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sexta-feira, 19 de abril de 2024

Roseli Nunes e a luta das mulheres sem terra

No próximo dia 31 de março se completa 37 da imortalidade de Rose Nunes: agricultora, sem terra e uma das principais dirigentes da luta por reforma agrária na região Sul do país.

Gabriela Torres | Paraná


MULHERES – Roseli Celeste Nunes da Silva; ou Rose, como era conhecida; foi uma dirigente do Movimento Sem Terra (MST). Defensora do direito das mulheres, trabalhadora da agricultura e mãe de três filhos, Rose organizou a ocupação da Fazenda Annoni, consolidada por mais de 7 mil famílias sem terra no norte do Rio Grande do Sul, a maior ocupação da história do estado. 

Originária de Rondinha, um pequeno município gaúcho, se organizou e se tornou uma militante pela vida dura que viveu desde cedo: “Ela dizia que na cidade passava fome e que na luta pela terra, ao menos, teria onde plantar alimentos para sobreviver. Na hora de fazer a segurança ela sempre estava lá, nunca arredava o pé do acampamento. Sempre sorrindo, era positiva e para frente, nada a puxava para trás. Rose defendia os direitos das mulheres, falava que não podíamos nos acomodar e que tínhamos que lutar ao lado dos homens” relata Juraci Lima, assentada do MST que conheceu a revolucionária.

Em uma conjuntura de transição democrática, quando a mobilização popular acabava de conquistar o fim do terror militar que perdurou 21 anos, trabalhadores rurais fundaram o Movimento Sem Terra, um movimento camponês nacional, na cidade de Cascavel, Paraná; para defender a democracia e lutar pela reforma agrária, prometida desde João Goulart, antes do golpe fascista de 1964.

A fazenda Annoni foi reconhecida como um latifúndio improdutivo em 1972. Porém, o caminho institucional para garantir a desapropriação era moroso, e os pequenos agricultores do norte gaúcho passavam fome. O acampamento se instalou em 29 de outubro de 1985 com 1.500 famílias, quase 8.000 trabalhadores na ocupação. Com a falta de respostas do governo estadual, Rose junto ao resto das lideranças organizou uma passeata que saía de Sarandi até a capital – um percurso de mais de 500km, e que se encerrou com a ocupação da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul para exigir soluções aos sem terra. Carregando uma cruz à frente da multidão, entoando cantos sonhando com a “terra prometida” como nos escritos bíblicos, conquistaram a esperada desapropriação a partir da chegada à Porto Alegre. Rose foi a coordenadora da cozinha que garantiu a estrutura do acampamento dentro da Assembleia, e não abaixou a cabeça diante das dificuldades: “Se fosse preciso, de novo faria. Iria até Brasília se fosse preciso nessa luta pela terra”.

O exemplo de Rose impressiona pela força, apesar de ter sofrido com as dificuldades cotidianas das mulheres trabalhadores e pobres: trabalhava de agricultora morando de favor em uma fazenda, com direito apenas à metade do que plantava. Foi dispensada após a chegada de maquinário no latifúndio e passou fome. Chefe de família, era mãe de duas crianças, e deu à luz ao terceiro filho, Marcos Tiaraju, dias após a ocupação, a primeira criança a nascer em um assentamento do MST. Seus depoimentos registrados no documentário Terra para Rose apresenta ao espectador a sua postura combativa e inabalável, mesmo nos momentos mais difíceis. Durante o cerco da brigada que proibiu a entrada de mantimentos e materiais para a construção dos barracos, se manteve firme, e declarou aos jornalistas que estava ali para que os seus filhos pudessem viver um futuro diferente. 

Rose foi covardemente assassinada pelo latifúndio aos 33 anos, após o atropelamento feito com um caminhão a um cordão humano de militantes da ocupação, que resultou em mais de 14 feridos e 3 mortos. Seu legado para a luta feminista e a luta dos trabalhadores pela terra é um farol a todos os revolucionários que herdam a luta por reforma urbana e agrária e sonham com justiça para a maioria de brasileiras.

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