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Carlos Marighella: “Não tive tempo para ter medo”

Foto: Arquivo

Luiz Alves


Quem foi Carlos Marighella? Um poeta, inteligente, alegre, extrovertido, amante do futebol, baiano da Baixa do Sapateiro, em Salvador. Um revolucionário. Terno com a família, com os amigos, com os companheiros, e muito duro com os exploradores do povo. Pai de origem italiana, Augusto Marighella; mãe, Maria Rita do Nascimento, filha de uma negra sequestrada na África e trazida junto com centenas de irmãos num navio negreiro.

“O homem deve ser livre”

Com essa origem, só podia ser amante da liberdade. Esse amor o levou às fileiras do PCB no início da década de 1930. Logo passou pelo batismo de fogo ao enfrentar a ditadura de Getúlio Vargas, na qual amargou dois períodos de prisão: de 1936 a 1937; de 1939 a 1945. Em ambos, sofreu torturas cruéis comandadas pelo carrasco Filinto Müller: teve o corpo queimado por cigarros, alfinetes cravados nas unhas e padeceu outras sevícias.

Cedendo à mobilização interna e às pressões externas, o governo de Vargas enviou, em 1944, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para se juntar às Forças Aliadas na 2ª Guerra Mundial, das quais participava a União Soviética, único país socialista então existente no mundo. Diante disso, o PCB realizou na clandestinidade a Conferência da Mantiqueira, que reuniu 46 dirigentes e definiu a orientação de unir forças contra o nazi-fascismo e deixar a luta contra a ditadura de Vargas para depois da guerra.

Atuação comunista na Constituinte

Anistiados em 18 de abril de 1945, os dirigentes comunistas foram do cárcere para grandes comícios de massa, sendo ovacionados por verdadeiras multidões, como candidatos à Assembleia Nacional Constituinte.

Carlos Marighella foi eleito deputado federal pelo Estado da Bahia e comemorou com os companheiros do PCB a eleição de outros deputados federais e de um senador, Luiz Carlos Prestes, uma grande vitória para quem acabara de sair da clandestinidade.

A bancada comunista foi aguerrida nos debates da Constituinte, defendendo os interesses dos trabalhadores e da nação brasileira, mas, como a maioria era conservadora, os resultados eram fracos.

A Constituinte de 1946 ampliou as liberdades democráticas formais, mas manteve a estrutura sindical controlada pelo Estado, não tocou na estrutura agrária e suprimiu todos os dispositivos nacionalistas das constituintes de 1934 e 1937.

Nas eleições presidenciais seguintes, com apoio de Vargas, foi eleito um general de direita, verdadeiro fascista: Eurico Gaspar Dutra. Este, em março de 1946, articulou junto ao Tribunal Superior Eleitoral a cassação do registro do PCB e, mais uma vez, o Partido entrou na clandestinidade. Os parlamentares comunistas ainda exerceram o mandato por algum tempo, até serem cassados no Senado, em 27 de outubro de 1947, e na Câmara Federal, em 10 de janeiro de 1948.

Autocrítica e apelo à luta armada

Em 1949, o PCB fez autocrítica do legalismo no período pós-Vargas, reconhecendo que dera mais atenção aos mandatos dos deputados do que às lutas populares. Com o movimento de massas contido e os sindicatos sob intervenção do Ministério do Trabalho, o Partido decidiu organizar os operários em comissões de fábrica e não disputar as eleições presidenciais de 1950, conclamando o povo brasileiro a pegar em armas contra o governo Dutra.

A conclamação só teve efeito em dois casos de luta pela terra: Porecatu, no Paraná, e Formoso, em Goiás, onde os camponeses conseguiram a desapropriação das terras, defendendo a posse de armas na mão.

Eleito em 1950, Getúlio Vargas assumiu a Presidência da República adotando uma linha nacionalista e com mais abertura para o movimento sindical. Nessa década, Carlos Marighella participou ativamente da histórica campanha “O Petróleo é Nosso”, que foi vitoriosa com a criação da Petrobras, em 1953. E, seguindo a nova orientação do Partido, conduziu, em São Paulo, a atuação dos militantes no sentido de assumirem a direção dos sindicatos, derrubando os pelegos onde fosse necessário.

Destacado para orientar o trabalho do Partido no campo, Marighella reafirmou a necessidade da aliança operário-camponesa e reforçou uma campanha nacional pela Reforma Agrária, que coletou cinco milhões de assinaturas. Em 1957, passou a integrar a Comissão Executiva do PCB.

1964: burguesia impõe a ditadura militar

Jânio Quadros, eleito para a Presidência em 1961 permitia que o Fundo Monetário Internacional (FMI) controlasse a economia brasileira, mas deixou a burguesia insatisfeita ao desenvolver uma política de aproximação com o bloco socialista. Pressionado pelos militares, acabou renunciando.

Seu vice-presidente, João Goulart, que representava a continuidade da linha nacionalista de Vargas, tomou posse com muita dificuldade, prometendo realizar profundas reformas de base: Reforma Agrária, Reforma Urbana, Reforma Universitária e outras.

O PCB definiu o apoio a Jango, com o qual Marighella concordou, mas registrou que esse apoio não poderia ser automático, de maneira tão dependente que impedisse qualquer crítica ou pressão para acelerar as reformas de base.

