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Vestibular: exploração e opressão dos estudantes pobres

Estudantes nas manifestações pelo Fora Bolsonaro. Foto: Manuelle Coelho / Jornal A Verdade

 Felipe Belleti, Fernanda Maia, Giovanna Zulim


SÃO PAULO – O vestibular se tornou um pesadelo para milhões de jovens, há pressão na escola e há pressão familiar, trazendo ansiedade, sentimento de incapacidade, insegurança, tudo contribuindo para que a nossa juventude fique doente. O que resta, então, à nossa classe, é que invista tempo posterior ao período escolar em cursos pré-vestibulares, ou que ingresse em alguma faculdade privada e esgote seu tempo tentando pagar as mensalidades absurdas. Na maioria das vezes, nós precisamos começar a trabalhar assim que possível para ajudar em casa, pois com o alto preço atribuído aos alimentos, ao gás, às contas de água e luz, e com o baixo salário mínimo, o estudante não tem certeza se terá comida dentro de casa. Então, qual é a vantagem em passar mais 1 ou 2 anos estudando as mesmas matérias do ensino médio para se preparar para uma prova que é feita para falharmos? Além disso, as faculdades privadas costumam ter valores altíssimos, demandando que trabalhemos muito mais para conseguir pagá-las, ficando sem tempo para poder estudar de forma eficiente e nos levando à completa exaustão.

No sistema capitalista somos explorados de todas as maneiras possíveis, não seria diferente com os estudantes, por meio dos vestibulares. Todos os anos, é posto que precisamos escolher um curso e trabalhar nele com excelência, como se nossa felicidade dependesse disso, quando na verdade atuar com excelência significa servir a classe dominante pelo resto da vida. A verdade é que, ao fim do ensino médio, acabamos de atingir a maioridade, e é uma imensa contradição exigir de nós a escolha sobre o futuro de nossa vida profissional, e mais: exigir ainda que saibamos o suficiente para não errar nessa escolha. Intensificando a contradição, o fácil acesso às universidades privadas está liberado apenas para uma pequena parcela da população, a burguesia, com suas mensalidades caras, enquanto a juventude da classe trabalhadora está submetida a estudar inúmeras matérias para tentar a chance mínima de ingressar na universidade pública. Somos pressionados a estudar para ingressar no ensino superior e ter uma boa profissão, mas não nos é dada a educação necessária. Além disso, as escolas públicas estão cada vez mais sucateadas, as universidades públicas estão correndo risco de fecharem as portas por falta de verbas, e enquanto isso o Ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirma que a “universidade deveria, na verdade, ser para poucos”, ou seja, para a elite.

Podemos ver de forma bem clara o reflexo do que a pressão dos vestibulares têm feito com a juventude se apenas analisarmos a baixa no número de inscrições para provas de vestibulares que aconteceram nos últimos anos: o ENEM 2021, durante o governo de morte de Bolsonaro e seus militares, teve a menor quantidade de inscritos desde 2005, juntamente com esse número caiu também a quantidade de inscrições de alunos de escolas públicas ou em situação de vulnerabilidade. Isso porque este ano o processo de inscrição dificultou ainda mais o pedido de isenção da taxa (85 reais), fazendo com que muitos jovens que não tem condições para pagar essa taxa desistissem dos seus planos de prestar um vestibular. 

Exigem que saibamos tudo o que, em teoria, aprendemos em três anos de ensino médio, para que apliquemos nas 8 horas das provas dos vestibulares, mas ao mesmo tempo nunca vimos todos esses conteúdos nas salas de aula. Exigem de nós uma redação escrita com nossa opinião clara e coesa, mas ao mesmo tempo nunca nos ensinaram a pensar de maneira crítica, muito menos a colocar essas críticas no papel, sem contar que em muitos dos problemas apontados nos temas das redações, o principal culpado sempre é o próprio sistema. É fato, o vestibular é um meio de barrar a entrada da classe trabalhadora nas universidades, não há vagas para todos, então nos sujeitamos a fazer uma prova para testar nossos conhecimentos, cobrando matérias nunca vistas pelos alunos de escola pública, enquanto os filhos dos grandes ricos compram uma educação excelente. Portanto para que nós, jovens da classe trabalhadora, passemos no vestibular, teremos que estudar muito mais, e isso é romantizado pela grande mídia que insiste em usar exemplos reais de jovens que se desgastam estudando 12 horas por dia para conseguir uma vaga na universidade, dizendo que devemos ser “guerreiros” iguais essas pessoas, não que devemos lutar para que casos como esses não precisem mais acontecer. 

Isso posto, fica evidente os problemas que o capitalismo constrói para a juventude trabalhadora no período mais complicado de suas vidas, quando exigem que construamos uma vida inteira em 1 ano, mas logo de início já nos barram da educação superior de qualidade. A verdade é que a educação superior, que deveria ser direito de todas e todos, torna-se restrita à burguesia, que consegue pagar pela educação privada ou está muitos passos à frente no ingresso das universidades públicas. Enquanto o sistema for excludente em relação aos estudantes pobres, a educação continuará sendo privilégio dos ricos. Nossa luta é para que a educação não seja mais uma mercadoria.

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