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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A Internacional: o canto da emancipação dos trabalhadores

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Tati Bornato –
São Paulo


CULTURA – Há poesias que atravessam o tempo não apenas como lembrança, mas como força viva da história. A Internacional pertence a essa categoria. Nascida do fogo da luta de classes, na Comuna de Paris de 1871, ela expressa o primeiro grito de esperança da classe trabalhadora.

O autor desta poesia, o francês Eugène Pottier, era um operário, poeta e militante da Comuna de Paris. Filho de uma família pobre começou a trabalhar ainda criança. Aos 13 anos era aprendiz de gravador[1] e desenhista têxtil. Durante a juventude, mergulhou nas ideias socialistas que agitavam Paris no século XIX.

Participou da Revolução de 1848, quando o povo francês derrubou a monarquia e proclamou a Segunda República. Foi nas barricadas dessa revolta que Pottier entendeu, de forma definitiva, que a libertação do povo não viria das promessas dos burgueses, mas da luta consciente dos trabalhadores.

Em 1871, quando o povo de Paris se levantou e instaurou a Comuna de Paris, Pottier estava entre os que transformaram a vontade em prática. Foi eleito delegado do 2º distrito e defendeu medidas que fariam da Comuna o primeiro governo operário da história: o controle popular sobre os mandatos, o fim do exército permanente, a socialização das fábricas, a separação entre Igreja e Estado e a igualdade entre homens e mulheres.

Durante 72 dias, os trabalhadores transformaram Paris na capital do proletariado mundial. Pela primeira vez na história, o povo trabalhador governava para si. Instaurou-se ali a primeira experiência concreta do socialismo científico.

A resposta da burguesia foi a repressão. A Semana Sangrenta assassinou cerca de 30 mil trabalhadores. Pottier foi condenado à morte e obrigado a fugir. No exílio continuou trabalhando como operário e manteve viva sua militância socialista. Foi durante esses anos de exílio, entre o frio das fábricas inglesas e as ruas tumultuadas de Nova York, que Pottier escreveu o poema “L’Internationale”.

Em pequenos quartos alugados, vivendo do próprio trabalho, ele passava as noites escrevendo versos para manter viva a memória dos camaradas mortos. O poema nasceu como uma carta à humanidade futura, um chamado à união dos oprimidos, escrito por um homem que acreditava, contra toda a derrota, que a história ainda estava do lado do povo. Cada linha carrega o eco das barricadas, o cheiro da pólvora e o som das vozes proletárias sufocadas pela repressão.

Ao afirmar que “senhores, patrões, chefes supremos, nada esperamos de nenhum”, Pottier sintetizava a lição mais profunda deixada pela Comuna: a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.

Foi desta análise material que fez de A Internacional não apenas o hino de uma época, mas a canção universal da luta pela libertação humana.

Pottier voltou à França em 1880, após a anistia concedida aos sobreviventes da Comuna. Filiou-se ao Partido Operário Francês, ao lado de Jules Guesde e Paul Lafargue, genro de Karl Marx, publicou em 1887 o livro “Chants Révolutionnaires” (músicas revolucionárias), reunindo seus poemas de combate.

Mesmo envelhecido e doente, manteve-se firme no campo socialista, escrevendo até seus últimos dias. Morreu em 6 de novembro de 1887 sendo honrado pelo povo. Seu corpo está no Cemitério do Père-Lachaise, ao lado dos mártires da Comuna. Ali, sob a sombra das árvores e das bandeiras vermelhas, repousa o homem que deu à humanidade uma canção imortal.

Eugène Pottier foi mais do que um poeta, foi um combatente do povo. De sua pena nasceu o hino que uniu gerações inteiras na luta pela emancipação dos trabalhadores. Enquanto houver injustiça, miséria e exploração, sua voz continuará a ecoar nas ruas do mundo, lembrando-nos que:

“Bem unidos façamos, nesta luta final,
Uma terra sem amos, A Internacional!”

