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domingo, 21 de abril de 2024

Yaku Pérez, alternativa à corrupção e à repressão no Equador

Às vésperas do primeiro turno das eleições extraordinárias, o povo equatoriano se vê com a possibilidade de eleger uma candidatura indígena e popular para presidente. Organizações revolucionárias e de esquerda também apresentam importantes listas para as eleições parlamentares numa eleição marcada pela violência e corrupção.

Queops Damasceno | Quito, Equador


INTERNACIONAL – A última pesquisa autorizada a ser divulgada antes do primeiro turno das eleições do Equador coloca a correísta Luisa González em primeiro lugar, com 29,26%; em seguida, está Yaku Pérez, da aliança Claro que se Puede, listas 2-17-20, com 14,42%; e em terceiro lugar, Otto Sonnenholzner, da aliança Actuemos, listas 8-23, com 12,36%.

Partido verdadeiramente socialista que encabeça a lista de candidatos a Deputados e a própria campanha do indígena Yaku Pérez, oriundo dos protestos de rua contra os sucessivos governos neoliberais, antidemocráticos e privatistas, a Unidad Popular (UP), de número 2 – tem avançado para recuperar espaços que foram usurpados devido à perseguição que levou à ilegalidade diversas organizações políticas, incluindo o Movimento Popular Democrático.

Nessa disputa eleitoral, Yaku Pérez, ambientalista que possui o apoio do Partido Socialista Equatoriano (PSE) e do movimento Democracia Sim, além de uma parcela extraoficial do Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik, confronta dois candidatos que representam os governos recentes do Equador, sendo eles responsáveis pela atual crise política, econômica e de segurança pública enfrentada pelo país.

“Este processo é atípico devido à convocação incomum e ao tempo limitado, mas ainda é um típico embate político entre interesses de classes. A aliança Claro que se puede e Yaku Pérez representam os trabalhadores e o povo, enquanto outras candidaturas, como González, Sonnenholzner, Topic e Hervas, representam o passado marcado pelo desemprego e pobreza”, afirma Ricardo Naranjo, Presidente da Juventud Revolucionária del Equador.

“González es Correa”

A candidatura de Luisa González, apoiada por Rafael Correa, representa a corrupção e a repressão do correísmo durante seus 10 anos de governo. Seu histórico evidencia a corrupção associada ao governo de Correa, com casos como o Subornos, que resultou na condenação de Correa e outros por corrupção, e o Caso Odebrecht, que também envolveu membros do governo em atividades criminosas. Essa candidatura representa a repressão que marcou o uso do sistema judiciário para perseguir aqueles que discordavam do governo, incluindo a criminalização de protestos sociais e o uso da comunicação estatal para influenciar as decisões judiciais.

Por outro lado, a candidatura de Yaku Pérez representa uma alternativa que desafia a corrupção e a repressão do correísmo. A promoção de mudanças sociais e econômicas, incluindo o combate ao desemprego, que afeta atualmente 7 em cada 10 equatorianos, e a melhoria da educação, por meio da implementação do acesso livre à universidade e da criação da Universidade do Sul de Quito, distingue sua plataforma.

Otto: o “coringa” da burguesia

Otto Sonnenholzner, o principal candidato da grande burguesia, é visto como a escolha da elite para controlar as empresas estatais e privatizá-las de uma vez. Às vésperas das eleições de agosto de 2023, à medida que cresce o apoio popular a Yaku Pérez, colocando-o em segundo lugar nas pesquisas e, consequentemente, no segundo turno das eleições, a burguesia promove incansavelmente a candidatura de Sonnenholzner. Otto foi Vice-Presidente durante o governo de Lenin Moreno, período no qual foi implementado o pacote antipopular que tinha como carro-chefe o aumento dos preços dos combustíveis e que desencadeou a repressão mais violenta contra os grandes protestos que tomaram conta do país em 2019. 

Agora, ele também representa a continuação da política de Guillermo Lasso, o atual presidente que dissolveu a Assembleia Nacional através de um ato ditatorial e antecipou as eleições para escapar do processo de impeachment que seria aprovado pelo poder legislativo.

No âmbito da previdência social, sua proposta ecoa a comissão criada por Lasso, visando reduzir em 40% a contribuição do Estado e criar fundos de poupança complementares. Na saúde e educação, Sonnenholzner promove a privatização e diminui ainda mais a qualidade da educação pública. Sua proposta para a segurança pública, de cunho fascista, implica no fortalecimento do sistema penitenciário, aumento das penas e parcerias com empresas privadas.

