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sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Entrevista Pedro Monzón: “O papel da juventude é ser ativa e revolucionária”

Em entrevista ao jornal A Verdade, Pedro Monzón, cônsul-geral de Cuba no Brasil, fala sobre a luta que a juventude cubana empreendeu em defesa de um modelo de educação e de universidade completamente diferentes daquele que o capitalismo apresenta ao povo.

GABRIEL BORGES
VICTOR MAGALHÃES
São Paulo

A Verdade – Como era a educação em Cuba antes da Revolução e quais foram os desafios para sua democratização?

Pedro Monzón A educação em Cuba, antes de 1959, era determinada pelo sistema capitalista e pelo governo do ditador Fulgêncio Batista. Era uma educação elitista: havia escolas privadas e escolas do Estado. As escolas privadas tinham as melhores condições possíveis, enquanto as escolas do Estado estavam em condições muito ruins: os professores não tinham muita formação e, sobretudo fisicamente, as escolas eram realmente um desastre. Eu tive estudei em uma escola não privada e simplesmente não havia aulas, os professores não ajudavam, etc.

Enquanto isso, na escola privada havia um regime muito mais estabelecido, sistemático, que garantia a educação dos estudantes. Havia algumas escolas religiosas, outras que não eram mais que extensões das escolas dos Estados Unidos. Os conteúdos, claro, não tinham nada a ver com os conteúdos nos quais se apoiava a Revolução, mas sim em princípios derivados de uma sociedade capitalista, tanto na escola privada quanto na escola pública. As possibilidades de estudo, em geral, só existiam para uma parte da população. Havia um alto nível de analfabetismo – mais de 20% –, a maioria no campo, mas também na cidade havia uma educação muito frágil. Essa foi a educação que se acabou com a Revolução.

Quando triunfou a Revolução, uma das primeiras medidas que o governo tomou foi de organizar a alfabetização da população, com a ideia de que se iniciasse um processo de educação elevado que levasse o povo cubano a altos níveis culturais e de instrução. A alfabetização teve, em apenas um ano, a participação de mais de 100 mil estudantes secundaristas e alguns estudantes do primário, que foram para as montanhas, aos lugares mais longínquos, onde residiam principalmente os analfabetos.

Essa foi uma medida que beneficiou a todo mundo, tanto aos analfabetos quanto aos estudantes que participaram da alfabetização. Nós, que participamos da alfabetização, ganhamos muito, porque aprendemos o que era a miséria em Cuba, como viviam os camponeses e os operários mais pobres; e os camponeses, operários e analfabetos conseguiram alfabetizar-se em apenas um ano. 

A partir daí, começou um processo contínuo de educação que chegou, finalmente, até a universidade, com a democratização da educação em Cuba e, por isso, os cubanos, de maneira geral, têm um alto nível cultural e de instrução, não são grupos isolados do resto da população. Os cubanos tiveram, a partir disso, uma cultura política, uma cultura geral, que não se encontra em outros países do mundo, incluindo o Brasil.

A juventude de Cuba hoje tem livre acesso à universidade? 

Sim. Há uma porcentagem altíssima de universitários em Cuba. Existe uma prioridade a isso. Toda família cubana quer que seus filhos cheguem à universidade, e a universidade é livre. Para ingressar nela deve-se apenas realizar uma prova. Para ser aprovado é preciso estudar, mas a educação e o processo formativo anterior à prova te permite conseguir passar. Não custa nenhum centavo estudar na universidade e não custa nenhum só centavo fazer pós-graduação em qualquer área.

Há profissionais em Cuba que têm duas ou três carreiras em sua universidade e que têm várias pós-graduações em diferentes temas de seu interesse. A educação em Cuba no geral é livre e gratuita, o que permitiu o desenvolvimento da população. Além disso, os estudos são estimulados, insiste-se na necessidade de que a pessoa estude e há a obrigatoriedade de ter, no mínimo, o nível secundário de estudo para toda a população. 

