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sexta-feira, 1 de julho de 2022

Brasileiros enfrentam a fome, o vírus e o desgoverno nos bairros pobres

Isaque e Lucilene com a geladeira vazia há meses. Foto: Jorge Ferreira / Jornal A VERDADE

O Jornal A Verdade foi aos bairros, vilas e favelas durante o mês de março, conversar com os moradores sobre sua situação, para, através dela, dar conta aos leitores sobre a situação do Brasil nesse momento da pandemia. Sem vacina, emprego ou auxílio emergencial, brasileiros enfrentam a fome e o genocídio.

Queops Damasceno, Jorge Ferreira, João Coelho e André Molinari

Atrás apenas dos Estados Unidos da América (EUA), que já contam com quase 600 mil mortos por Covid-19, o Brasil segue em segundo lugar, com mais de 430 mil óbitos e tendo atingido a marca de mais 4 mil pessoas mortas por dia na segunda quinzena de abril. Os recordes colecionados pelo ex-capitão terrorista e agora genocida confirmado, Jair Bolsonaro, e pelo governo de militares que está à frente do Brasil, tem levado morte, dor, aflição e agonia para dentro do lar de cada brasileiro.

Com consequências fatais, é contínuo o esforço do presidente em aglomerar seus asseclas sempre que tem oportunidade, seja para promover manifestações em defesa da ditadura militar, seja para protestar contra governadores que querem comprar vacinas. O fascista aglomerou até mesmo no dia de seu aniversário em frente ao Palácio da Alvorada, no dia 21 de março, quando o sistema de saúde estava em colapso em quase todo o país e, no Piauí, um senhor de 86 anos havia morrido no chão de um hospital, por falta de leitos de UTI e até mesmo de uma maca.

O mal parece ser de família, já que o filho Flávio Bolsonaro teve o descaramento de esbanjar dinheiro roubado do povo brasileiro com corrupção, comprando uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília. O filho assim faz, quando seu pai – o pior governante do mundo em relação à gestão da pandemia de acordo com o Lowy Institute, conceituado centro de estudos com sede em Sydney, Austrália – baixou o valor do auxílio emergencial para R$ 175,00 e retirou dessa conta 22 milhões de pessoas vulneráveis. Tudo isso em um país que, de acordo com IBGE, no final de 2020, acumula a marca de 52 milhões de pessoas vivendo na pobreza e 13 milhões na extrema pobreza.

Para completar, na maior parte do mês de março, quando o Brasil viveu amargamente o pior momento da pandemia, o povo brasileiro ficou sem saber quem, de fato, estava responsável pela condução do Ministério da Saúde. O anunciado Marcelo Queiroga dividia o palanque com a marionete das forças armadas, General Pazuello, e nenhum dos dois dividia o trabalho de enfrentar o coronavírus com os enfermeiros e médicos que combatiam na linha de frente, sem estrutura adequada nos hospitais e sem vacina para amenizar os danos da doença. Não surpreenderá, mantida essa política de genocídio, que o Brasil passe os EUA e termine conquistando o primeiro lugar do mundo no número de mortes decorrentes da Covid-19.

“Você vai compra o que com esse dinheiro?

Joanice em frente ao seu barraco no Montanhão. Foto: Manuelle Coelho / Jornal A VERDADE

Do outro lado da sociedade, do lado de quem trabalha para sobreviver, Joanice Alves de Oliveira, 53 anos, balconista, mora em um barraco na favela do Cafezal – ocupação irregular no alto do morro conhecido como Montanhão – na periferia de São Bernardo do Campo. Joanice conta que vive com o filho de 9 anos, que sua renda era de R$ 1130,00 (somando o salário de balconista mais o bolsa família), e afirma: “nossa renda diminuiu muito, eu não posso trabalhar porque o bar está fechado e preciso do auxílio emergencial. No começo era R$ 600,00 e já estava difícil. Depois passou para R$ 300,00. Agora em janeiro, fevereiro e março recebemos somente os R$130,00 do Bolsa Família e só temos isso para sobreviver.”

Quando questionada se estava conseguindo pagar as contas e se alimentar com esses poucos recursos, Joanice se irrita: “Você vai comprar o que com esse dinheiro? Não dá nem para comer! O óleo tá R$ 10,00, um pacote de arroz tá R$ 30,00, um quilo de carne tá R$ 40,00. Como é que a gente vai comer? Você não consegue mais comer uma fruta, uma verdura. A gente vive de arroz, feijão e ovo. Faz um ano que eu não como carne. Meu filho é pequeno, ele precisa tomar leite, precisa comer fruta, verdura, mas não tem. Eu me esforço, tento comprar ovo, compro salsicha que é mais barato e assim a gente vai levando.”