“No aspecto econômico, ele busca entregar recursos naturais às mãos privadas, inclusive as Ilhas Galápagos, em troca da dívida do Estado com organismos multilaterais. Sua proposta é uma continuação da agenda de Lasso, alinhada aos interesses da elite. Otto é um coringa nas eleições, um representante da burguesia que procura perpetuar políticas que beneficiam a elite às custas do país”, afirma Geovanni Atarihuana, ex-presidente da UP e atual candidato à deputado federal pela sigla.

Em defesa de Yasuní e Chocó Andino

Uma campanha pela Consulta Popular sobre o Yasuní e o Chocó Andino está em intensificação, e é esperado que os equatorianos detenham as ambições das transnacionais de petróleo em Yasuní e as mineradoras que visam explorar as riquezas minerais no nordeste de Quito, conhecidas como Chocó Andino.

A reserva do Parque Nacional Yasuní tem riqueza natural e biodiversidade inestimável à humanidade. Inclusive lá vivem atualmente muitas etnias indígenas das quais pelo menos duas não conectadas. E onde várias empresas operam, mostrando pouco ou nenhum respeito pelo fato de o parque ser considerado um pulmão vital para o planeta. Sendo crucial pôr fim de maneira definitiva à exploração petrolífera e mineira.

As petrolíferas dos países imperialistas evidenciam uma voracidade sem limites, priorizando interesses econômicos em detrimento da vida, tanto das espécies animais quanto humanas que habitam a área. A vitória do SIM na consulta seria um triunfo na defesa da vida e um freio na ganância de empresas petrolíferas e mineradoras.

Em defesa do Chocó Andino também se desenvolve uma luta persistente, apesar de medidas governamentais que favoreceram empresas mineradoras, como a chilena Corporación Nacional del Cobre (Codelco) e a estatal Empresa Nacional Minera (ENAMI), que avançaram nas atividades de exploração.

A defesa destas duas regiões, da despoluição dos rios e das condições de vida do povo equatoriano tem se convertido nas principais bandeira de Yaku, convertendo a própria eleição em um momento de debate para fortalecer a democracia popular e propor consultas públicas para que o povo seja um agente ativo no processo político. Já os concorrentes, Luisa e Otto, concordam com a mineração nessas áreas e colocam em ambas as campanhas a pauta do desenvolvimentismo completamente descolado da defesa do meio ambiente e da vida.

A entusiástica adesão que a candidatura de Yaku Pérez provoca entre os setores populares de todo o país tenta ser “diminuída”, com pesquisas falsas encomendadas unitariamente pelos concorrentes que falam de uma suposta queda em sua porcentagem de intenção de voto, para colocá-lo fora do segundo turno eleitoral. Assim também operaram unidos os correístas e os lassistas nas eleições presidenciais anteriores, para então consumar a fraude que levou Lasso ao segundo turno. 

Insegurança Pública

No último dia 23 de julho, Agustín Intriago, prefeito da cidade de Manta, pai de duas crianças, foi assassinado enquanto visitava um projeto municipal, causando comoção em toda a região portuária do Equador. O governo federal impôs toque de recolher das 22h às 5h por 60 dias em resposta. Na ocasião, Lasso reconheceu que “o crime organizado infiltrou-se no Estado e na sociedade”.

Dois dias depois um massacre em uma prisão de Guayaquil, cidade mais populosa do Equador, resultou na morte de 31 detentos e em uma onda de violência que se estendeu à província de Esmeraldas, na fronteira com a Colômbia. O conflito levou a veículos incendiados, ameaças de bomba e rebeliões e o sistema penitenciário foi declarado em emergência por 60 dias pelo presidente. Os recorrentes massacres ocorridos nas prisões, desde fevereiro de 2021, totalizam mais de 420 mortes de detentos.

Em 9 de agosto, o candidato presidencial Fernando Villavicencio foi assassinado em Quito após comício. O crime ocorreu quando ele entrava em seu veículo após discursar sobre sua proposta de governo. Villavicencio era um dos oito candidatos nas eleições antecipadas.

A notícia chocou os demais candidatos, como Yaku Pérez, que suspendeu sua campanha em sinal de luto, exigindo mais segurança para os candidatos e o processo eleitoral. Organizações sociais também condenaram o crime e responsabilizaram o governo de Guillermo Lasso pela situação econômica e social do país.

O assassinato visou alterar o cenário político, potencialmente sabotando as eleições e alterando as preferências e tendências do eleitorado a poucos dias das votações. Familiares do candidato responsabilizam o governo e a polícia por não garantir sua segurança. E os candidatos terão apenas mais cinco dias de campanha até o primeiro turno.

Matéria publicada na edição nº 277 do Jornal A Verdade.

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