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domingo, 18 de janeiro de 2026

Violência contra as mulheres cresce na região do Alto Tietê (SP)

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Dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado mostram que a região do Alto Tietê registra, em média, 5 feminicídios por ano. Uma situação alarmante, mostrando que a violência contra as mulheres na região tem crescido nos últimos anos.  Para lutar pela vida das mulheres, o Movimento de Mulheres Olga Benario realizou uma ocupação na região.

Amanda de Lucca e Lis Sousa | Alto Tietê (SP)


MULHERES – De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado, a região do Alto Tietê se encontra num quadro alarmante com relação à violência contra as mulheres: em média, a região registra cerca de 5 feminicídios por ano. Só entre 2014 e 2023, um total de 49 mulheres foram assassinadas devido à violência doméstica ou à discriminação de gênero. Porém, esse número não reflete a totalidade das vítimas, uma vez que muitas agressões não são denunciadas, revelando um problema ainda mais profundo e invisibilizado.

As cidades com os maiores índices de feminicídios são Itaquaquecetuba, com 12 casos; Mogi das Cruzes, com 11; e Suzano, com 10. Juntas, essas três cidades representam 67,3% de todos os feminicídios registrados na região.

O perfil das vítimas também é preocupante. 33 mulheres foram assassinadas dentro de suas próprias casas, evidenciando que a violência ocorre em ambientes onde deveriam estar seguras. Além disso, 26 das vítimas eram mulheres negras, e metade delas tinha 30 anos ou menos. Esses dados ilustram como gênero, raça e classe social estão interligados, criando barreiras para que essas mulheres acessem recursos e saiam do ciclo de violência.

Outro fator preocupante é o aumento dos casos de estupro na região. Em outubro de 2023, houve um aumento de 34% em relação ao mesmo período de 2022, com 17 casos de estupros e 42 estupros de vulnerável registrados. Itaquaquecetuba e Suzano aparecem novamente com 14 casos cada. O aumento dos registros reflete não apenas a maior incidência desses crimes, mas também as dificuldades que muitas mulheres enfrentam para denunciar, seja por falta de apoio, medo de represálias ou vergonha.

A Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) registrou 5.324 denúncias de violência contra a mulher em 2023, um aumento de 23,4% em relação ao ano anterior – uma média de 14 denúncias diárias. A análise dos dados mostra que a violência contra a mulher se mantém constante ao longo do tempo, refletindo a falta de serviços especializados, como a falta de delegacias especializadas 24 horas, e políticas públicas eficazes.

O capitalismo tem um papel central na perpetuação dessa violência, uma vez que privilegia a manutenção de hierarquias sociais que reforçam desigualdades de gênero e classe. As regiões mais afetadas são também aquelas onde mulheres negras e de baixa renda têm menos acesso a serviços de suporte e proteção.

A Ocupação Alexina Crespo

No dia 25 de novembro de 2024, o Movimento de Mulheres Olga Benario ocupou um imóvel abandonado para criar a Casa da Mulher Trabalhadora Alexina Crespo, localizada em uma rua marcada pela prostituição e violência. A ocupação foi uma resposta à negligência do poder público na proteção das mulheres em situação de vulnerabilidade. No entanto, as mulheres sofreram um despejo violento e foram ameaçadas pelo suposto proprietário do imóvel.

Movimento de Mulheres Olga Benario constrói a Casa da Mulher Trabalhadora Alexina Crespo para acolher mulheres. Foto: Pedro Baskia.
Movimento de Mulheres Olga Benario constrói a Casa da Mulher Trabalhadora Alexina Crespo para acolher mulheres. Foto: Pedro Baskia.

A coordenadora da ocupação, Lis Sousa, relata: “A Casa da Mulher Trabalhadora Alexina Crespo nasceu no Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher para realizar, de forma autônoma e coletiva, o serviço de acolhimento e enfrentamento à violência contra a mulher, juntamente com o apoio no cuidado às crianças das mães atendidas. Esses pontos são negligenciados pela prefeitura de Suzano, que desde 2016 é governada pelo partido fascista do PL”.

Durante a ocupação, funcionários do proprietário começaram a abordar as mulheres, tentando intimidá-las. “Pela manhã, começaram a nos abordar, questionando o motivo de estarmos lá, com comentários feitos para nos amedrontar. Em seguida, carros começaram a passar lentamente pelo local, filmando e vigiando a casa. Cerca de uma hora e meia depois, o proprietário chegou em um carro de luxo, escoltado pela Polícia Militar, exigindo nossa retirada e alegando que o imóvel seria colocado para locação futuramente”, relata Lis Sousa.

A ação truculenta da polícia evidenciou sua atuação em defesa dos interesses dos ricos, em detrimento da vida das mulheres. O despejo violento demonstrou o alinhamento das forças do Estado com a especulação imobiliária, priorizando o lucro em vez da função social dos imóveis.

A prefeitura de Suzano não cumpriu a promessa de dialogar diretamente sobre o projeto, limitando-se a atender as mulheres na porta do prédio público e por meio de intermediários. Essa postura reforça a falta de compromisso das autoridades com políticas públicas eficazes de combate à violência contra a mulher.

As ocupações do Movimento de Mulheres Olga Benario são uma resposta à ausência do Estado e uma denúncia contra a especulação imobiliária. Além de oferecer acolhimento imediato, essas ações promovem conscientização e organização para a transformação social. A longo prazo, buscam organizar as mulheres e a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Sobre a situação do imóvel, Lis Sousa destaca: “O imóvel ocupado estava abandonado há anos, sem função social, servindo apenas como ponto de uso de drogas e espaço de extrema vulnerabilidade para as mulheres que passavam pelo local. Além disso, ao entrarmos no imóvel, encontramos um cenário de total abandono: mofo por toda a estrutura, paredes e teto com rachaduras, reboco cedendo, sujeira, parasitas e inúmeras embalagens de preservativos espalhadas pelos cômodos. Diante dessa situação, nos organizamos para realizar a limpeza e a reestruturação do espaço, tornando-o adequado para acolher as mulheres que necessitam de apoio”.

Essas ações são fundamentais para pressionar o poder público, denunciar as omissões do Estado e fortalecer a organização das mulheres. Em um contexto de violência estrutural e sistêmica, as ocupações assumem um papel estratégico: tornam-se expressões concretas de resistência coletiva e da luta por uma vida digna, livre de violência e pelo fim do sistema capitalista.

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