Moradora de uma comunidade atendida pelas Brigadas de Solidariedade do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, Joanice finaliza: “o que mais ajuda é que sempre tem uma doação. O pessoal vem, traz uma cesta básica, arroz, feijão, óleo, isso é o que salva a gente, porque se dependesse do governo, não ia dar nem para comer. Ainda bem que na favela a gente divide o pouco que tem, é um ajudando o outro, os moradores, os movimentos. Mas infelizmente virou regra, hoje mais ninguém aqui come carne.”

“Não sobra dinheiro nem para os remédios”

A alguns quilômetros dali, na mesma cidade, dentro de um barraco de madeirite numa ocupação chamada Favela do União, Ana Lúcia Felix, 75 anos, trabalhadora doméstica, que atualmente conta com R$1100,00 de Benefício de Prestação Continuada (BPC), diz que falta dinheiro para comprar remédios: “Eu gostaria de estar trabalhando, mas eu não aguento mais, minhas pernas não têm mais forças. É uma situação muito difícil, eu preciso cuidar da saúde, mas não sobra dinheiro para os remédios. A gente vai na UPA, no posto e não tem, na farmácia é muito caro, então eu uso alguns remédios caseiros mesmo. Estou correndo riscos. Esse mês mesmo acabou o álcool e eu só vou receber daqui 15 dias, não tenho como comprar, estou sem. Meu filho sai todo dia atrás de trabalho, quando volta já vai direto para o banho, mas é um risco.”

Ana Lucia e Monique Félix. Foto: Manuelle Coelho / Jornal A VERDADE

Ana Lúcia contraiu a Covid-19 em maio do ano passado e relata a sua experiência: “Eu peguei logo no começo e olha, não desejo para ninguém, pelo amor de Deus, é horrível! Fiquei 14 dias internada, eu não conseguia comer, beber, não conseguia respirar direito. Ainda bem que foi nos primeiros meses, porque se fosse hoje talvez eu nem estaria aqui, talvez tivesse ido para o pronto socorro e não voltasse mais, porque não ia ter vaga.”

Os ricos estão demitindo os trabalhadores

Perguntada sobre a sua vacinação, é certeira: “Eu acho que o governo não tá ajudando muito não. Agora eles dizem que estão vacinando as pessoas, mas já era para ter vacinado todo mundo, eles estão negando a vacina. Eu tenho 75 anos e não tomei, dizem para esperar, como é que eu vou esperar? Eu estou esperando na fila para morrer, tão enrolando a gente, a vacina tá aí e o Governo não quer comprar. O Governo tem de onde tirar, mas para eles tá tudo bem, eles tão vivendo bem. A gente não tem auxílio e não tem vacina. Tinham que garantir isso para ontem.”

Monique Felix, 25 anos, faxineira e moradora recente da mesma Favela do União, se mostrou indignada ao falar sobre a demissão do marido, justamente no meio da pandemia, quando, inclusive, testou positivo para a Covid-19. E aproveita para denunciar: “É um absurdo uma mãe, chefe de família, ganhar R$375,00 reais para sustentar uma família. Como é que vai comprar o mínimo para comer? Eu tenho 3 filhos, um deles é um neném que precisa de leite. Uma lata de leite em pó é R$17,00, que não dá para quase nada. Não tem como sustentar uma família”.

Sobre o papel do governo, Monique avalia: “A gente vê na televisão eles falarem que o Brasil está quebrado. Mas eu não acho que esteja quebrado a ponto de não poder pagar um auxílio justo para quem precisa. Os ricos estão vivendo bem, tão demitindo os trabalhadores, e a gente está na miséria. E o governo não quer dar auxílio, quando dá é uma migalha. Quem é rico só sente o peso da doença quando fica doente, mas a gente sente todo dia, quando falta um pão na mesa. Para piorar, no meio dessa situação a Prefeitura quer despejar a gente daqui. Então a gente vive não vivendo, dorme sem dormir, sempre na expectativa de algo ruim acontecer. É uma realidade que não aparece na televisão. E quando a gente grita e se manifesta, somos chamados de baderneiros. Quando a gente quer mostrar que realmente tá difícil, eles querem calar os pobres – ‘cala a boca aí, vou te dar um auxílio e você tem que sobreviver com isso sem expor nem reclamar’. A gente só quer que acabe a desigualdade, que eles parem de gastar nosso dinheiro com os ricos, comprando leite condensado, e invistam no trabalhador.”

