opción)

“Progressismo” etnocêntrico e extrativista

Diferenciar o que se diz e o que se faz é fundamental para valorizar uma pessoa e uma força política. É tão lamentável quanto explicável que alguns “progressistas” agora concentrem todos os seus ataques no candidato dos indígenas, dos trabalhadores e da esquerda (basta ver quais organizações apoiam Yaku Pérez para lhe dar essa qualificação).

De diferentes ângulos, com o racismo oculto, “progressistas” e neoliberais procuram negar que Yaku seja indígena, quando se trata de uma autoidentificação e, neste caso, que corresponda à sua vida familiar e social. Dizem que não é porque tem sobrenome espanhol, como se não soubessem que esses sobrenomes e nomes foram impostos nos batismos coloniais; como se não soubessem que o uso de nomes indígenas era proibido no registro civil; e como se não soubessem que o sobrenome não determina a etnia a que pertence. Os europeus que usam esses argumentos não os mencionariam em seus próprios países, porque seriam motivo de riso.

Eles dizem que não são as verdadeiras lideranças indígenas que apoiam Yaku, negando a realidade das organizações que têm sido um exemplo na América Latina, que realizaram grandes levantes pela justiça social, que apresentaram propostas que hoje se encontram no texto constitucional, embora não ainda na realidade. Com que direito, para defender outra candidatura, afirmam ter o direito de decidir quem é indígena e qual é sua organização? Esta é mais uma demonstração do pensamento colonial daqueles que falam contra ele.

Depois, espalham mentiras tais como “Yaku Pérez apareceu do nada”, que ele não tem história de luta, etc. Assim, escondem suas ações por dezenas de anos, a repressão sofrida na própria carne, a luta permanente pela água e contra as transnacionais mineiras, seus escritos em favor dos direitos coletivos. Mas seus colegas sabem a verdade e isso pesa mais.

Por fim, surge o argumento político: que ele apoiou a candidatura do banqueiro na ocasião anterior e se opôs à candidatura de Lenin Moreno, então ungido por Correa. Mas votar no correísmo, naquela época (em 2017), para as organizações sociais de luta era beijar o chicote da punição. Porque foram mais de 200 lutadores acusados pelo governo Correa de terroristas, todos indígenas e líderes populares e nenhum banqueiro. Correa ameaçou os estudantes organizados de tirar seu direito à educação e vários dos que foram reprimidos relatam processos de tortura. Seu controle da Justiça lhe permitiu prender lideranças em casos abertos de violação de direitos, como o Saraguro, o Shuar, os três do Cotopaxi e os dez do Luluncoto (sem exagero, detidos porque “queriam cometer atos terroristas” e a prova para tal era que estavam reunidos, embora não tivessem armas nem nada que indicasse isso). Na ausência de argumentos, Correa insultou os setores populares na mídia e atacou os direitos das mulheres.

Então, em 2017 não foi um voto a favor do banqueiro, foi um voto para “tirar a bota do pescoço”, um voto de oposição ao correísmo. Foi também um voto contra o neoliberalismo que já era a linha daquele governo. E para isso, basta dizer que os banqueiros alcançaram os maiores ganhos históricos em seus últimos anos, que o FMI voltou ao país e que Correa resumiria assim seu nexo com as políticas neoliberais: “Estamos fazendo melhor com o mesmo modelo de acumulação. Não é nosso desejo prejudicar os ricos, mas é nossa intenção ter uma sociedade mais justa e igualitária” (“O desafio de Rafael Correa”, in El Telégrafo, 15 de janeiro de 2012).

Nessa linha, seu extrativismo e apoio às multinacionais mineiras tornaram-se permanentes. Não é por acaso que os indígenas são os mais afetados pelo colonialismo mineiro, que a Lei de Minas tenha sido expressamente ajustada para apoiar essa atividade e que Correa tenha afirmado que “todo aquele que se opõe ao desenvolvimento do país é um terrorista” (1º de dezembro de 2007).

Segundo turno: a luta por um programa popular próprio

Devemos fazer uma análise sustentada para entender o que está acontecendo no Equador. No voto do correísmo é claro que há um setor importante dos que são contra o neoliberalismo, mas as ações do seu dirigente são diferentes, mais veiculadas pelos mecanismos de publicidade do que pelos fatos que comprovam a verdade.

Se o segundo turno for entre Arauz, que já não tem muito a crescer, e Yaku Pérez, cujo crescimento negado pela mídia e pesquisas é possível, o que ficará em segundo plano é a disputa entre a continuidade do correísmo extrativista e repressivo e a eleição de uma alternativa popular vinda das entranhas dos povos e organizações sociais.

O Minga por la Vida, as propostas do plano de governo Yaku, representam a possibilidade de algo novo, impregnado de gente e de sua história. Por isso, assusta quem, de uma forma ou de outra, governou sem mudar o modelo de acumulação, porque “não querem atingir os ricos”. Yaku Pérez, Pachakutik e as forças aliadas, entre as quais partidos de esquerda como a Unidade Popular e outros, também se tornam a segunda força política parlamentar, a primeira força social que levou a cabo o levante de abril e o setor mais organizado a nível de base. Tudo isso é de grande importância em uma perspectiva futura.

Com Yaku estão as organizações que nunca pararam de lutar contra o neoliberalismo e a favor dos direitos, que têm sido perseguidas e atacadas pela direita e pelo correísmo. Existem as organizações indígenas perseguidas por anti-extrativistas de quem Correa até queria tirar sua sede em Quito; os professores da UNE (União Nacional dos Educadores), cuja organização foi posta na ilegalidade, mas que nunca suspendeu suas ações; camponeses, especialmente aqueles que se opõem aos benefícios do agronegócio e ao uso de mais agroquímicos; organizações de trabalhadores e de trabalhadores, lideradas pela FUT (Frente Única dos Trabalhadores); estudantes universitários e do ensino médio; as maiores organizações ambientais que lembram a perseguição à Pachamama e à Ação Ecológica; varejistas reprimidos, entre outros que, ao que tudo indica, estão se recuperando e aumentando sua força.

É curioso que o banqueiro Lasso e Correa coincidam em criticar as informações do Conselho Nacional Eleitoral, ambos anunciando que o banqueiro irá para o segundo turno e Yaku Pérez ficará de fora. Isso porque, como já dissemos, as possibilidades de crescimento de Pérez serão definitivas e no dia 11 de abril as mais novas opções poderão entrar em vigor no país.

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