O relatório parcial apresentado pela Comissão da Verdade da instituição mostra a quantidade de estudantes, técnicos e professores que foram perseguidos pelo regime na instituição de 1964 até 1985.
Redação Pernambuco
HERÓIS DO POVO- A Comissão da Verdade, Memória e Reparação da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe) apresentou um relatório parcial de sua pesquisa sobre o impacto e a presença da ditadura militar no cotidiano e funcionamento da instituição nos anos de chumbo. Os dados foram apresentados na manhã do dia 31 de março, data importante por se tratar da véspera do golpe naquele fatídico ano de 1964.
O estudo aponta as perseguições do regime entre estudantes, técnicos e professores. A pesquisa, intitulada “A UFPE e o compromisso com as memórias” contou, no ato de lançamento, com a presença de ex-estudantes que foram atingidos por essa perseguição, além de entidades do movimento estudantil, professores, sindicatos e reitoria, e foi marcada como uma data histórica e importante, sobretudo quando ainda vemos magistrados saudando o golpe fascista ou defensores de um novo golpe exigindo ‘liberdade de expressão’ em nossos dias.
Entre os dados levantados apontam 132 pessoas detidas ou presas, 6 estudantes mortos, além dos casos de vigilância e monitoramento de todas as atividades na instituição, cortes de bolsas de estudo e apoio financeiro, demissão e exoneração de técnicos e professores, perseguições por meio de assédio moral como prática recorrente e expulsão dos estudantes envolvidos em qualquer tipo de reivindicação ou atuação no movimento estudantil.
“Memória de um tempo sem memória”
O filme O Agente Secreto, do pernambucano Kléber Mendonça Filho mostra um pouco como era o ‘clima’ social dentro das universidades ao mostrar o personagem principal, Armando (Wagner Moura) como um pesquisador justamente da Ufpe, que passa a ser perseguido pelo regime após se posicionar contra a imposição do regime no campo da pesquisa e do financiamento. O filme mostra como a ditadura trabalhou para destruir o ensino, pesquisa e a extensão em todo o país, especialmente após o alinhamento do Brasil com os acordos Mec-Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) que, na prática, era uma política de destruição de nossa ciência e tecnologia para submeter nossa soberania ao governo norte-americano.
Essas perseguições ganharam ares de legalidade após a implementação do AI-5 (aprovado em 13 de dezembro de 1968, com vigência até 1 de janeiro de 1979, quando foi revogado) e a “reforma Meira Matos”, instalada em 1968 no ensino superior e o Decreto 477, aprovado em 26 de fevereiro de 1969 pelo ditador Costa e Silva, que foi a principal ferramenta de perseguição do regime, com repercussão até hoje, sobretudo nos regimentos e estatutos das instituições de ensino superior que ainda não foram modificados, mesmo com o PT tendo estado à frente do país por 5 mandatos.
Alguns estudantes da UFPE atingidos pelo regime militar
Entre os estudantes perseguidos pelo regime foi lembrado na ocasião Cândido Pinto de Melo, patrono da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP), que foi metralhado em uma tentativa de assassinato em 28 de abril de 1969. Cândido era estudante de engenharia da UFPE e presidente da UEP, tendo ficado paraplégico devido o atentado. Cândido morreu em 2001, aos 55 anos, reconhecido até hoje como um dos fundadores do Movimento pelos Direitos das Pessoas com Deficiência.
Umberto Albuquerque Câmara Neto. Estudante de medicina, foi membro do DCE da UFPE, tendo inclusive participado do 30° Congresso da UNE em Ibiúna (SP). Eleito vice-presidente da UNE em 1970, tendo sido preso em 8 de outubro de 1973 pelo Doi-Codi, no Rio de Janeiro, e tendo desaparecido até hoje. Umberto tinha apenas 26 anos quando foi sequestrado.
Marcelo Santa Cruz teve em sua família um histórico de enfrentamento contra o regime. Seu irmão, Fernando Santa Cruz, liderança do movimento estudantil em Pernambuco, foi sequestrado em 23 de fevereiro de 1974, e é um dos muitos desaparecidos políticos até hoje. Marcelo teve seu vínculo com a UFPE cassado em 1969, no 4º ano de Direito enquadrado no Decreto 477 sob a acusação de ‘participar do Diretório Acadêmico do curso.
Ele conta que “até a aproximação com o campus era proibida. Os estudantes cassados tinham que manter uma distância de 300 metros da universidade. Marcelo só pode retomar seu curso três anos depois, e em uma instituição privada no Rio de Janeiro, onde se formou em 1973. O detalhe é que ele chegou a ser perseguido inclusive em Portugal, onde tentou se matricular para continuar seu curso, mas foi proibido pelo governo português a pedido da ditadura brasileira.
Hoje Marcelo é uma das referências na luta pelos direitos humanos no país, foi vereador em Olinda e participa de diversas organizações e comissões que debatem Memória, Verdade, Justiça e Reparação.
Edval Nunes Cajá, sociólogo e presidente do Centro Cultural Manoel Lisboa também foi um dos que estavam presentes na apresentação do relatório parcial da comissão da verdade da UFPE. Cursando Ciências Sociais e membro ativo da Comissão de Justiça e Paz, organizada por Dom Helder, foi sequestrado em 12 de maio de 1978, onde foi torturado por 3 dias e mantido incomunicável por 12 meses pelo regime.
Cajá foi o último preso político a ser libertado pelo governo militar, graças a uma intensa mobilização organizada pelo movimento estudantil de todo país, ação que repercutiu inclusive na imprensa internacional à época.
O livro “Cajá está sendo torturado e você vai à aula?”, do professor da Ufpe Evson Malaquias, lançado em 2021, é um retrato das perseguições e imposições do regime, bem como a capacidade de luta da organização popular. Hoje Cajá preside o Comitê Memória, Verdade, Justiça e Reparação de Pernambuco, recebeu o título de doutor honoris causa pela universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) por seu trabalho em defesa dos direitos humanos, além de continuar como militante em defesa do socialismo até hoje, aos 76 anos.
“Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”
Para o jornal A Verdade, Augusto Costa, estudante de Ciências Contábeis da UFPE e diretor da UNE falou sobre a importância desse resgate promovido dentro da instituição. Segundo ele, “O trabalho dessa comissão na universidade é um ponto crucial para que não apenas os estudantes, mas toda a sociedade consiga redescobrir toda a história que a ditadura militar tentou apagar. São mais de 640 nomes de pessoas que foram perseguidas pelo regime militar, que tiveram suas matrículas caçadas, que foram demitidas, que foram aposentadas involuntariamente. E é um número muito absurdo, que demonstra, de fato, que aquele foi um regime corrupto, criminoso e violento. A perda de Ruy Frasão Soares, Umberto Câmara Neto, Ranúsia Alves foram marcantes para a universidade e para toda a sociedade. Mas o legado dessas pessoas segue vivo. Umberto Câmara Neto, por exemplo, é o patrono do Diretório Central dos Estudantes da Ufpe e do Diretório Acadêmico de Medicina. A Ranúsia Alves foi homenageada nomeando ocupações e entidades do movimento estudantil, como o Diretório Acadêmico de enfermagem da Ufpe e Ruy Frasão é o nome de um residencial conquistado pela luta das famílias do MLB; que dizer, segue vive. Essa é uma prova de quem aqueles que lutam realmente não morre. E um trabalho como esse da Comissão precisa ser cada vez mais ampliado”.