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terça-feira, 9 de agosto de 2022

Entrevista: Thiago encontrou na arte uma maneira de sobreviver na comunidade da Marcone

Periferia – Thiago abriu uma barbearia e estúdio de tatuagem e, após comprar cinco exemplares em uma brigada, abriu as portas para uma conversa com A Verdade (Foto: Thiago Ribeiro/A Verdade).

Thiago Ribeiro e Wilson Tonon

São Paulo – A Favela da Marcone se tornou uma das mais conhecidas nos últimos anos, principalmente por causa do fluxo – como são conhecidos os bailes funk de rua – que chegou a estar na música “Baile de Favela” e se tornou sucesso nacional, com uma versão usada nas ocupações das escolas em 2015. Mas a Marcone é uma comunidade que vai muito além dos bailes, lá rola muito futebol de várzea e muita solidariedade, além dos problemas de toda quebrada.

Faz uns 6 meses que o núcleo da Zona Norte da Unidade Popular pelo Socialismo passou a divulgar o Jornal A Verdade no bairro e entre vários contatos conhecemos o Thiago, dono da barbearia e estúdio de tatuagem Brugu’s, que comprou cinco exemplares para deixar à disposição dos clientes. Fomos até lá para conversar com ele conhecer mais sobre a realidade de quem mora na periferia da Zona Norte de São Paulo.

A VERDADE – Como surgiu a ideia de montar a Brugu’s Barber&Tattoo aqui na comunidade?

Thiago – Eu moro aqui desde criança e montei a barbearia com estúdio de tatuagem quando eu perdi o meu emprego, há dois anos, por causa da crise econômica que atinge todo o Brasil. Foi aqui na comunidade da Marcone que eu resolvi fazer o meu trabalho, onde encontrei algumas vantagens porque aqui estou perto de casa, dos meus familiares e amigos, além de ter uma clientela pelo grande número de moradores.

Aqui eu trabalho para sustentar a minha família, se fosse em outro bairro com certeza eu não teria conseguido abrir meu salão por causa do alto custo dos aluguéis cobrados entre outras despesas.

Como foi que você descobriu seu talento artístico e encontrou nele uma forma digna de sobrevivência?

Sempre gostei muito de desenhar, o desenho sempre esteve presente na minha vida desde a época de escola. Comecei a tatuar alguns amigos em casa quando tinha 16 anos, ainda de forma amadora e sem todos os equipamentos e suprimentos necessários.

O pessoal gostou bastante do meu trampo, então vi na tatuagem uma possível profissão pra mim. A tatuagem é uma moda que nunca sai de moda, tattoo é um estilo, tattoo é uma vivência. Muitas pessoas ainda têm preconceito com a tatuagem, mas ela não define quem você é e nem o seu caráter, é uma questão de embelezamento corporal de maneira artística que faz parte da vaidade.

Aqui no salão tem um grande fluxo de trabalhadores e jovens, mediante essa situação de desemprego, o que você escuta das pessoas em relação ao custo de vida?

Escuto as pessoas se queixarem bastante do aumento do custo de vida. O povo da periferia apesar de ser pobre é muito trabalhador e está sentindo na pele o aumento dos preços dos alimentos, da gasolina, da água, da luz, do gás, tudo está mais caro! O trabalhador só está suprindo o necessário para se manter vivo e olhe lá…

E como a pandemia do Covid-19 afetou o seu trabalho?

Afetou bastante! No salão o movimento dos cortes de cabelo caiu 60%. As pessoas estão trabalhando para pagar contas e colocar comida dentro de casa – somente o necessário para se manterem vivas – e estão vindo cortar o cabelo quando chega no limite mesmo.

As tatuagens também diminuíram porque o povo está gastando o pouco dinheiro que recebe com alimentos; os preços no supermercado estão absurdos! O pobre durante a pandemia só teve duas opções: ou morria de Covid ou morria de fome, por isso, a única saída foi trabalhar. Mas o povo aqui é muito solidário, um ajuda o outro.

Como funciona a questão da organização entro os moradores da comunidade?

Existem pessoas que são linha de frente aqui na comunidade como, por exemplo, o time de futebol “Fúria do Marcone”. Eles se organizam voluntariamente e fazem entregas de alimentos para moradores de rua, doam cestas básicas para algumas pessoas necessitadas, promovem festa para as crianças, doam brinquedos.

Eles não se resumem somente no futebol, são voltados para ajudar a comunidade e isso melhora a quebrada, traz um lazer para os moradores além do esporte.

Como a polícia é vista pelos olhos da comunidade?

Infelizmente a polícia é vista como a vilã da história. Para eles não importa se a pessoa trabalha, estuda, não tem antecedentes criminais ou tatuagens, basta ser morador da comunidade para ser suspeito e tratado com ignorância e sem nenhuma educação.

Na sua opinião, o que falta na Marcone para melhorar a vida dos moradores?

Falta a gente ser visto com igualdade pelos governantes, eles virem até aqui para acompanhar de perto o sofrimento de muitas pessoas. Os moradores da favela, na sua maioria, são gente honesta e trabalhadora. Infelizmente temos muita gente jogada nas ruas, no vício das drogas.

Essa gente não tem nenhuma estrutura para voltar à realidade e precisam de ajuda, precisam pelo menos passar a ser mais um nas estatísticas, porque muitos aqui nem contam nas estatísticas. São os que vivem nos becos das favelas do Brasil, gente que a burguesia e os governantes ignoram a existência e que precisam de ajuda.

O que falta para a gente é ser visto com igualdade pelo pessoal de cima, porque somos a estrutura que levanta e sustenta eles lá em cima com o suor do nosso trabalho. Queremos ser vistos com igualdade, porque todos nós somos seres humanos e queremos direitos iguais. É isso aí!

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