A burguesia internacional passou, então, a articular um golpe de Estado. O PCB fez pouco caso das manobras golpistas, confiando no imaginário dispositivo militar aliado que defenderia o governo Goulart. Este buscou mobilizar o povo, mas já era tarde. Em 1º de abril de 1964, os militares derrubaram o governo constitucional, implantando uma ditadura militar que duraria 21 anos.

Uma brecha no muro

No dia 9 de maio, Marighella resistiu à voz de prisão que lhe foi dada em um cinema, no Rio de Janeiro. Ferido a bala, escapou com vida. Nos interrogatórios respondeu com uma só frase: “nada a declarar”. Libertado 80 dias depois, mediante habeas corpus impetrado pelo renomado jurista Sobral Pinto, denunciou as torturas praticadas no cárcere e logo teve que entrar para a clandestinidade ao ter decretada sua prisão preventiva.

A direção do PCB criticou o fato de Marighella ter resistido à prisão, dizendo que tinha sido uma provocação desnecessária. Defendendo uma linha pacifista, o Partido considerou mais grave ainda o posicionamento do dirigente, assim expresso: “É evidente que a solução do problema brasileiro por uma via pacífica se distanciou enormemente da realidade, depois do emprego da violência por parte dos inimigos do povo. Nada há de esperar de uma via pacífica para a conquista da independência e do progresso social”. Esta avaliação de Marighella desencadeou uma luta interna no PCB entre as tendências do caminho pacífico e da luta armada. Marighella, então, saiu do Comitê Central.

Inimigo nº 1 da ditadura

De 31 de julho a 1º de agosto de 1967, Marighella participou, em Havana, da Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (Olas), cuja finalidade era romper com o imobilismo dos partidos comunistas latino-americanos e impulsionar os movimentos revolucionários no continente.

Marighella abraçou a causa e, ainda em Cuba, soube da sua expulsão do PCB, por indisciplina. Considerando que uma estrutura partidária só serviria para atrapalhar a luta, Marighella, inspirado na Revolução Cubana, fundou o Agrupamento Comunista de São Paulo, cujos princípios eram: o dever de todo revolucionário é fazer a Revolução, não se pede licença para praticar atos revolucionários e só se tem um compromisso: com a Revolução. O Agrupamento, depois de conseguir adeptos em outros estados, passou a chamar-se Ação Libertadora Nacional (ALN). 

1968 foi um ano de grandes mobilizações no mundo inteiro, especialmente da juventude estudantil. No Brasil, mesmo sob a ditadura, o processo de mobilização cresceu, chegando à famosa Passeata dos 100 mil e às greves dos metalúrgicos de Osasco (SP), Contagem (MG) e dos canavieiros do Cabo (PE). A ALN, entretanto, não fazia trabalho de massas: apenas buscava recrutar militantes entre os líderes do movimento.

Marighella expressava uma concepção de luta armada a partir do campo e ligada ao movimento de massas. Dizia: “Nada parece aprovar a ideia de uma luta de guerrilhas que não surja das entranhas do movimento camponês e do movimento de massas, da resistência do povo brasileiro”. A ALN, entretanto, não chegou a criar uma base no campo, limitando suas ações às cidades: foram basicamente expropriações feitas através de assaltos a bancos, carros-fortes, carros-pagadores, e o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em parceria com o MR-8. 

A resposta da burguesia às mobilizações de 1968 foi o golpe dentro do golpe, o completo fechamento, a edição do AI-5. As leis passaram a não ter mais nenhum valor. O Congresso foi fechado, parlamentares de oposição cassados, a repressão passou a ser feita por organismos militares e paramilitares, sem nenhum controle. O movimento de massas refluiu. Vieram os sequestros, torturas e assassinatos dos militantes. 

Novas gerações empunharão essa bandeira

Nesse quadro de isolamento, o cerco chegou a Marighella, considerado pelo regime militar seu inimigo público nº 1. Numa série de prisões de militantes e simpatizantes da ALN, alguns não resistiram às torturas e revelaram esquemas de encontro com o líder.

A repressão montou uma tocaia para o herói, que, ao se aproximar do carro dos companheiros, estacionado à sua espera, foi alvejado por três tiros que o derrubaram e, a seguir, assassinado por um disparo fatal à queima-roupa. Era dia 4 de novembro de 1969. 

Marighella recebe homenagens desde então e receberá sempre. Numa dessas homenagens, num momento muito especial, que foi o traslado dos seus restos mortais de São Paulo para Salvador, em 1979, Luiz Carlos Prestes, já tendo reconhecido os erros e desvios de direita do PCB, fez uma saudação muito especial:

“Carlos Marighella! Teu nome e tua memória não serão jamais apagados da história do nosso povo. Teu exemplo de lutador pela felicidade do povo, por uma transformação social profunda que acabe com a exploração do homem pelo homem, educará as novas gerações da classe operária e de todos os trabalhadores brasileiros, ajudará a educar e formar a juventude que continuará a sua luta, a nossa luta revolucionária, comunista, democrática e patriótica”.

(Obra consultada, inclusive citações: Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar. Emiliano Jose, São Paulo, Sol e Chuva, 1997)  

 

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