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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

O caso Dom Phillips e Bruno Pereira e a predação da Amazônia

Desaparecimento assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira mostram a exploração e destruição capitalista da Amazônia. A morte do jornalista e do indigenista mostram a importância da luta contra o governo Bolsonaro e seu projeto destruidor.

Thiago Rodrigues*                                                                                                                Rio de Janeiro


OPINIÃO – Desde os escritos precursores de Karl Marx e Friedrich Engels, passando pelas reflexões de V.I. Lenin e de Rosa Luxemburgo sobre o imperialismo, sabemos que o capitalismo é um sistema econômico que só sobrevive com a renovação constante de sua capacidade de expansão e de predação de novas “fronteiras” para a acumulação de capital. Após a conquista e subjugação de povos e terras em todo o globo, quando o mundo já parecia todo dividido e esquadrinhado, as potências imperialistas voltaram-se umas contra as outras, travando duas guerras mundiais devastadoras.

A divisão do mundo após a Segunda Guerra Mundial garantiu mais um ciclo de expansão capitalista garantida pela aplicação de novas tecnologias de produção, transporte e comunicação a interconectar mercados mantidos em posição subalterna pela aliança entre elites locais e as forças do capital global. O início do século XXI pareceu colocar novos limites à reprodução do capitalismo globalizado diante, de um lado, da emergência espantosa da China como potência produtiva, de consumo e de inovação tecnológica e, de outro, do esgotamento do modelo neoliberal baseado na desindustrialização e no crescimento exponencial da concentração de renda que produziu exércitos de centenas de milhões de excluídos e miseráveis em todos os continentes.

Diante da nova “crise” do capitalismo, que explodiu nos EUA em 2008, o sistema foi novamente salvo por fundos públicos, pelo endividamento dos países periféricos e pela busca de novas fronteiras para o capital. Uma dessas novas fronteiras foi o ciberespaço e suas criptomoedas. Outra fronteira foi a do espaço sideral, com investimentos bilionários em tecnologia para a exploração do entorno espacial da Terra e de corpos celestes próximos, como a Lua e Marte. Uma terceira fronteira foram as águas oceânicas, o subsolo das plataformas continentais e as áreas glaciais do planeta. Por fim, visou-se as florestas tropicais e suas imensas riquezas em biodiversidade, recursos minerais e hídricos.

Nas Américas, abrir ou aprofundar as fronteiras do capital sobre áreas de grande riqueza natural significou avançar sobre zonas de preservação ambiental e sobre regiões habitadas há séculos por povos indígenas e comunidades tradicionais, como os quilombolas. Esse fenômeno foi acelerado a partir dos anos 1990, quando a adoção de políticas neoliberais atingiu terras tradicionais – antes protegidas por lei, como no caso do México – permitindo que áreas comunitárias fossem vendidas e ocupadas. Avançou, também, em países como o Brasil, onde desde o período da ditadura civil-militar, a expansão do agronegócio no Centro-Oeste e no Norte se deu pela invasão de zonas ainda intocadas, dispersando, matando e acuando povos originários e tradicionais.

O processo de destruição ambiental e de violência contra os povos da floresta foi tão intenso que, nos anos 1980, o Brasil começou a ser visto mundialmente como um “vilão ecológico”. Para tentar mudar essa imagem, o país passou a investir numa diplomacia ambientalista que incentivou a realização de encontros internacionais – como a Eco-92 no Rio de Janeiro – e a assinatura de tratados como o Protocolo de Quioto e os Objetivos do Milênio. O ativismo funcionou para mudar a “imagem” do país no plano internacional, ainda que as violências no campo seguissem intensas, as agressões aos povos da floresta continuassem visíveis e a degradação ambiental permanecesse brutal.

No entanto, desde o começo do governo de Jair Bolsonaro, nem mesmo a imagem internacional do Brasil pôde ser mantida. De forma explícita, o atual governo recuperou uma prática de “desenvolvimento econômico” da Amazônia e do Pantanal que remonta aos anos 1960 e 1970 e se baseia na derrubada da floresta, no avanço das monoculturas voltadas à exportação, no aumento das pastagens para gado de corte e na mineração desenfreada por grandes empresas internacionais e por garimpeiros invasores de terras indígenas e quilombolas.

Segundo dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o desmatamento da floresta aumentou 56,6% entre 2018-2021 em comparação com o período anterior de 2015-20181. Os casos de violência contra indígenas também cresceram. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), foram 263 ocorrências em 2020 contra 111 em 20182.

Ignorando os protestos no Brasil e no exterior, o governo Bolsonaro seguiu privilegiando a inclusão violenta de áreas naturais e a incorporação desigual e agressiva dos povos da floresta ao capitalismo subalterno e dependente que tem sido parte central do seu projeto econômico. Nesse contexto, o desaparecimento e assassinato do jornalista Dom Philips e do indigenista Bruno Pereira são indícios explícitos de um processo que todos os dias faz vítimas nas vastas regiões amazônicas.

A diferença é que Philips era um homem branco, britânico e vinculado ao The Guardian, um dos mais prestigiados jornais do mundo. Essas características fizeram do seu desaparecimento um caso de repercussão mundial. Conhecido defensor da Amazônia, Philips vinha escrevendo um livro sobre alternativas não-destrutivas para o desenvolvimento econômico da floresta tropical. Pereira, por sua vez, era um funcionário de carreira da Fundação Nacional do Índio (Funai), respeitado pelos colegas e pelas populações indígenas e que, pela resistência às políticas do governo federal para a Amazônia, havia sido destituído de seu cargo de coordenador geral da divisão de Índios Isolados e de Recente Contato, sendo colocado em posição irrelevante na Fundação. Por essa razão, havia se licenciado da Funai para trabalhar com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava), a mesma que foi fundamental na busca por ambos.

Philips e Pereira representavam exatamente o oposto do que o governo Bolsonaro pretende e realiza para a Amazônia e seus povos. Ambos simbolizam o respeito para com os povos da floresta e com a floresta em si. Ambos se tornaram mártires conhecidos diante dos muitos mártires anônimos que perecem todos os dias intoxicados, violentados, expulsos de suas terras ou assassinados. Pelas mãos do governo atual e das forças econômicas por ele privilegiadas, a Amazônia, seus povos e seus defensores são alvos preferenciais para toda sorte de violências e exploração. Dom Philips e Bruno Pereira foram assassinados pelo capitalismo predatório que cresce e se reproduz pela morte e pela devastação de vidas humanas e das incontáveis formas de vida ainda abundantes nos bosques tropicais do Brasil.

*Thiago Rodrigues é cientista político, professor no Instituto de Estudos Estratégicos (INEST) da Universidade Federal Fluminense (UFF)

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