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segunda-feira, 20 de maio de 2024

Aos 83 anos, Bancário demitido pela ditadura militar é reintegrado ao Banco do Nordeste

Após demissão em 64, sindicalista conquista terceira reintegração ao Banco do Nordeste. Militares impuseram um regime de perseguição política que cassou o emprego de milhares de brasileiros.

Esio Melo | Maceió


BRASIL A luta por justiça, reparação e democracia continua conquistando vitórias contra a ditadura militar. Neste mês de abril, 59 anos após o golpe de 1964, o bancário Petrúcio Lages conquistou sua terceira reintegração ao Banco do Nordeste.

Petrúcio foi demitido pelos militares em 1964 e desde 2016 enfrenta uma batalha jurídica por seu emprego. Hoje, tem 83 anos e é diretor do Sindicato dos Bancários de Alagoas.

Sua reintegração foi comemorada com um ato político nas repartições da Agência Centro do Banco do Nordeste na cidade de Maceió. Acompanhado de dirigentes sindicais, de membros do Comitê Memória, Verdade e Justiça de Alagoas e representantes de organizações políticas, Petrúcio Lages, também conhecido como “O bancário que não se rende” (documentário disponível no Youtube), contou um pouco de sua história e agradeceu a vitória de retornar ao trabalho.

Perseguido, preso, humilhado e sem direito a defesa

“Fui perseguido, preso, humilhado, demitido sem direito a defesa. Porque me exilei, consegui sobreviver e possa contar a história de uma noite de horror que se abateu sobre nossa nação por 21 anos”, disse o sindicalista que foi preso em abril de 1964, acusado de “subversivo” por ter participado da greve em 1963, que conquistou equiparação salarial e outros benefícios com o Banco do Brasil.

“Volto com muita alegria, depois de mais uma sofrida batalha, enfim vitoriosa, pelas mãos zelosas da Justiça do Trabalho, numa brilhante decisão do digníssimo desembargador dr. João Leite, que, em notável sentença, decidiu pela minha reintegração provando que vale a pena os trabalhadores, como eu, lutarem por seus direitos, resistirem ao arbítrio, às injustiças e aos autoritarismo. A palavra mais importante de nossos dicionários deveria ser sempre ‘resistência’. Resistir sempre, desistir jamais!”, discursou o bancário.

A disputa jurídica pela reconquista do emprego começou ainda em 1990, quando buscou, pela primeira vez após o fim da ditadura, retornar ao Banco por meio administrativo. Com a negativa, em 1992, entrou com ação na Justiça do Trabalho.

A primeira decisão favorável aconteceu em um novo processo impetrado em 2007 e só julgado em 2016, quando Petrúcio já tinha completado 76 anos.

59 anos depois, Patricio Lages volta a trabalhar no Banco do Nordeste. (Foto: Esio Melo)

Reintegrações

Mesmo assim, em 2020, o banco volta a demitir o bancário sob alegação que a Reforma da Previdência de Bolsonaro não permite trabalhadores em empresas públicas com mais de 75 anos. De imediato, o sindicato entra com nova ação na justiça demonstrando que a lei não poderia retroagir para prejudicar o bancário e, em 2021, conquista nova reintegração de Petrúcio.

“Não bastasse a prisão política e outras arbitrariedades cometidas contra Petrúcio Lages pelo regime de exceção, a cúpula do BNB no governo Bolsonaro atuou para manter esse lixo autoritário, já que existia ato jurídico perfeito e o banco não poderia ter demitido o colega. A nova decisão da Justiça é uma vitória de todos os trabalhadores, principalmente da nossa categoria”, disse Thyago Miranda, diretor do Sindicato e funcionário do BNB.

O banco recorre e consegue anular a sentença, demitindo Petrúcio mais uma vez em agosto de 2022. O sindicato solicitou revisão da decisão e conseguiu, após audiência conjunta com membros do Comitê Alagoas por Memória, Verdade e Justiça, que o desembargador João Leite concede efeito suspensivo, reintegrando Petrúcio ao banco enquanto o recurso de revista não for julgado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST). É preciso lutar pela punição dos militares e cúmplices da ditadura militar fascista e reparação a todas as vítimas.

 

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