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terça-feira, 23 de abril de 2024

Trabalhadores continuam passando fome no Brasil

Segundo relatório publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), no último mês de setembro, 21 milhões de brasileiros e brasileiras passaram fome e não tiveram o que comer todos os dias. Outros 70 milhões estão em insegurança alimentar, ou seja, não sabem se terão alimentos na próxima refeição e são obrigados a comer menos do que precisam.

João Coelho | Coord. Nacional do MLB


BRASIL – Esse é o resultado da crescente exploração sobre a classe trabalhadora realizada pela burguesia nacional e internacional. Desde 2016, o número de pessoas em situação de fome no Brasil aumenta ano a ano, chegando, em 2022, ao mesmo patamar do final da década de 1990.

Apesar da importante vitória eleitoral sobre Bolsonaro e da conquista de um Governo com maior espaço para investimentos sociais e melhorias para a classe trabalhadora, a situação do povo brasileiro continua trágica e precisa de medidas emergenciais e profundas para mudar esse quadro.

Para Luze Augusta, 38 anos, moradora da Ocupação João Mulungu, em Aracaju (SE), “é uma dificuldade criar meus quatro filhos e meu neto, porque o salário que a gente ganha é uma porcaria, não dá pra se alimentar. Mesmo sem pagar aluguel, pois mora na ocupação do MLB, o preço do arroz, do feijão, do botijão de gás é um custo muito alto para quem ganha tão pouco”.

Programas sociais importantes, como o Bolsa Família, retomado neste ano, são insuficientes, como relata Evilene Araújo, mãe de cinco filhos e moradora do Distrito Federal. “Recebo R$ 1,200 pelo Bolsa Família, pago aluguel, água, luz, mas, pra ir no mercado hoje em dia, somente com esse valor, é muito complicado, porque a comida tá cara demais, um absurdo. Então, muitas vezes, a gente que é mãe solo, tem que tirar da boca do próprio filho pra poder pagar uma conta, pagar uma luz, pagar uma água, porque senão se cortar a água e a luz, como é que você vai viver? Ainda tem o aluguel. Eu não consigo guardar 10 centavos que seja pra uma necessidade. O dinheiro dá somente pra isso. As crianças precisam de roupa, mas não posso comprar roupa. Precisa de um calçado, mas tem que pôr um grampo e um prego no chinelo porque o dinheiro não dá pra comprar uma sandália”.

Além de aumentar a exploração sobre o trabalho, reduzindo os salários e retirando direitos dos trabalhadores, a burguesia desmontou as políticas de combate à fome nos últimos anos, retirando literalmente o pão do prato do trabalhador para aumentar seus lucros. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que determina que 30% dos alimentos destinados a escolas, hospitais e outros equipamentos públicos sejam comprados da agricultura familiar, teve uma redução de 90% de seu orçamento de 2012 a 2022. Já o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que acompanhava a execução e implementação de políticas direcionadas à produção de alimentos saudáveis e combate à desnutrição, foi extinto no primeiro dia de gestão do fascista Bolsonaro.

“Estamos passando um momento muito difícil, sem trabalho e criando duas crianças. A alimentação que as crianças recebem na escola é muito importante. Quando não tem aula, às vezes, temos o almoço, mas não temos a janta, porque não conseguimos garantir duas refeições em casa. É um absurdo que cortem o dinheiro que vai para garantir comida para quem precisa, em especial às crianças”, critica Alexandra Melo, 38 anos, moradora do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. De fato, no final do último ano, eram cerca de 14 milhões de crianças e adolescentes privados de uma alimentação adequada no país.

Natal Sem Fome

Essa chaga social atinge os trabalhadores durante o ano todo, porém, no Natal, a hipocrisia da burguesia, dos ricos patrões, é ainda mais evidente. Enquanto, por um lado, as redes de televisão transmitem ceias com abundância de comida, as grandes redes de supermercado – em sua maioria, multinacionais – e os grupos que monopolizam a produção e a distribuição de alimentos lucram bilhões, por outro, grande parte do povo é impedido de ter uma refeição digna.

Todos os anos, o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) realiza uma grande campanha de denúncias e lutas contra a fome durante os meses de novembro e dezembro, chamada de “Natal Sem Fome”. O objetivo é reforçar a jornada de lutas contra a fome que o MLB realiza durante todo o ano nas periferias e bairros populares do país, apontando os verdadeiros culpados pela situação precária em que vivem milhões de brasileiros: a burguesia, os grandes ricos, os banqueiros e os governos que os defendem.

O agronegócio, por exemplo, lucrou, em 2022, R$ 159 bilhões em exportações e, todos os anos, aumenta a produção de soja e milho que vai para fora do país, enquanto reduz a produção de alimentos para o povo, como o arroz e o feijão, investindo para aumentar seus lucros mesmo que a consequência seja o encarecimento dos alimentos e a fome de milhões de trabalhadores.

Além de lutar para garantir o pão na mesa, para que nenhuma família passe fome no Natal, a campanha reforça a luta por medidas que, de fato, combatam essa situação de tragédia nos bairros pobres, como o aumento do salário-mínimo, a realização da reforma agrária, o controle nos preços e o combate ao monopólio da produção e distribuição dos alimentos no país.

Maria, moradora da comunidade Linhas Correntes, na Zona Leste de São Paulo, relata: “Faço parte do MLB há um ano e aprendi que nós temos que ir à luta. No ano passado, fizemos uma marcha contra a fome e conquistamos cestas básicas para milhares de famílias. Neste ano, estou na luta novamente. Podem contar comigo. Muita gente está desempregada, morando na rua. A situação é muito triste na nossa comunidade, enquanto os ricos estão cada vez mais ricos. Por isso, vamos para a batalha. Queremos ter uma ceia de Natal em que nossas famílias, principalmente as crianças, não passem necessidade”.

Matéria publicada na edição nº 283 do Jornal A Verdade.

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