“Eu vejo várias meninas, mães solos da minha idade, pegando latinha”

Franciele Aparecida na Favela do 22. Foto: Jornal A VERDADE

Na ocupação Vitória Régia, mais conhecida como Favela do 22, na cidade de Ribeirão Pires, Franciele Aparecida, 22 anos, cuida da casa e das 3 filhas enquanto o marido trabalha fazendo bico: “A renda é pouca, o que aparece ele vai fazendo, depende do que ele consegue. Agora, por exemplo, ele tá no ferro velho. Ele trabalhava num depósito, aí com esse negócio da pandemia mandaram ele embora. Depois da pandemia tudo mudou completamente, agora ele vive de bico, tem semana que não consegue trabalho, e se fica em casa não ganha, não tem renda. E o governo não fez nada para ajudar nessa pandemia, tá favorecendo quem tem dinheiro, a gente que precisa mesmo eles não tá nem aí. O auxílio emergencial tá nessa, não sabe se volta ou se não volta, dá pra ver que não tão nem aí.”

A vizinha de Franciele, Luane, de 21 anos, foi demitida no começo da pandemia e só conseguiu trabalho novamente em novembro, como atendente. Seu companheiro trabalha com artesanato, mas recentemente teve sua mercadoria apreendida porque não tinha licença para trabalhar. Sobre as adversidades decorrentes da pandemia, afirma Luane: “Eu tento me proteger ao máximo porque eu já tenho bronquite, problemas respiratórios. A gente tem medo, a gente vê que as coisas estão piorando. Para comer as coisas tá mais difícil também. No comércio aqui da vila antes tinha condição de pagar a prazo, hoje eles já não conseguem vender fiado. Uma cartela de ovo que era R$10,00, hoje tá R$16,00”.

Luane e sua filhinha no bairro Primavera em Mauá. Foto: Jornal A VERDADE

“Eu que tenho um trabalho fixo às vezes consigo ajudar um vizinho com um leite. Mas eu ganho um salário-mínimo, apesar da empresa que eu trabalho lucrar muito, ser milionária, eu ganho só um salário-mínimo, então fica difícil ajudar. As coisas estão piorando muito, quem tinha renda não tem mais. Como você vai trabalhar de diarista nesta pandemia?  O patrão não tá se importando. Eu vejo várias meninas, mães solos da minha idade, pegando latinha. Esses dias vi a menina com o marido e o filho pegando latinha aqui na ocupação. Ela disse que se andar na rua não encontra mais, eu até chorei. A gente tá morrendo e eles não tão se importando, na verdade nunca se importaram né. Para o Bolsonaro e a equipe da morte dele, quanto mais pobre morrer mais rico eles ficam. A verdade é essa: enquanto eles tão enriquecendo mais e mais, a gente tá morrendo. A gente ganhando um salário-mínimo e eles ficando milionários”, denuncia Luane, bastante emocionada.

“Para ser sincera, com o fechamento do salão, tive que me prostituir”

Na cidade vizinha, Mauá, Marcela Lima, mulher trans de 34 anos, conta que o salão de cabeleireira em que trabalhava fechou na pandemia e que por isso o auxílio emergencial ajudava a pagar o aluguel e a se alimentar: “Eu recebi o auxílio emergencial no ano passado, basicamente dava para pagar o meu aluguel, de R$500. Sobravam R$100,00 que era para comprar comida. Esse auxílio foi muito importante, ajudou muitas famílias, sem ele a gente não conseguiria sobreviver, mesmo assim é pouco. Já que é preciso que as pessoas fiquem em casa é preciso que exista um auxílio maior, as parcelas que tinham já acabaram e agora como fica?” Marcela revela que a falta de emprego e de auxílio do governo a obrigou a se prostituir para tentar sobreviver. “Com o pouco que tem a gente se vira, estou comendo, mas quase nunca como carne, não tem toda semana não. Eu fui criada com simplicidade, então a gente come o que tem, mas é difícil. Para ser sincera, com o fechamento do salão e sem ter outra fonte de renda para pagar as contas eu virei acompanhante, tive que me prostituir. Mas olha, mesmo assim está difícil porque nessa situação nem mesmo com isso conseguimos trabalhar.”

