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Operação Tarântula: polícia violentou cerca de 300 travestis em São Paulo

PERSEGUIÇÃO – após ser perseguida durante todo o regime militar, a comunidade LGBTI+ continuou sendo violentada pela polícia durante a redemocratização do país (Foto: Reprodução)

Bento Xavier

SÃO PAULO – Durante os anos 80 a Aids era uma epidemia conhecida popularmente por contaminar os homens gays e causou a morte de milhares de pessoas pela falta de tratamento para o vírus, que incapacita o sistema imunológico e torna quem o contrai vulnerável às milhares de doenças existentes. Nessa época a distinção entre ser travesti ou gay era algo pouco compreendido na sociedade, o que só mudou com o avanço das discussões sobre gênero e sexualidade com o passar do tempo.

Apesar da diferenciação entre os dois grupos não ser clara e de ambos serem alvos de violência, eram as travestis quem conviviam nas esquinas e ruas noturnas, recorrendo à prostituição para poder sobreviver e, assim, ficando sempre mais vulneráveis ao vírus HIV, uma IST (Infecção Sexualmente Transmissível) causadora da Aids. Essa maior vulnerabilidade ocorria porque nem sempre durante os programas era possível garantir o uso da camisinha, tanto pela maior dificuldade de acesso ao preservativo e a baixa conscientização sobre sua importância na época, como pelo de fato de o “cliente” muitas vezes não aceitar o uso, uma realidade vivida até hoje.

Diante dessa situação, em 1987, a Polícia Civil de São Paulo organizou a Operação Tarântula, que utilizou a epidemia como justificativa para oficializar a violência contra as travestis. A operação, que só em seu primeiro dia a operação apreendeu 56 pessoas, demonstrou que mesmo com o processo de redemocratização o Estado não perdia seu caráter opressivo.

Em entrevista ao Jornal “Folha de São Paulo” o Delegado-chefe da época contou que as acusações da polícia eram de “ultraje ao pudor e contágio venéreo”, explicitando em seu discurso que para o Estado as travestis não eram reconhecidas como pessoas de direito pois, estando elas em situação de exploração sexual e expostas a doenças, o órgão mobilizado para lidar com a situação foi a polícia, um aparelho de violência.

A operação foi encerrada em pouco menos de duas semanas, graças à mobilização de grupos em defesa dos direitos LGBT que denunciaram à Secretaria Estadual de Segurança Pública as prisões que ocorriam de forma arbitrária. Até o seu fim, a operação violentou cerca de 300 travestis.

Hoje. 34 anos depois, o movimento LGBTI+ percorreu um longo caminho em que conquistou alguns direitos, como o reconhecimento do nome social, as políticas de acesso ao SUS, a construção de casas de acolhimento para essa população e a participações nos órgãos públicos; mesmo assim as travestis e mulheres trans continuam tendo a prostituição como principal mercado de trabalho devido a falta de acesso à educação e falta de contratação em outros empregos por causa de estigmas, o mesmo que também contribui para que o Brasil mantenha o posto de país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo.

A luta coletiva organizada encontra limitações no sistema capitalista, que exige que países periféricos, como o Brasil, mantenham um grande exército de desempregados e de sem-tetos. Os direitos conquistados ao longo dos últimos anos são essenciais, mas muito frágeis, por estarem dentro de uma “democracia” que sustenta a exploração de seu povo para manter um sistema que lucra da miséria; o Estado investe cada vez mais em seus aparelhos de violência e permite e incentiva a propagação de ideologias conservadoras, colocando em risco tudo o que já foi conquistado e impossibilitando o acesso à vida com dignidade, com garantia a moradia, a educação, ao trabalho e a saúde. Por isso, a luta organizada deve ter também o objetivo de acabar com esse sistema capitalista.

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