Em 1888, um ano após sua morte, o também operário e músico Pierre Degeyter, morador da cidade operária de Lille, no norte da França, deu melodia aos versos da Internacional. A canção foi apresentada pela primeira vez num encontro sindical, entoada por coros de trabalhadores têxteis. Simples, vibrante e profundamente coletiva, sua melodia se espalhou rapidamente pelas fábricas e reuniões operárias, ultrapassando fronteiras e idiomas.

A Internacional: a voz do povo em luta

A Internacional foi adotada como hino oficial do movimento operário em 1889, durante o Congresso da Segunda Internacional, e reafirmada pela Terceira Internacional Comunista em 1919. Traduzida e adaptada em dezenas de idiomas, ela nunca perdeu seu conteúdo revolucionário. No Brasil, o hino chegou com o avanço das ideias socialistas no início do século XX.
Foi cantado nas greves operárias de 1917 e 1919, e, mais tarde, durante a ditadura militar, tornou-se símbolo de resistência. Cantar A Internacional é reafirmar que a luta de classes continua viva.

Os versos de A Internacional condensam um programa político. Cada estrofe é uma bandeira de combate, um manifesto em forma de canção.

“De pé, ó vítimas da fome / De pé, famélicos da terra”
É o chamado à união dos trabalhadores do mundo. O grito que rompe a passividade e convoca os oprimidos à consciência e à ação coletiva.

“Cortai o mal bem pelo fundo / De pé, de pé, não mais senhores”. Afirma a necessidade de destruir as raízes da exploração capitalista. Não basta reformar, é preciso transformar radicalmente as bases da sociedade.

“Senhores, patrões, chefes supremos / Nada esperamos de nenhum”. Denuncia a farsa dos “salvadores” e das instituições burguesas. A libertação virá da ação dos trabalhadores, em acordo com o princípio marxista: “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.”

“O crime do rico a lei o cobre / O Estado esmaga o oprimido”, revela a natureza de classe do Estado e da justiça capitalista. A lei protege o poder econômico e criminaliza a pobreza.

“Os reis da mina e da fornalha / Edificaram a riqueza / Sobre o suor de quem trabalha”
Expõe a verdade econômica que o capitalismo tenta ocultar: toda riqueza nasce do trabalho, e não do capital. É a mais-valia cantada em verso.

“Façamos greve de soldados / Somos irmãos trabalhadores”
Clama pela fraternidade internacional e pelo rompimento com o militarismo burguês. O soldado, irmão de classe, deve recusar o papel de instrumento da repressão e juntar-se ao povo.

“Pertence a Terra aos produtivos / Ó parasita, deixa o mundo”
É a síntese da canção, proclamação de um novo mundo sem exploradores nem explorados. O trabalho é a base da vida, e os parasitas da riqueza devem ceder lugar ao sol dos trabalhadores livres.

Cada estrofe, portanto, traduz em linguagem poética o conteúdo essencial do socialismo científico. A Internacional é ao mesmo tempo história, teoria e futuro, o espelho musical da consciência revolucionária.

A atualidade do hino

Mais de 150 anos depois, A Internacional continua a ecoar nos atos e nas marchas de todo o mundo. Em cada greve e mobilização, o canto de Pottier ressurge como lembrança e como promessa: enquanto houver injustiça, haverá quem lute, de punhos erguidos, a certeza de que “se nada somos neste mundo, sejamos tudo, ó produtores”.

Cantar A Internacional é recordar os mártires da Comuna e os construtores da Revolução de Outubro. É afirmar que o poder pertence ao povo e que enquanto houver exploradores e explorados, esse hino continuará vivo, como o grito universal dos que lutam para transformar o mundo.

[1] Na Paris do início do século XIX, o ofício de gravador era uma das atividades mais simbólicas da transição entre o artesanato e a indústria moderna. O jovem aprendia a entalhar imagens em madeira ou metal para reproduzi-las em livros, panfletos e tecidos — um trabalho que unia precisão manual e senso artístico.

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