 A capital econômica é também a capital da miséria

Em São Paulo, cidade mais rica do país, com cerca de 12 milhões de habitantes, a pobreza chega a níveis extremos. Assim comentam Isaque Santos Moreira, 44 anos, e Lucilene Fernandez da Cruz, 41 anos, casados e moradores do bairro 5 julho em São Mateus, Zona Leste de São Paulo: “Moro com a minha esposa, 2 filhos pequenos e 2 filhos adultos, aqui em casa passamos muita necessidade. Trabalho na rua e não tenho como trabalhar, devido a essa pandemia. Não sou contra o que estão fazendo [lockdown], se for para salvar vidas, mas sou contra o que os governantes fazem com a gente, deixando a gente sem auxílio. É conta de água, de luz, tudo atrasado. Mas graças a Deus, os anjos têm passado por aqui e tem nos trazido doações no decorrer deste último ano.”

Isaque e Lucilene com as contas de luz atrasadas. Foto: Jorge Ferreira / Jornal A VERDADE

Lucilene, que está com câncer, não contém a revolta: “Eu fico revoltada com nossos governantes que não mandam uma vacina, não mandam uma ajuda. Esse auxílio que deram antes, agora estão cobrando no nosso arroz, no nosso feijão, na luz, nas contas. Tá tudo um roubo. Nas contas vem escrito que somos família de baixa renda, onde isso é baixa renda? R$ 500 reais de luz? Uma casa simples que não tem nada, eles tão roubando. As contas estão acumuladas, estou há meses sem pagar.” E pensa uma solução: “A gente tem que se juntar, ser forte, pra gente ter a nossa própria voz, pros governantes poder olhar pra nós, todos precisamos nos juntar porque uma andorinha só não faz verão.” Isaque completa: “É o povo que vai dar jeito, a nação inteira, se todos se unirem”.

No centro da capital paulista, Abou Ngazy Sidibe, 39 anos, imigrante da Guiné e morador de uma ocupação, conta para A Verdade que a situação dos imigrantes também está mais difícil: “A situação agora é difícil, mas a gente, brasileiros, africanos, imigrantes, tá no mesmo barco realmente, é a mesma dificuldade. Eu conheço muitos imigrantes que estão sofrendo, eu não sei como a gente vai ter isso solucionado. Essa doença, o coronavírus, chegou nesse momento, e muitos imigrantes aqui trabalham com o corpo, né? Restaurante, artista, bar, cabeleireiro, tudo isso é uma coisa física, e agora tá tudo fechado. Então tá passando muita dificuldade, tem gente esperando para receber cesta básica também. Eu sei agora de um monte que não tá recebendo, a gente tá passando por uma situação difícil.”

Falta oxigênio na cidade mais rica da américa latina

No dia 19 do mês de março, servidores da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da região de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, trouxeram à público que três pacientes morreram por falta de oxigênio, pelo menos outros 10 internados com covid-19 tiveram que ser transferidos às pressas, e muitos outros tiveram piora considerável devido à falta do suprimento, levando posteriormente a necessidade de intubação.

Ao longo do último mês, profissionais da saúde do país inteiro alertaram não só para o fim do estoque de oxigênio, mas para a falta medicamentos e insumos para intubação. Cientistas também apontam para o colapso emocional dos profissionais que estão na linha de frente do enfrentamento da pandemia. Mas nada disso importa para o presidente da república. Enquanto os brasileiros sentem fome, Bolsonaro gasta milhões com picanha e cerveja para as forças armadas e leite condensado. Enquanto milhares agonizam com falta de ar, Bolsonaro imita pacientes sufocando em tom de chacota. Enquanto os profissionais da saúde trabalham incansavelmente, Bolsonaro faz de tudo para impedir a vacinação.

Nos bairros populares a revolta contra o governo é tão comum quanto a fome, não há dúvidas que se poderia ter evitado a grande maioria das 300 mil mortes. É claro que na história os genocidas nunca reconheceram seus crimes contra a humanidade, mas a verdade é que para a grande maioria do povo brasileiro, Bolsonaro já está condenado. Resta saber qual sentença receberá o presidente quando o povo descer dos bairros, vilas e favelas.

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