A educação em Cuba é muito complexa, há uma rede muito coerente e abundante de centros universitários em todo o país. Em toda província há carreiras que têm mais peso que outras ou uma prioridade geral do Estado, como é o caso da Medicina.

Qual o papel da juventude cubana na defesa do legado da Revolução?

O papel da juventude cubana é o mesmo da juventude do mundo inteiro. Ela tem que ser ativa, radical, revolucionária. A juventude cubana é decisiva para o futuro da Revolução, por isso se insiste muito na educação da juventude, no fato de que a juventude conheça a história de Cuba, tenha uma visão séria da política internacional.

Em Cuba, a educação é estatal, os meios de comunicação são estatais, há organizações políticas em diferentes áreas, mas as mais importantes são o Partido Comunista de Cuba e a Juventude Comunista. Há outras organizações de massa, de forma que em Cuba há uma rede muito complexa e muito completa de instituições e de organizações que têm alguma relação com a educação do povo e também da juventude.

Não é como acontece em outros países, onde a imprensa e os meios de comunicação estão nas mãos de proprietários privados que estabelecem políticas editoriais para servir aos interesses das classes mais opulentas da elite oligárquica de cada país. A educação em Cuba e todo o fenômeno da promoção de ideias está nas mãos do Estado e responde aos interesses estratégicos e táticos da Revolução, e claro que a juventude desempenha um papel decisivo nas diversas organizações que existem no nível primário, secundário e universitário. 

É um sistema muito completo que permite que a juventude esteja organizada em função dos interesses da Revolução. Essas organizações discutem livremente qualquer tema e servem para mobilizar os estudantes em termos gerais. Mobilizar os estudantes de Cuba não se trata de lhes impor critérios políticos que não respondem às capacidades racionais dos estudantes. Os estudantes têm uma alta capacidade de análise e, portanto, mobilizá-los pressupõe a utilização de argumentos sérios, profundos, capazes de serem entendidos. Ou seja, não respondem a emotividades, à manipulação da consciência, mas sim à racionalidade sobre todas as coisas. Os estudantes, por muitas vezes, saem às ruas em defesa da Revolução, contra as medidas do bloqueio econômico que os EUA impõem a Cuba, contra as tentativas (malogradas) do imperialismo de jogar a população contra o governo devido às dificuldades econômicas causadas pelo próprio bloqueio.

A juventude, assim como todo o conjunto da população, sofre com o bloqueio, sofre dificuldades na alimentação, nos transportes, só que todos sofremos por igual e manteremos firme e arraigada nossa posição política sobre a Revolução. E, mesmo assim, ninguém morre de fome, ninguém vive nas ruas, as drogas não são um problema em Cuba – não afetam nem aos estudantes nem a ninguém –, a violência é mínima, a delinquência é mínima. A juventude cubana passou por vários estágios, desde a luta pelo triunfo da Revolução até a etapa atual, que objetiva conseguir que a Revolução avance ao máximo, respeitando sempre os princípios de justiça social que governa o nosso sistema.

A juventude brasileira pode aprender com a nossa história. Tem que estudar a forma como a juventude cubana se lançou às ruas, em outras condições, para defender as posições mais revolucionárias, como se alçaram às montanhas para lutar contra a tirania, como conseguiram se organizar na cidade contra a tirania. Naquele momento se fazia a luta armada, não é o caso no Brasil hoje, não podemos transportar nossa experiência pura de um lugar para outro, mas se pode deixar claro que a juventude atuou sempre disposta a se sacrificar pela Revolução. O importante dessa decisão de se sacrificar é o que é fundamental: sacrificar-se em função dos interesses políticos que beneficiam não só aos estudantes e aos jovens, mas a todo o povo no Brasil. E depois da Revolução é seguir lutando pelo seu triunfo, fazendo o que for necessário para que ela triunfe. Isso é o fundamental.

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