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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Porto Alegre completa 251 anos dominada pela especulação capitalista

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Nicolas Pantaeoni Nicoletti | Porto Alegre 


OPINIÃO – No aniversário de 251 anos de Porto Alegre, convidamos o leitor a um exercício de questionamento sobre os rumos que a cidade toma. Para isso, falaremos sobre o que é considerado progresso e o papel do discurso capitalista em fazer a manutenção dessa ideia de progresso. Por fim, pretendemos expor o fracasso internacional do modelo “hubs de inovação”, que é um dos símbolos do progresso no capitalismo.

Imaginemos o seguinte cenário: uma cidade possui uma região com potencial de receber um novo centro de inovação. É feito um investimento inicial no bairro (cria-se o centro) e, a partir disso, espera-se mais investimentos. A circulação de pessoas no bairro aumenta, o mercado imobiliário esquenta, há geração de empregos nos setores de comércio e serviços e, em teoria, haveria ali uma nova região próspera. Esse é o cenário que estamos questionando: um progresso linear, cujo ordenador é a visão de quem está fora da região.

Questionamos esse progresso, pois as regiões escolhidas para esse tipo de iniciativa tendem a ser as regiões que preenchem todos os requisitos de um processo de gentrificação. A gentrificação geralmente ocorre em regiões centrais das cidades, já degradadas, onde moram, geralmente, trabalhadores de baixa renda e comércios de pequeno porte. A gentrificação de um bairro é justamente quando esses moradores e pequenos comerciantes se veem obrigados a mudar de bairro e fecharem seus negócios, pois o custo do aluguel já não é pagável.

Conforme falamos no início, o discurso capitalista é conivente com essa ideia de progresso. É esse discurso que organiza a nossa sociedade. É porque o discurso capitalista tem como foco produção e consumo que ele faz um excelente par com o progresso que questionamos. Se o discurso foca em consumo e produção, ele não foca no laço social, criando uma sociedade impotente e carente de imaginação política e econômica. Começamos a entender como o capitalismo justifica a exclusão de pessoas em nome do progresso.

Em tempo, quando uma sociedade é capaz de acordar que empresas não podem pagar melhores salários, pois seria financeiramente inviável, fica implícito que o capital ordena o processo de desenvolvimento. É novamente mérito do discurso capitalista que a falência de uma empresa é mais danosa para o progresso do que a vida das pessoas. O discurso capitalista é perfeito para sustentar a ideia de que empresas não podem fechar e o trabalhador precisa provar seu valor, vivendo a esperança do dia em que será recompensado pelo seu trabalho, enquanto a distância entre o trabalhador e o patrão só aumenta.

Agora que propusemos a fragilidade e violência na ideia capitalista de progresso, pretendemos demonstrar nossa descrença no rumo que Porto Alegre está tomando. Um dos principais exemplos do que ocorre hoje na cidade é o Instituto Caldeira. Usaremos o exemplo do Caldeira para sustentar nossa tese de que Porto Alegre toma rumos duvidosos.

Em 2021, foi inaugurado o Instituto Caldeira, no 4º distrito, região da capital dos gaúchos. 

Escolhemos uma das entrevistas que encontramos na internet:
“Queremos ressignificar o 4° distrito […] o 4º Distrito já foi uma região de ouro da cidade. O próprio Instituto Caldeira é uma homenagem às caldeiras que o A.J. Renner trouxe para cá em 1918. Naquele ano, ele estava começando o complexo que empreendia aqui. Então, trouxe da Escócia duas caldeiras para que pudesse gerar energia para o complexo fabril e também para a própria cidade. Por isso, escolhemos que o nosso projeto se chamaria Caldeira”.

O CEO não explica o que é a ressignificação, mas podemos entender que ele se refere ao progresso daquela região. E o problema fica ainda mais grave. Grandes empresas gaúchas e big tech internacionais recebem a medalha do progresso, mesmo provando década após década que não possuem interesse nenhum que não seja o lucro. São assim que empresas funcionam, precisam lucrar.

Dessa forma, só há uma maneira de progresso, e desconfiamos que o futuro não é promissor. São Francisco, cidade estadunidense, foi e segue sendo reconhecida como um verdadeiro paraíso de hubs de inovação. A cidade do famoso Vale do Silício é um exemplo de que hubs de inovação e o tal progresso capitalista não são soluções para os problemas sociais da cidade.

Enquanto o capital circula por lá na sua forma menos desregulada (grotesca), a cidade passa por uma calamidade social. Em 2019, 10% da população vivia em situação de pobreza. Uma das explicações para o fracasso desse modelo é que dentro dos hubs de inovação, são raras as empresas ou startups de educação ou saúde, por exemplo, que carregam essas áreas na origem dos seus fundadores e financiadores.

Hoje, no capitalismo, as coisas funcionam mais ou menos assim: temos um fundo de investimentos de capital de risco. Esse fundo é criado por capitalistas que chamam outros capitalistas para investirem em empresas e startups. Nesse modelo, já não se trata de uma pequena empresa que começou com dois sócios que sabiam da sua área de atuação e, com investimento, criaram grandes impérios, como acontecia no passado. Entendemos que esse é mais um exemplo que ilustra a primazia do capital, que em nada se interessa por desenvolvimento social.

Por último, sugerimos uma ideia de progresso que não seja ordenada pelo capital, pois só assim ele poderá começar antes do seu próprio fim. Parar o progresso para que ele possa acontecer é fundamental nesse momento. Quando nos referimos ao progresso como um processo linear e evolutivo, cujo ordenador é alguém de fora, falamos justamente da importância de não aceitar uma ideia pronta de progresso.

A presunção de que podemos mapear comunidades e vidas nos leva ao retorno da violência desse progresso, como, por exemplo, a gentrificação que mencionamos. Não há progresso onde há exclusão de pessoas. Sair do lugar de impotência e falta de imaginação política passa por duvidar do progresso capitalista.

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